sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O JABACULÊ FARÁ O FOLCLORE DO FUTURO?

EM 1964, JACKSON DO PANDEIRO E ALMIRA NÃO IMAGINARAM QUE O JABACULÊ SERIA PIOR DÉCADAS DEPOIS.

Por Alexandre Figueiredo

Com a hegemonia do brega-popularesco tomando todos os espaços possíveis, sufocando a MPB autêntica que perde até mesmo boa parte de seus próprios espaços, o jabaculê parece ditar as normas e querer tomar para si o destino de definir o folclore do futuro.

A blindagem intelectual que definia os "sucessos do povão" do brega-popularesco como "expressões culturais das periferias" e que acusava qualquer reprovação a esses "sucessos" como "preconceito", prefere que os vínculos culturais comunitários sejam rompidos e sejam substituídos pelo rádio, TV e imprensa.

Enxurradas de documentários, filmes ficcionais, peças de teatro, teses acadêmicas, artigos "científicos", reportagens e tudo o mais que vier são feitos para tentar justificar que o brega e seus derivados são o "definitivo folclore brasileiro".

Os sambas, modinhas, frevos, baiões do passado foram usurpados por tecnocratas das ciências sociais seja para a preservação isolada nos museus, seja para a apreciação privativa das mais elitistas das elites. O povo que se contente com as caricaturas de ritmos populares que, desde os anos 90, é despejada em larguíssima escala pelas programações radiofônicas regionais.

A intelectualidade distorce o termo "popular", reduzindo-a a uma caricatura associada sempre às piores qualidades associadas ao povo pobre. É uma visão preconceituosa, que a intelectualidade dominante quer que aceitemos incondicionalmente, o que tais intelectuais definem como "perda de preconceitos". Daí que se diz o quanto essa intelectualidade, apesar de "sem preconceitos", é muito, muito preconceituosa.

Ao povo se reserva o piegas, o mórbido, o cafona, o grotesco, o pitoresco, o ridículo, o patético, o asqueroso. Nós é que temos que "aceitar tudo isso" sob a pena de sermos vistos como "preconceituosos", "elitistas" e "higienistas". Querer uma cultura melhor para o povo, tão digno quanto pedir o fim do analfabetismo, é visto pela intelectualidade badalada como sinônimo de "preconceito" e "higienismo".

A grande preocupação é que muita discurseira é feita para defender essa "cultura do jabaculê" como se fosse "a verdadeira cultura popular". Um aroma e um sabor artificial de "povo", como todo mecanismo industrial, pois nossa indústria cultural, tão controversa, ao menos é conhecida por essa manipulação do inconsciente popular.

São executivos ligados à indústria do entretenimento, controlando rádios, casas noturnas, agências de publicidade, agências de famosos, gravadoras, TVs, portais de Internet, produtoras de eventos, que controlam o gosto popular e trabalham com visões estereotipadas.

Mas a intelectualidade, com jeitinho, faz com que esses mesmos executivos pareçam "gente como a gente". Os empresários regionais do entretenimento evitam aparecer muito com terno e gravata, e quando é um brega mais rasteiro - inclui até mesmo o "funk carioca" - , eles aparecem em eventos de gala usando tênis e jeans além de paletós velhos para parecerem "mais modestos".

Eles têm que se confundir com o "povão", assim como os "urubólogos" do noticiário político queriam se confundir com os leitores de classe média. Cansei de ouvir Miriam Leitão se equiparar, nos seus comentários, a qualquer trabalhador comum, como se ela fosse uma "proleta".

Ao fazer com que esses "barões do entretenimento" brega-popularescos se "equiparem" ao povo pobre, o discurso intelectual tenta resolver os problemas gerados por sua retórica contraditória, que exalta a "cultura de massa" e desaconselha análises críticas, pois o que vale é o "vale tudo" popularesco.

Eles trabalham para que o jabaculê, que permitiu a ascensão dos ídolos brega-popularescos e de toda veiculação dos piores valores sociais associados às classes populares, faça o folclore do futuro. Com um engenhoso esquema de publicidade associado a uma blindagem intelectual que envolve processos acadêmicos patrocinados por George Soros e companhia, eles tentam transformar o brega-popularesco num mercado permanente apoiado por uma retórica "socializante".

Até mesmo as velhas rádios controladas pelo latifúndio são incluídas no duvidoso conceito de "novas mídias", num tempo em que as redes sociais não se mostram a "revolução socialista" tão sonhada pelos tecnocratas "fora do eixo". Anula-se o status de poder do dono da rádio, que, sendo ela regional, é tida como "pequena mídia", dentro da tese de que "grande mídia" só é a que tem escritório em São Paulo.

