quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

MPB: ESQUECIMENTO E MEMÓRIA NAS MANOBRAS DA MÍDIA


Por Alexandre Figueiredo

Anos atrás, numa reportagem feita pelo Segundo Caderno de O Globo, uma das integrantes do grupo Las Chicas, banda liderada por duas filhas de Gonzaguinha, perguntou a uma de suas empregadas se ela conhecia o avô dela, o Rei do Baião Luiz Gonzaga.

A empregada, mais acostumada com o forró-brega de nomes como Calcinha Preta e Aviões do Forró, alegou total desconhecimento da figura e da obra do cantor e compositor, que foi um dos mais famosos e prestigiados músicos brasileiros e um dos mais populares de seu tempo.

Hoje, a hegemonia do brega-popularesco, que tanto deixou a MPB autêntica à deriva, condenada ao boicote do mercado, tenta agora usá-la de forma tendenciosa, na medida em que os modismos derivados da música brega surgidos nos anos 70, 80 e 90 enfrentam agora um violento desgaste que requer de seus ídolos um cauteloso resgate publicitário.

Afinal, o mercado brasileiro está em processo de formação do hit-parade, em franco acordo entre a indústria fonográfica, os barões da grande mídia, os empresários de diversos setores do entretenimento no Brasil, as multinacionais e a intelectualidade associada e devidamente patrocinada por George Soros, Fundação Ford e Fundação Rockefeller.

Buscando levar a melhor na competitividade mercadológica, que nem sempre atua em acordo com os interesses sociais tão necessários à nossa cultura, o nosso "ritipareide" precisa adotar argumentos "mais nobres" e dar a impressão de que é algo diferente daquele que conhecemos dos EUA.

Daí um discurso que caberá uma análise maior: "morte" da indústria fonográfica, "decadência" da grande mídia, ídolos "discriminados" pela grande mídia. Enfim, uma falsa alegação de que o mercado está morrendo e que todos seremos somente "indie" e "alternativos". "Morto", o mercado ressuscita na prática depois de "sepultado" pelo discurso intelectualoide.

E nesse pacote promocional que a intelectualidade traz para anunciar a futura acomodação mercantilista daquilo que entendem ser a "cultura popular", há a desculpa da "diversidade cultural" que é feita para tentar ampliar os mercados dos ídolos brega-popularescos, empurrados para públicos em tese mais exigentes. E que tem o mesmo sentido da "liberdade de expressão" para a imprensa conservadora, o de conversa para boi dormir.

Junto a isso, há a calculada "redescoberta" de ritmos e artistas esquecidos, como meio da grande mídia dizer que "não se esqueceu" das nossas raízes culturais. Isso envolve desde interesses de competitividade de mercado como uma forma de fazer os ídolos brega-popularescos, que nunca deram bola para a MPB, a usarem como "programa de qualidade total", uma espécie de "ISO 9000" musical.

Por isso, há a redescoberta, tardia, do grande sanfoneiro Luiz Gonzaga, o mesmo "esquecido" pelo império do "forró eletrônico" que anda irritando os nordestinos mais afeitos à verdadeira cultura. Um filme sobre ele, Gonzaga de Pai para Filho, foi feito na aparente finalidade de resgatar a memória do músico pernambucano.

Mas sabe-se que o diretor desse filme, uma biografia dramatizada, é o mesmo que tentou salvar a dupla breganeja Zezé di Camargo & Luciano do desgaste, Breno Silveira. Mas Os Dois Filhos de Francisco, apesar de toda a badalação em torno da dupla, mostra que a mediocridade cultural só agrava quando jogada a tamanho pretensiosismo.

Hoje a dupla vive de factoides e não conseguiu colocar um único grande sucesso radiofônico. Pior: musicalmente, se a dupla já representava uma deturpação grosseira da música caipira, sendo mais próxima do brega de Waldick Soriano, saiu-se perdida num ecletismo vazio e hoje só faz DVDs ao vivo revisitando o repertório, como quase todo ídolo brega-popularesco.

A própria blindagem intelectual sabe que precisa resgatar parte da MPB que antes era rejeitada furiosamente pelos defensores do brega. Quem não se lembra da inicial ojeriza a Jorge Ben Jor, xingado pela intelectualidade pró-brega como um "propagandista da ditadura", tendo sido o cantor de "País Tropical" o "Chico Buarque" da temporada, no caso há dez anos atrás?

Pois quando o chamado "pagode romântico", em vias de desgaste, precisou se "reciclar", precisou usurpar nomes antes desprezados. Um dos primeiros foi Jorge Ben Jor, que passou a ter, da intelectualidade etnocêntrica, uma imagem "mais positiva".

"País Tropical" deixou de ter a imagem pejorativa de "hino da ditadura", Ben Jor deixou de ser o vilão no maniqueísmo que tentou promover Odair José como "o bem", e hoje Odair "disputa" o maniqueísmo tendo Chico Buarque como "vilão", na badaladíssima retórica intelectual de hoje.

Depois, nomes como Ataulfo Alves, Lupicínio Rodrigues e Tonico e Tinoco foram "resgatados" pelos neo-bregas, em tributos caça-níqueis dos mais tendenciosos. E, em seguida, nomes como Renato Teixeira, Almir Sater, Zeca Pagodinho e Jorge Aragão eram "relembrados". Hoje, tenta-se aprofundar a tendência (ou o tendenciosismo), através de nomes como Wilson Simonal.

Neste contexto, Luiz Gonzaga é evocado do além-túmulo para "reoxigenar" a "música nordestina". Quantos nomes do "forró eletrônico", os mesmos que chutaram areia no túmulo do mestre, agora se preparam para "sinceras homenagens" ao Rei do Baião?

É um grande oportunismo imaginar que grupos que nunca fizeram um baião de verdade, mas um engodo que mistura country, disco music, ritmos caribenhos e sanfona gaúcha, passem a parasitar o repertório do mestre Lua enganando a plateia e dizendo "vamos manter viva a chama da música nordestina, a nossa música, a nossa cultura, os nossos valores!".

A grande mídia trabalha com essa manobra tendenciosa de esquecimentos e memórias. Busca menosprezar nomes da cultura de qualidade, até que algum oportunismo inspire algum "resgate". Quanto à mediocridade cultural do brega-popularesco, o esquecimento é uma forma de deixar os ídolos na "geladeira" para que sua imagem publicitária possa ser recuperada sob o rótulo de "heroicos coitadinhos".

É a mesma coisa que acontece com os noticiários, onde a lembrança e o esquecimento obedecem os "ventos" soprados das redações e dos escritórios jornalísticos, conforme o tendenciosismo da situação. E isso acaba prejudicando muito a transmissão qualitativa e abrangente da informação.

Afinal, o saber coletivo acaba sendo fragmentado e disperso através disso. Sabe-se tudo, mas de forma bastante superficial e vaga. Sabe-se muito, mas não da melhor maneira. Qualitativamente, muitos continuam sendo alienados, ignorantes, até estúpidos.

Isso prejudica a nossa cultura. Esse esconde-esconde temático da grande mídia só cria surtos de "esclarecimento" caricatos ou forçados, que não trazem conhecimentos aprofundados para a população. Pelo contrário, as faz ter a impressão de que conhecem melhor as coisas, mas depois tudo fica na mesma mediocridade de sempre.

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