quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O "ILUMINISMO DE ENGENHO" E O "SOCIALISMO DE MANSÃO"


Por Alexandre Figueiredo

Muito estranha a sociedade de "esquerdistas médios" que adotam valores estranhamente neoliberais e procedimentos estranhamente direitistas.

Seus indivíduos capricham no discurso libertário, sobretudo nas suas visões sobre "novas mídias", "cidadania" e outros aspectos - mas sem ir muito longe em abordagens como a regulação midiática, causa da qual, no fundo, adotam posição neutra - , mas adotam preconceitos piores do que aqueles que dizem condenar.

O assunto da mídia machista é um típico exemplo disso, embora sabemos que o brega-popularesco como um todo, sobretudo na música, inspira a essa "boa sociedade" uma visão cordialmente paternalista, mas que se baseia no ditado popular "pimenta nos olhos dos outros é refresco". Neste caso, eles - que juram NÃO serem paternalistas (!) nem elitistas (!!) - acham que o povo pobre é "melhor" naquilo que tem de pior.

Quando falam da mídia machista, parece que ficam cheios de dedos. As críticas que fazem é apenas dentro do "território" ideológico de sua classe, até as ênfases tornam-se muito estranhas, como sutis insinuações machistas feitas em comerciais de automóvel e televisão por assinatura.

Evidentemente, tais práticas são condenáveis, abomináveis e cabe até processo judicial, mas elas nem de longe são as únicas. Mas o discurso anti-machista dominante nos leva a crer que a exploração machista da mulher é culpa única e exclusiva das agências publicitárias e outras instituições a serviço de demandas mais abastadas.

A TESE DOS "BONS SELVAGENS"

Até mesmo a crítica à grande mídia é genérica e muito, muito tímida. Mesmo quando se dirige às Organizações Globo, que no âmbito do jornalismo político já recebe críticas das mais enérgicas mesmo das esquerdas mais medianas.

Ha menções vagas e superficiais ao Big Brother Brasil. Citações genéricas de casos banalizados ou simplesmente descrições tímidas e sem qualquer detalhe. Há um medo de derrubar totens, de desqualificar figuras "tarimbadas", mesmo quando o contexto autoriza tais posições enérgicas.

Afinal, Pedro Bial, o galântico e fanfarrão apresentador do BBB, poeta performático e depois jornalista, é um dos membros da cúpula do Instituto Millenium, o mesmo que tem como sócios de honra Reinaldo Azevedo, da Veja, e o "global" Merval Pereira, só para citar dois jornalistas que costumam ser duramente criticados pela opinião pública.

Portanto, não há como não criticar duramente o Big Brother Brasil, da mesma forma que não existe razão aparente para as esquerdas médias pouparem o portal Ego e o jornal carioca Expresso, se são dos mesmos donos que contratam parte da "nata" da "urubologia" jornalística, como Miriam Leitão, William Waack e Merval Pereira.

A única hipótese provável é que essa "boa sociedade", quando vê o rótulo "popular" no meio, amenizam suas críticas achando que, ao exaltar os fenômenos ditos "populares", estão livres de qualquer problema social com os pobres de seu contato direto: empregados domésticos, porteiros, faxineiros, feirantes etc.

Quando é o rótulo "popular", qualquer barbaridade é permitida como se fossem "valores modernos das periferias". Nessa antropologia de butique, corrompe-se a ideia da aceitação do "outro" e se mergulha direto na tese do "bom selvagem", como se o povo pobre fosse uma tradução "pós-moderna" dos homens pré-históricos.

Puro preconceito de gente "sem preconceitos". Uma espécie de atualização do "iluminismo de engenho" que fazia certos hipócritas tanto defenderem a Revolução Francesa e a Declaração dos Direitos Humanos dela resultante e, no entanto, defenderem, no Brasil, o regime escravista. É um "socialismo de mansão" que só permite as reformas sociais dentro dos mais rígidos limites do neoliberalismo.

PRECONCEITOS CRUÉIS, MAS "LIVRES DE QUALQUER PRECONCEITO"

Essa antropologia de butique que as pessoas adotam tenta dar a impressão de que exalta a "pureza" das classes populares, vendo "dignidade" em coisas indignas, porque "o que para nós é terrível, para eles é maravilhoso". Pura visão preconceituosa, se percebermos que o povo pobre, no Brasil, é mais vulnerável à manipulação da grande mídia, sobretudo rádios FM das mais comerciais e emissoras de TV aberta.