O programador musical, espécie de jagunço cultural do dono da rádio, também é confundido, no discurso intelectual, com um operário ou um agricultor. Assim, a "cultura de massa" decidida pelos executivos do entretenimento é tida como "expressão natural das periferias": seu empresariado, mesmo muito rico, é ideologicamente tido como "pobretão".

O JABACULÊ NÃO ACABOU

Enquanto a intelectualidade dominante, em sua retórica engenhosa, tenta afirmar "positivamente" que o jabaculê foi extinto e a indústria fonográfica está morrendo, a realidade mostra o extremo contrário. A indústria fonográfica apenas se rearticula, com os velhos impérios mundiais dando lugar a novos impérios internacionais, e o jabaculê no Brasil aumentou em níveis avassaladores.

É como se um gigante fosse tão grande que somos incapazes de notar sua presença, vendo apenas seus pés diante de nós. O jabaculê tradicional, o do suborno das programações de rádio, continua valendo, mas hoje ele se expandiu para outras práticas, até mesmo fora dos cardápios musicais.

No caso da música brega-popularesca (ou Música de Cabresto Brasileira), o jabaculê envolve tanto o habitual "mensalão" radiofônico no seu cardápio musical quanto ao recrutamento de "troleiros" para desmoralizar quem faz críticas aos ídolos popularescos e também quanto ao patrocínio de intelectuais para defendê-los com uma retórica sofisticada e "mais objetiva".

O jabaculê inclui até mesmo pagamento de viagens. O crítico musical faz um elogio, por exemplo, a um grupo de "forró eletrônico", criando um artigo que, de forma delirante, junta citações tendenciosas de Jean-Paul Sartre, Honoré de Balzac, as barricadas de Paris e até Patti Smith, em troca de um passaporte grátis para ir a Belém, onde o tal grupo se apresenta, para fazer turismo de graça.

Foi assim que se fez a propaganda do "funk carioca", com muito, muito dinheiro investido pelos empresários funqueiros, gente riquíssima mas que graceja quando alguém informa essa verdade. O "funk", ritmo sem qualquer valor, construiu sua reputação às custas de delirantes abordagens que, alucinadamente, juntavam revolta de Canudos, Semana de Arte Moderna e movimento punk no mesmo balaio discursivo.

Aos "sertanejos", cabe a abordagem sentimentaloide, bastante piegas, dos "filhos do campo" que decidiram cantar, dos "rouxinóis humanos", com todo aquele dramalhão que poucos assumem como tal. Até que o discurso acabe funcionando e produza centenas de "sertanejos universitários" com seus "hinos à bebedeira e à infidelidade conjugal".

Neste caso, o jabaculê se torna mundial, em contato com redes internacionais de casas de espetáculos que acabam incluindo ídolos popularescos emergentes. Foi assim que Michel Teló fez sucesso, por ter um empresário muito rico a ponto de ter dinheiro para comprar espaços no exterior, tornando o jabaculê brasileiro mais globalizado.

O JABACULÊ NÃO É O NOVO FOLCLORE

No entanto, respondendo ao título acima, o jabaculê não é o novo folclore. Nunca será o folclore do futuro do nosso país. O jabaculê não se desenvolve em bases sociais sólidas, nem atua em benefício à sociedade. Ele surge nos escritórios mais diversos, é decidido pelo dinheiro, ele só é associado às classes populares por algum mecanismo publicitário.

Mas o jabaculê brega-popularesco não é cultura de verdade. Até a lotação fácil de plateias e a execução certeira nas rádios e TVs é fruto de muita campanha publicitária, de muito, muito suborno. E ver todo esse processo ser feito e depois os intelectuais botam a "culpa" no povo pobre as periferias é uma coisa vergonhosa, apesar dela ter gerado aplausos entusiasmados das plateias desavisadas.

Certamente, o novo folclore não se fará através dos ídolos brega-popularescos. Muito será feito para definir esses ídolos bem-sucedidos, praticamente senhores do mercado brasileiro, como "grandes sofredores" e "coitadinhos injustiçados". Como se isso os transformasse em "grandes gênios da MPB". Não transforma. E toda essa discurseira desaparecerá quando a sociedade se esclarecer melhor.

Com mais escolas e mais informação - tanto em quantidade como em qualidade, mas sobretudo pela qualidade, que estimula o discernimento - , a opinião pública deixará de ser influenciada pelas mentiras e meias-verdades de intelectuais badalados, por enquanto com muita visibilidade para arrancar aplausos das plateias.

Espera-se que deixemos de ser vistos como "elitistas" - puro preconceito dos que se afirmam "sem preconceitos" - quando falamos que queremos uma cultura melhor para o povo pobre. Cultura melhor não é maquiar os mesmos medíocres para parecerem "mais geniais". Cultura melhor é eliminar a mediocridade cultural e seus ícones, buscando novos personagens e valores mais sólidos e verdadeiros para a população.

Cidadania não rima com cosmética e consumismo.

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