quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

FLUMINENSE FM: O RADIALISMO ROCK ALÉM DO VITROLÃO


Por Alexandre Figueiredo

Foi estarrecedora a repercussão da volta da rádio paulista 89 FM em sua programação "roqueira" porque, sendo mera rádio de hit-parade "roqueiro", sua volta teve os elogios mais exagerados e delirantes possíveis, até mesmo de músicos respeitáveis de Rock Brasil.

Era algo digno de um volume do Febeapá, o livro de besteiras denunciadas por Stanislaw Ponte Preta. De repente qualquer porcaria pseudo-roqueira que havia emplacado na programação da 89 ficou "genial". Se alguém dá um arroto na 89 FM, há quem queira reivindicar o Nobel da Paz por determinada "façanha".

Até mesmo locutores de estilo "poperó" - ou "putz-putz", termos que aludem ao pop dançante mais abobalhado (alguém aí pensou no Gummy Bear?) - , como Zé Luís, já estão sendo reivindicados para voltar à 89 FM (agora UOL 89 FM), e a acomodação e condescendência dos ouvintes e músicos chega até mesmo a assustar.

Não será surpresa se um grupo como Inocentes venha a gravar, feliz da vida, uma cover de "Punk da Periferia" de Gilberto Gil, com Andreas Kisser dando canja na guitarra "mais heavy". Afinal, Clemente acabou contagiado pela mesma acomodação dos veteranos, e o músico que desafiou Gilberto Gil num programa de TV hoje aceita Gaby Amarantos e fica feliz com a rádio bosta da 89 FM.

FLUMINENSE FM FOI MUITO MAIS QUE UMA VITROLA ROQUEIRA

Pena que os músicos de Rock Brasil tenham sido tão condescendentes. Em muitos casos, eles saúdam até mesmo rádios pop. O Biquíni Cavadão que foi lançado pela Fluminense FM, histórica rádio de rock de Niterói nos anos 80, saudou justamente a Jovem Pan 2 que tirou do ar a mesma emissora.

Além disso, o Rock Brasil anda querendo reconquistar o mercado e ultimamente, de Nando Reis a Andreas Kisser, de Paula Toller a João Gordo, quase todo mundo se vendeu para tudo quanto é comercialismo, das breguices do tipo Michael Sullivan, Banda Calypso e Mr. Catra até mesmo a indústria da axé-music. O comercialismo da 89 FM até que é menos ridículo diante de tantas barbaridades.

Mas a 89 FM se insere nesse contexto de mediocridade cultural. Muita gente fez elogios dos mais fabulosos à rádio, chegando a dizer muitas bobagens. Lembra a repercussão brasileira da morte de Michael Jackson, quando muita gente falou besteira, colocando qualidade que o ídolo pop nunca teve. E, além disso, Michael nunca foi roqueiro, mas isso, pasmem, está na imaginação de 95% dos adeptos da UOL 89 FM.

A grande queixa que se pode fazer, seguramente, sobre a 89 FM, é que ela nunca passou de um vitrolão "roqueiro" sem alma, uma rádio sem atitude rock verdadeira e que sempre se apoiou num hipnótico logotipo feito com fontes gráficas de impacto, numa fonte variante à conhecida (no ramo da Informática) Haettenschweiler.

Em contraposição à 89 FM, a antiga Fluminense FM foi uma das poucas a ser dotada de uma personalidade roqueira que as gerações recentes não conhecem. Afinal, na boa, os ouvintes da UOL 89 FM, mesmo os mais adultos, foram educados por Xuxa Meneghel e Gugu Liberato.

A "nação roqueira" da Rádio Cidade (adepta da 89 FM entre 1995 e 2006), então, nem se fala. Na infância, eles nunca ouviram uma sintonia da Fluminense FM, eram educados pela programação popularesca da 98 FM ou pelo popinho tocado na Rádio Cidade (que era pop nos anos 80) e Transamérica.

A Fluminense FM, mais do que uma rádio que tocava rock ou que tentava convencer os anunciantes e ouvintes de que era "rádio de rock mesmo", fazia por onde para manter um autêntico diferencial. A Fluminense foi uma das poucas que via o rock não como um segmento de mercado, mas como um estado de espírito, não era apenas uma rádio qualquer com repertório roqueiro.

Os locutores da Fluminense FM tinham personalidade e fugiam do perfil mauricinho e debiloide dos locutores pop, geralmente com dicção de animador de festa infantil. Infelizmente, é este o estilo que a 89 FM adotou e não deixou de adotar em seu "retorno triunfal".

A Fluminense FM transmitia ideias, via o rock como cultura e não como uma catarse musical. A rádio transmitia informações sobre política, História e artes, até mesmo Economia. A rádio era claramente influenciada pelo espírito da Contracultura dos anos 60, e a partir daí construiu suas virtudes que nenhuma outra rádio, mesmo sob o rótulo de "rock", reproduziu com a mesma intensidade.

Descontadas estão as bobagens ditas a favor da 89, de que ela "fortalecerá a cultura rock" e coisa e tal, afinal, o que a rádio quer não é cultura, é mercado, a 89 voltou apenas como alimentadora comercial de eventos internacionais, dos quais boa parte das atrações principais de ponta são artistas de rock mainstream.

Em sua "promoção" de lançamento, a 89 FM apenas despejou um repertório "menos repetitivo", o que iludiu muitos ouvintes, além de sua péssima formação sócio-cultural. Afinal, para eles, o parâmetro de música sempre foi dos piores, eles nunca ouviram MPB de verdade, jazz de verdade, rock de verdade, tudo isso lhes parece antigo, e por isso, nessa miséria toda, eles acham até Bon Jovi um "baita rockão".

E olha que o Bon Jovi era tão ridicularizado pelos roqueiros autênticos nos anos 80 quanto o Menudo. Isso se dava porque havia referenciais sólidos na cultura rock e o pessoal que apreciava o rock de seu tempo também respeitava o rock mais antigo. Hoje os ouvintes da 89 FM espinafram The Who e Led Zeppelin, só faltando xingar a mãe do Ozzy Osbourne, do qual só admitem curtir a música "Perry Mason", mais "digestível".

Desse modo, a situação do radialismo rock não melhorou com a volta da 89 FM, cujo verdadeiro "público alvo" são figuras como Roberto Medina, espécie de "Ricardo Teixeira" da cultura rock. Afinal, a 89 FM nem sequer está disposta a adaptar-se às exigências do radialismo rock de fora, que exigem mais conhecimento de causa e não só uma vitrolinha "irada".

A Fluminense FM não vai voltar. Tudo bem. Mas a 89 FM voltou para "apanhar" das rádios de rock do exterior, com sua visão bairrista de "cultura rock" que só empolga seus fanáticos ouvintes. Que, não sabendo metade do que acontece de tudo no mundo, acha que um mero hit-parade roqueiro ou algo parecido irá salvar suas vidas. Não vai. E eles ficarão tão bitolados quanto se só ouvissem "funk" e "sertanejo".

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