quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

O "FOGO DE PALHA" DA 89 FM


Por Alexandre Figueiredo

A notícia da volta da 89 FM, dita "A Rádio Rock", ao dial paulista soou como um "fogo de palha". Tentando soar "bombástica", a notícia não causou o impacto desejado, e nem de longe se comparou com as comemorações que a autêntica rádio de rock Fluminense FM teve neste ano.

Responsável pela deturpação na linguagem e no estilo de radialismo rock, a 89 FM de São Paulo foi mais um mito do que uma emissora segmentada. E a nostalgia que gira em torno da emissora, hoje, nem de longe é motivada pelo repertório rock, caricato e previsível, mas por programas humorísticos, game shows, programas de entrevistas e mesas redondas misturando futebol (!) e besteirol.

Nos seis anos em que sua programação "roqueira" estava fora do ar, a 89 FM, que já era datada e caricata para o perfil rock, viu as mudanças ocorrerem em seu desfavor. A cultura rock que a emissora mal conseguia acompanhar desde os primórdios, e que deixou de acompanhar de forma devida de 1988 em diante, tornou-se mais acessível na Internet, a ponto de bandas pouco conhecidas terem músicas disponíveis em arquivos de áudio com imagens no YouTube.

Em outras palavras, se a 89 FM era, mesmo na sua ascensão e auge nos anos 90 e começo dos anos 2000, pop demais para a cultura rock, hoje ela soa cafona e ultrapassada. A rádio não acompanhou as pressões na Internet e até esnobou as mudanças, aproveitando a Internet apenas no aspecto meramente tecnológico, mas sonegando as transformações culturais dela resultantes.

O QUE DERRUBOU A 89 FM

Vários fatores fizeram com que a 89 FM "roqueira" fosse derrubada em 2006. Em boa parte deles, a culpa era da própria rádio e dos produtores e ouvintes mais fanáticos, que defendiam posturas retrógradas e antiquadas com uma irritabilidade que eles pensavam ser "rebeldia" mas era mero reacionarismo.

Pouco antes da 89 FM virar assumidamente pop, houve na Internet conflitos violentos envolvendo defensores e detratores da rádio "roqueira". Roqueiros autênticos que não aprovavam a conduta da rádio e os produtores e ouvintes da mesma trocavam farpas e acusações, e os adeptos da 89 FM (e, de forma ainda mais agressiva, os da afiliada carioca Rádio Cidade) chegaram ao ponto de fazerem bullying e demonstrações de agressiva irritabilidade.

Para piorar, os próprios adeptos da 89 / Cidade acabavam se desmascarando, fazendo ataques a grupos respeitáveis de rock clássico e afirmando que ninguém precisa entender de rock para conduzir a programação dessas rádios. E, em plena era da Internet, afirmavam que as rádios não deviam ter as mesmas responsabilidades das rádios de rock mais conceituadas do exterior (sobretudo EUA, Reino Unido e Austrália). Foi um tiro no pé.

Afinal, eles acabaram agindo contra os princípios mais modernos da mais respeitável Teoria da Administração, que diz que, em qualquer ramo do trabalho, o bom profissional deveria, sim, entender e gostar do que faz, e não o contrário. Além disso, recusar as pressões do radialismo rock de fora acabou afastando os roqueiros autênticos da arrogância cega das duas emissoras, que "morreram" na praia.

Esses conflitos se deram num momento em que já era possível sintonizar uma rádio de rock estrangeira no Brasil, através da Internet. Era entre 2002 e 2005. E quem podia ouvir raridades e preciosidades do rock nas rádios digitais gringas não perderia tempo ouvindo, nos 102,9 mhz cariocas e nos 89,1 mhz paulistas, as poucas obviedades do rock pesado intercaladas com muito pop ameno (tipo Lenny Kravitz, Alanis Morissette ou Cidade Negra) e muito "rock farofa".

RÁDIO DE ROCK, MESMO, SÓ ATÉ 1987. E OLHE LÁ

Na verdade, a 89 FM só significou alguma coisa na sua brevíssima experiência de dezembro de 1985 até meados de 1987. Se a 89 foi algo próximo de uma rádio de rock decente, foi somente nesta época. Já a partir de 1988 a rádio só se tornou mera sombra do que foi e nunca mais voltou a ser.

Isso a coloca numa situação pior do que rádios que tiveram uma trajetória honrada mas difícil de radialismo rock, como a Fluminense FM e a paulista 97 Rock, mas que foram extintas no meio do caminho. Pelo menos, elas duraram um pouco mais de dez anos, segurando uma programação que tentou ir um pouco além do hit-parade roqueiro, em que pese algumas fases bastante equivocadas.

A 89 FM, por sua vez, não durou sequer dois anos com uma programação roqueira minimamente decente. Já em 1987, ela havia abandonado a divulgação do rock independente da Baratos Afins, conforme reclamou um leitor da revista musical Bizz na época. Em 1990, a 89 FM já preparava sua ascensão com um perfil rock caricato, mas que apoiava sua imagem publicitária nas "águas passadas" de 1985-1987.

