domingo, 23 de dezembro de 2012

"FUNK CARIOCA", HIPOCRISIA E FACTOIDES


Por Alexandre Figueiredo

Depois que caiu por terra a campanha "socializante" do "funk carioca" junto aos barões da grande mídia, derrubado sobretudo pela obrigatoriedade dos fones de ouvido, o ritmo tenta sobreviver em torno de factoides, além de tentar manter sua hipocrisia quanto à postura ideológica.

Seu proselitismo na mídia esquerdista nem consegue mais surtir efeito, tamanha a repulsa com que os intelectuais que não compartilham de certas abordagens dominantes, mas desprovidas de coerência, fazem diante dos "ativistas" funqueiros.

O "funk carioca", aliás, já há um tempo não esconde sua associação com a velha grande mídia, desde os anos 90, onde até políticos fluminenses simpatizantes de Fernando Collor patrocinaram "bailes funk" que fizeram a fortuna dos empresários do gênero.

Estes, extremamente ricos e até interessados em criar latifúndios, como todo empresário de brega-popularesco, tentam evitar o vestuário tradicional do empresariado, e se autoproclamam "humildes produtores culturais", até gracejando quando são chamados de empresários e executivos do "funk".

A associação entre a APAFUNK e o Instituto Millenium, intermediada pelo cineasta José Padilha, tornou-se um escândalo que abalou os bastidores do ritmo carioca, mas pouco assustou seus dirigentes, que no fundo tratavam as esquerdas feito gato e sapato, falando mal dos esquerdistas pelas costas.

Ultimamente o ritmo andou se alimentando pelos factoides de suas "musas", que vão para a praia mostrar sua "boa forma" alimentada com muito silicone, ou então falam de seu "interesse" em duetar com grandes ídolos ou mostrar filhinhos ou coisa parecida.

Vale até mesmo esconder marido e espalhar por aí que "está solteira". Vale até MC dizer que "é família", outros dizerem que são "cantores de protesto", outros dizerem que são "ativistas sociais". Para tudo terminar no circo midiático, sobretudo no Caldeirão do Huck - do tucano Luciano Huck, amigo de Aécio Neves - , programa cujo nome inspirou uma gíria funqueira, "é o caldeirão".

Mas há também a versão glamourizada da minissérie Subúrbia, da TV Globo, e os últimos desesperos do proselitismo de MC Leonardo, na mídia esquerdista, para tentar convencer as esquerdas a defender o gênero. Tudo através da pose de coitadinho, enquanto o ritmo mostra sua postura triunfante abraçado a figuras como Nelson Motta, Luciano Huck e Marcelo Madureira, astros da direita midiática.

Apenas o mau humor de Reinaldo Azevedo e Arnaldo Jabor contra os funqueiros não faz com que direita e "funk carioca" deixem de ser aliados. Até porque outras figuras, como Gilberto Dimenstein e William Waack, são mais receptivas ao gênero, além dos acima citados.

A única cobrança que a direita faz do "funk carioca" é "maneirar" nos temas "cantados". Eles pedem que os funqueiros interpretem letras "mais cidadãs", assimiláveis para toda a família. Mas isso até a APAFUNK aceita fazer, embora haja uma contradição entre aceitar ou não os "proibidões".

O "funk carioca" é muito insensível quanto às transformações sociais. E o ritmo se estagnou numa confusa junção de sirenes, balbuciações de MCs de apoio e letras de baixaria. Perdido, o "funk carioca" tenta dissimular posturas, não desmentir acusações, porque tem muito a dever e a temer numa sociedade em transformação.

Afinal, o ritmo construiu sua ascensão explorando a miséria popular, criando estereótipos do povo pobre e prometendo às periferias uma "Disneylândia" funqueira que mais parece uma Sodoma e Gomorra em cenário apocalíptico e submissa às tiranias do "deus mercado".

A sociedade muda, os valores são cada vez mais discutidos, e os funqueiros precisam engolir seco quando sua "cidadania de fachada" é contestada. Nada podem dizer sobre sua falsa defesa da regulação midiática, mas no fundo temem tanto a Lei de Meios quanto os barões do Grupo Clarín na Argentina.

A cada dia há uma necessidade de redescobrir o verdadeiro soul brasileiro - inclui o funk autêntico que tem em Tim Maia seu mestre maior - , o verdadeiro samba, os baiões, maracatus etc. A intelectualidade etnocêntrica anda assustada, porque os discursos de 2002 defendendo os "coitadinhos" do brega e seus derivados a cada dia perdem o sentido convincente.

O "funk carioca" precisa se silenciar em sua hipocrisia. Não pode desmentir posturas reacionárias que desmentem claramente seu falso esquerdismo. No fundo, seus militantes apenas reagem dizendo, vagamente, que seus contestadores "não estão bem informados das coisas".

Ainda continua a poluição sonora dos funqueiros, e já dá para ver quem em seus carros costuma muito ligar o som no ritmo, em altíssimo volume. Homens "durões", bem parecidos com os maridos que certas funqueiras não querem assumir publicamente, mal encarados e dotados de muita frieza.

No fundo, o "funk carioca" anda perdendo muito terreno no mercado. A postura de falsa vítima anda cansando, esse papo de "preconceito" já nem convence mais. Da mesma forma que aquela campanha "socializante", usando referenciais que não correspondem à realidade, mas usados habilidosamente pela intelectualidade associada.

Afinal, não dá para criar uma cosmética discursiva para camuflar a mediocridade cultural, condicionada sobretudo pelas estruturas de poder midiático e pela crise educacional que afetam o povo pobre no Grande Rio. E o "funk carioca", mesmo com todo esse "rico" discurso, nada contribuiu para melhorar a qualidade de vida do povo pobre, a retórica só serviu para enriquecer mais seus empresários e ídolos.

Esses dez anos de retórica só serviu, também, para camuflar os preconceitos cruelmente elitistas dos intelectuais mais badalados, que poderiam assim expressar um paternalismo enrustido usando os funqueiros como "mascotes" de sua campanha retórica bastante sofisticada.

Foi um discurso lindo, diversificado, atraente e sedutor, mas que acabou sendo desmentido violentamente quando alguém passou a tocar um CD de "funk".

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