No caso do racismo, por exemplo, trabalhado pelos grupos de "pagodão" da Bahia - que exploram uma imagem caricata do negro baiano, como um misto de idiota e tarado, isso num Estado que nos deu o mestre Milton Santos - , é "positivado" pela "boa sociedade progressista", como se fosse a "imagem da alegria nas periferias".

No caso das "mulheres-objeto" que os sítios "populares" mostram aos montes na imprensa, na televisão e na Internet, esse circo machista mostra o quanto a indignação da "boa sociedade" contra a exploração abjeta da mulher encontra limites apenas dentro de seus salões e redutos.

Já descrevemos o caso de Gisele Bündchen, duramente criticada por fazer um papel de "empregada desmiolada e sexy" em comerciais de TV por assinatura e também fazer um papel de "submissa" numa campanha comercial de roupas íntimas.

Vemos diariamente muitas "popozudas" fazendo coisas piores, cometendo gafes intermináveis, vestindo-se mal, indo aos piores eventos musicais, falando bobagens e ainda por cima choramingando no Facebook assustadas ou irritadas com as críticas recebidas, e a "boa sociedade" fica em silêncio absoluto.

O mesmo horror que a "boa sociedade" sente quando vê um comercial de automóvel transformar a mulher numa "retardada ao volante" é a mesma que fica feliz quando vê uma "popozuda", com suas roupas exageradas e seu corpo inflado pelo silicone, vai a uma apresentação de sambrega, axé-music ou "funk".

A máscara cai e, para essa "boa sociedade", Gisele Bündchen é reprovada energicamente pelos mesmos motivos que fazem, para esta sociedade, Solange Gomes ser "admirável". E que acaba sendo uma versão politicamente correta dos preconceitos sociais, que diz que mulher de classe quando dá uma de "mulher-objeto", é "vagabunda", e musa "popular", quando faz o mesmo, é "feminista".

A própria "boa sociedade", quando tenta procurar alguma qualidade "admirável" à ideologia brega, tão difundida pelas rádios controladas pelo latifúndio, dá a sua visão, aberrantemente preconceituosa mas oficialmente "livres de qualquer preconceito", do que é a "qualidade de vida" do povo pobre.

Isso é de assustar: alcoolismo, comércio clandestino, subemprego, prostituição, relações sociais cafajestes e malandras. E os "valores modernos" que a "boa sociedade" atual associa ao povo pobre correspondem a uma mórbida valorização do pornográfico, do pitoresco, do piegas, do cafona, do aberrante, do repugnante, do bizarro, do bisonho.

Para a "boa sociedade", que mal consegue ter uma compreensão superficial e uma solidariedade tendenciosa às lutas dos operários e trabalhadores rurais, "qualidade de vida" do povo pobre é feita a partir desses inúmeros problemas acima citados. "Problemas" que essa sociedade ideologicamente formada por uma má digestão de conceitos tropicalistas e neoliberais e clichês socialistas do PT, afirmam ser "soluções".

Isso cria uma visão bastante cínica e paternalista, protegida por uma retórica ao mesmo tempo "dócil" e "objetiva" e pelas críticas que a "boa sociedade progressista", realmente preconceituosa e elitista, faz contra quem ela entende como "gente preconceituosa e elitista". Se fosse brasileiro, Noam Chomsky e Umberto Eco sofreriam sob suas mãos.

Para essa sociedade, o povo é "melhor" naquilo que tem de pior. "Para que críticar? O povo é assim mesmo, é isso que o povo gosta (sic)", é o comentário mais comum, dito até mesmo por cientistas sociais, ignorando os processos e mecanismos de manipulação do gosto popular tão conhecidos pelos mais renomados nomes da Teoria da Comunicação do mundo inteiro.

Isso vai na contramão dos compromissos que os mais esclarecidos têm de contestar o "estabelecido" na medida em que ele provoca sérias injustiças. E permite que a "boa sociedade" esconda seus cruéis preconceitos com posturas politicamente corretas que acabam forjando uma visão falsa de que são eles é que são melhor dotados de "consciência social", escondendo dentro de si preconceitos sociais cruéis.

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