A própria histeria, que tomava sobretudo jornalistas paulistas e até cariocas, em relação ao mito da 89 FM paulista - que nas vésperas da Internet, chegava a ofuscar até mesmo o carisma da Fluminense FM - , no fundo era uma fossa saudosista não assumida, pois a 89 FM dessa época era tão somente uma caricatura de rádio de rock, com locutores neuróticos do tipo "poperó" e programação que, em muitos aspectos, destoava até mesmo da realidade e dos interesses do público roqueiro.

Ou seja, a conduta morna de 1985-1987 - que não fazia a 89 FM genial, mas a colocava na média admissível do radialismo rock apenas eficaz - era usada apenas para permitir o marketing da emissora, sugerindo falsas promessas de retorno aos primórdios. Quando muito, a 89 só se aproximou dos primórdios entre 1993 e 1994, mas era mais uma rádio movida pela onda do grunge.

PAULO MALUF E RESTART

O desgaste da 89 FM, ao se agravar depois que a dita "rádio rock" recuou em 2006, encontrou um contexto muito diferente. O gosto musical de seus ouvintes, que já abordava o rock de forma bastante superficial, se distanciou cada vez mais e assumia, por outro lado, tendências do pop dançante e do brega-popularescos que eles antes resistiam de forma intransigente.

Isso é reflexo do que acontecia no exterior, com nomes alternando pop dançante com o tal "pop-rock": Shakira, Pink, os atores-cantores do High School Musical, Demi Lovato, Kelly Clarkson, entre outros. Nada de "roqueiro-jaquetão". E sempre entre um Guns N'Roses e uma Beyoncé, entre um Offspring e uma Jennifer Lopez.

A rádio também criou, com sua bastarda "cultura rock", as condições para o desenvolvimento de uma mentalidade "emo", que gerou fanáticos futebolísticos, fãs de rock "farofa", além de inspirar um cenário de bandas que não vão além da estética "comercial de refrigerante" da qual o símbolo maior é a banda Restart.

Os próprios produtores da 89 FM e da Rádio Cidade acabaram trabalhando, nesse intervalo de seis anos, em estilos que antes diziam abominar furiosamente, como o "sertanejo", no caso dos produtores da 89 que foram trabalhar na Nativa FM, dos mesmos donos, e o "funk carioca" e o "pagode romântico", no caso (da Rádio Cidade) dos que foram trabalhar na Beat 98 (embora esta seja de outros donos, no caso a famiglia Marinho).

Hoje em dia, também se questiona o poderio midiático com mais intensidade do que em 2006, quando a chamada grande imprensa ainda detinha uma superioridade quase absoluta. E até isso prejudica a reputação da 89 FM, na medida em que seus donos, a família Camargo, são uma oligarquia paulista conservadora e politicamente ligada a Paulo Maluf, desde os tempos da ARENA.

Além disso, a deturpação do perfil de rádio de rock pela 89 FM ocorreu de tal forma que a emissora acabou contribuindo para a decadência do radialismo rock até pelo mercado. Daí as dificuldades, hoje, de até mesmo uma rádio autenticamente rock ser implantada no Brasil hoje em dia.

Isso porque o radialismo rock se prostituiu, desde os anos 90, com as conversões malfeitas de rádios de pop e de brega para o rock. Isso teve um quê de oportunismo, porque estes setores geraram uma demanda tão grande de locutores que estes, usando pretextos profissionais, invadiram o segmento rock, que deixou de ser especializado para favorecer "aventureiros" radiofônicos em busca de vantagens pessoais.

Houve então um retrocesso do perfil rock no rádio, o mercado acabou assimilando essas deturpações como se fizessem parte do segmento e ele então se desmoralizou ao se estagnar no seu próprio retrocesso. E isso derrubou muitas rádios surgidas nos anos 90, e mesmo a resistência da 89 FM e Rádio Cidade nem de longe foi tranquila. Pelo contrário, a teimosia das duas pelo segmento rock "à moda da casa" só fez piorar as coisas, abrindo caminho para a expansão do brega-popularesco na juventude economicamente abastada.

E a 89 FM, refém de suas distorções comerciais, não conseguiu empolgar a opinião pública quando decidiu retomar sua programação "roqueira". E não se sabe quanto tempo ela durará, ou se ela mesma não abrirá o caminho para novas ofertas de arrendamento pelas seitas religiosas.

O que se sabe é que a 89 FM perdeu o trem da cultura rock, que hoje é um trem bala que só fez a rádio paulista "comer poeira" e levar pedrada (o que dá um trocadilho irônico, porque pedra em inglês significa "rock"). Os tempos são outros, não estamos mais nas trevas bairristas dos anos 90.

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