sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

'FAMIGLIA' FRIAS É SÓCIA DA 89 FM


Por Alexandre Figueiredo

A "tão esperada" volta da dita "rádio rock", a 89 FM, já ganhou um sabor amargo que os mais jovens dificilmente conseguem compreender. Não só pelo fato de que a rádio retomará apenas a fase medíocre, mas comercialmente bem sucedida, dos anos 90, mas pelo controle acionário da emissora, que ganhou um reforço no quadro acional.

A emissora continua pertencendo à família Camargo - sobretudo José de Camargo Jr., que é dono da marca "89 FM A Rádio Rock" - , mas agora ela firmou parceria com o portal de Internet UOL (Universo On Line), de propriedade da famiglia Frias, da Folha de São Paulo.


A Folha, junto com o Grupo Abril, que chegou a ser sócio do UOL, sempre adotou uma atitude protecionista em relação à programação "roqueira" da 89 FM nos anos 90, já bastante inferior ao que as rádios de rock autênticas dos anos 80 (como a niteroiense Fluminense FM e a paulista 97 Rock) fizeram.


A notícia foi dada pela própria Folha de São Paulo. A rádio oficialmente se chama UOL 89 FM A Rádio Rock, e seus primeiros minutos deram conta de que a emissora nem está aí para as transformações e demandas do verdadeiro radialismo rock que, hoje em dia, praticamente só existe no exterior. E mostra que, perto de muita rádio roqueira dos EUA e Europa, a 89 FM vai ficar comendo poeira.

FOLHA ADMITE: 89 FM VOLTOU PARA ALIMENTAR A "INDÚSTRIA DE SHOWS"

A Folha de São Paulo admite que a volta da 89 FM está diretamente relacionada ao mercado de shows internacionais no Brasil, nos quais o rock mainstream é um dos filões potenciais e que tem no Rock In Rio sua vitrine maior.

"A volta da emissora ao dial coincide com o bom momento do gênero no Brasil. Com a crise na Europa e Estados Unidos, a América Latina é vista como um grande mercado, até então pouco explorado, para promoção de festivais e turnês internacionais", informou a Folha.

A programação da rádio será a mesma que marcou a rádio entre 1990 e 2006, quando a emissora deixou o filão e se tornou rádio pop convencional. Portanto, será apenas de sucessos comerciais ou de grandes sucessos de bandas autênticas manjadas (tipo Iron Maiden, Van Halen e Foo Fighters), sem ir a fundo para canções mais obscuras, músicas longas, lados B de compactos ou músicas instrumentais.

"PARECE JOVEM PAN 2"

Quando tentei ouvir o arquivo de vídeo com áudio do YouTube mostrando os primeiros minutos da nova fase da 89 FM, tamanha foi minha indignação, porque o estilo de locução do Tatola, que comandou as primeiras horas da rádio, é puramente estilo Jovem Pan 2, com aquela mesma linguagem de rádio de pop dançante (que o próprio Tatola chama de "putz-putz"), só com um vitrolão "roqueiro".

Além disso, a programação musical nem de longe representou surpresas. Ela parece "genial" dentro de um terreno semi-árido de mediocridade galopante. Isso diz muito para um país como o Brasil, onde se pratica o famoso ditado "em terra de cego, quem tem um olho é rei".

Num país onde "grande estadista" é Fernando Collor ou Fernando Henrique Cardoso, as "melhores musas" se chamam Geisy Arruda, Nicole Bahls e Mayra Cardi, "grandes artistas" são Thiaguinho e Michel Teló, "jornalismo investigativo" é a revista Veja e exemplo de "figura humana" é Luciano Huck, é claro que a juventude média vai achar que a 89 FM é "a melhor rádio rock do mundo".

Nem de longe. O repertório torna-se convencional, sem sair muito daquela linha dos "grandes sucessos" do rock mais antigo, com músicas e intérpretes mais manjados. Além disso, a prioridade continua sendo mesmo o "som dos anos 90", com ênfase maior nas bandas grunge e no poser metal e no Rock Brasil mainstream.

NADA DE MÍDIA ALTERNATIVA

A 89 FM nunca foi, no entanto, uma rádio de rock de verdade. A emissora foi apenas um vitrolão roqueiro apoiado por um logotipo de impacto hipnótico. Mas nem de longe a rádio transmitiu um estado de espírito roqueiro, uma personalidade roqueira, uma mentalidade ou filosofia roqueira,.

Pelo contrário, a rádio sempre trabalhou uma imagem estereotipada do público roqueiro, de perfil ideológico mais conservador, apenas dotado de alguma "agressividade" no comportamento, uma espécie de "rebeldia" formal. Ideologicamente, o "roqueiro" da 89 se aproxima ao de uma direita não-assumida.

No entanto, a Rádio Cidade, durante os tempos em que representou o perfil da 89 FM no Rio de Janeiro, entre 1995 e 2006 (sendo que em rede, a partir de 2000), chegou a trabalhar um perfil ainda mais reacionário do estereótipo "roqueiro", alinhando-se na extrema-direita nos mesmos moldes da revista Veja.

Com a associação explícita ao Grupo Folha, dono do portal UOL, a UOL 89 FM confirma seu vínculo com a mídia mais conservadora, o que fará com que a emissora nem de longe se destaque no perfil do radialismo rock do Brasil, quanto mais do mundo.

A emissora continuará indiferente às tendências mais alternativas e a vertentes mais "difíceis" do rock'n'roll. Isso significa que a emissora não tocará lados B de compacto nem músicas instrumentais, nem bandas pouco conhecidas e nem canções longas. E quem acha que vai ouvir de novo o rock da Baratos Afins na 89 FM, é melhor sentar na calçada e chorar.

E haverá locução em cima das músicas, "cortando" canções como "Smoke On The Water", do Deep Purple, no final ou impedindo que os ouvintes ouçam as introduções dos sucessos roqueiros sem a intervenção da voz do locutor, uma prática ainda existente no rádio brasileiro e que não condiz com a realidade da Internet, onde músicas em MP3 circulam soltas inteiramente como se ouve em disco, sem blablablá nem vinhetas em cima.

Além disso, a tendência provincianista da mídia brasileira, que contagia muitos jovens internautas, faz com que a 89 FM também proceda de forma completamente indiferente às pressões do radialismo rock no mundo inteiro.

Em outras palavras, a 89 FM será apenas mais uma rádio de hit-parade, sem representar algo de novo ou renovador para o radialismo rock. Por enquanto, sua volta parece "novidade", mas quando voltar a rotina voltarão as mesmas queixas que derrubaram a rádio em 2006. A locução "putz-putz" de Tatola e companhia já dão uma boa ideia disso.

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