sábado, 1 de dezembro de 2012

O SENTIDO PEJORATIVO DA PALAVRA "SOFISTICADO"


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade que defende a breguice musical brasileira diz que a antiga música das classes populares é "sofisticada". Só que isso não quer dizer um natural reconhecimento do grandioso legado musical do povo pobre, mas sim de uma forma um tanto "cordial" de discriminação cultural.

Daí o sentido pejorativo quando certos intelectuais como o baiano Milton Moura definem a antiga música popular como "sofisticada". Moura é professor da Universidade Federal da Bahia e um dos intelectuais-estrelas badalados em Salvador, e é considerado defensor entusiasmado da cena brega-popularesca local (sobretudo "pagodão" e arrocha).

Isso porque a palavra "sofisticada" não aparece para dar o reconhecimento da alta qualidade artística de nossos maiores sambistas, sanfoneiros, violeiros etc, nem de admitir o grande conceito de suas intuições musicais e até poéticas desses músicos quase sempre autodidatas das classes populares.

A palavra "sofisticada" aparece com um certo tom irônico, pejorativo, como se o que esses artistas fizeram fosse algo "aberrante", fora de seu meio. Como se a beleza artística não fizesse parte das classes populares, e sim o "mau gosto" do brega-popularesco.

Essa postura é muito diferente, por exemplo, da que os grandes nomes da Bossa Nova adotavam em relação ao samba do morro. Os detratores da Bossa Nova, sobretudo José Ramos Tinhorão, acusavam os bossanovistas de terem se apropriado dos sambas do morro para fazerem seu som "americanizado". Não foi assim.

A Bossa Nova era uma coisa diferente. Seus músicos não queriam substituir os sambas originais, mas criar uma outra linguagem que juntava o samba e o jazz e os standards musicais de Hollywood. Nenhuma injustiça. E a admiração que os músicos bossanovistas, como Tom Jobim, e os discípulos deste, como Francis Hime, é simplesmente natural e nada teve ou tem de paternalista.

Francis chegou a passar horas numa noite para musicar uma letra de Cartola, só para mostrar a sua admiração por ele. Ele, músico da fase moderna da MPB (1965-1976), teve clara inclinação pela Bossa Nova, sendo "irmão" artístico de seu caro amigo Chico Buarque e de Edu Lobo, todos "filhos" artísticos de Tom Jobim.

O problema está é na intelectualidade de hoje, comprometida com uma visão paternalista sobre o povo pobre, dentro da tese, de valor altamente constestável, de que o povo pobre é "melhor" naquilo que ele tem de ruim. Essa visão, que corrompe a necessidade de aceitação da ideia do "outro", é tão somente uma desculpa para aceitarmos a miséria e a ignorância dos pobres como se fossem suas caraterísticas inerentes.

Dessa forma, a "evolução musical" esperada pelos intelectuais brasileiros mais badalados é um tanto hipócrita. Primeiro somos "convidados" a aceitar o "mau gosto" como uma suposta expressão natural das classes pobres, e depois deixemos os ídolos desse "mau gosto" se "evoluírem" através da assimilação de macetes da chamada "MPB burguesa".

Ou seja, às classes populares é negada a criatividade natural e autêntica, como aquela que construiu o nosso patrimônio cultural. Segundo a intelectualidade dominante, as classes populares devem ficar na mediocridade, até que haja uma aceitação intelectual que, sob a apreciação de artistas de elite, possam "guiar" os popularescos a um simulacro de MPB parecida com o que os "bacanas" fazem.

O fato dos intelectuais chamarem de "sofisticados" os trabalhos de Paulinho da Viola, Martinho da Vila e Renato Teixeira, ou, no passado, os de Cartola, Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, infelizmente não é uma forma de reconhecer a riqueza cultural desses nomes, mas um meio de discriminação deles contra seu próprio público.

Essa classificação é vista pela intelectualidade dominante como uma forma de afastar esses nomes da apreciação do público popular, ou, não sendo isso possível, pelo menos criar um "distanciamento cultural" deles com seu próprio público. É como na recente apresentação de Paulinho da Viola no seu próprio berço artístico, o bairro de Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro.



Paulinho, sambista veterano e profundo conhecedor do gênero, como verdadeiro admirador de suas raízes culturais, é aparentemente elogiado pela mídia "popular", mas no entanto ele recebe um tratamento midiático de forma a colocá-lo numa posição secundária do gosto popular, como se "não fizesse" mais parte do cotidiano do povo pobre.

É como se Paulinho da Viola fosse visto como um "admirável artista estrangeiro", como uma "celebridade vip", não como o artista popular que ele, de fato, é, e sua sofisticação artística se deve à natural identificação que Paulinho tem - como Martinho da Vila, à sua maneira, também tem - com a beleza musical de seu estilo, algo que era natural, porque beleza artística, antes, não era vista como um privilégio de elite.

E hoje, o que vemos são nomes como Psirico, Belo, Alexandre Pires, Exaltasamba, Pagodart e É O Tchan usando o rótulo "samba" para expressar suas mediocridades aberrantes. A intelectualidade quer que primeiro reconheçamos a "genialidade própria e intuitiva" (sic) desses nomes para que depois eles, "protegidos" por artistas mais de elite, fossem beneficiados com o simulacro de MPB que irão representar.

Em outras palavras, eles primeiro expõem sua mediocridade artística, depois as elites "ensinam" a MPB para eles. E aí eles não se tornam mais criativos, porque o que eles fazem de "melhorado" é mais fruto da intervenção de outros arranjadores, músicos e técnicos do que do talento desses ídolos, que continua tão medíocre quanto antes.

Daí a incapacidade deles de serem tão artísticos quanto os sofisticados - sem ironias paternais - artistas populares do passado, remoto ou recente (no caso dos artistas ainda ativos hoje). Os ídolos brega-popularescos precisam gravar covers de MPB, contratar outros arranjadores e músicos para "embelezar" seus trabalhos para parecerem "grandes artistas".

A verdade é que os ídolos brega-popularescos não possuem luz própria. Não sabem criar grandes canções e precisam das canções dos outros e da intervenção de outros músicos e arranjadores para parecerem pelo menos "musicalmente corretos".

Portanto, a definição intelectualoide de "sofisticação" para a música popular do passado, em vez de realmente reconhecer a natural sofisticação dos grandes artistas, acaba sendo uma forma de acobertar a mediocridade musical reinante. A intelectualidade 'sem preconceitos", mas bastante preconceituosa, acaba definindo o povo como "musicalmente burro".

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