terça-feira, 11 de dezembro de 2012

CLARIN E A BLINDAGEM DA MÍDIA DOMINANTE


Por Alexandre Figueiredo

Há poucos dias, uma batalha acontece na Argentina, com a presidenta Cristina Kirchner anunciando a Lei de Meios para impor limites à concentração de poder dos grupos midiáticos locais. Um dos principais alvos é o poderoso grupo do jornal Clarín, que anda subornando juízes para evitar qualquer medida que venha a reduzir seu império no país vizinho nosso.

Juízes da Câmara Civil e Comercial teriam sido pagos com viagens a Miami, seduzidos pelos executivos do Grupo Clarín para frear a aplicação da Lei de Meios contra seu grupo. A Lei de Meios chegou a ser apelidada de 7D porque sua validade legal se tornaria completa no último dia 07 de dezembro.

Mas o Clarín, ameaçado de perder pelo menos 200 licenças, o que significaria abrir mão do controle de boa parte de seus mais de 200 veículos midiáticos, incluindo emissoras de rádio e TV, jornais e portais de Internet, entrou com uma liminar que suspendeu a entrada em vigor dos referentes artigos.

Quem observa os noticiários da mídia conservadora no Brasil conhece uma visão estranha, em que o Grupo Clarín é definido como um veículo da "mídia independente" que sofre a "injustiça" de ser perseguido pela presidenta Cristina. Sem desmentir o gigantesco patrimônio da corporação argentina - aliada dos interesses do capitalismo dominante do G-7 - , os jornalistas brasileiros conservadores tratam o Clarín como "vítima".

É uma choradeira imensa em que clichês como "ameaça à liberdade de imprensa" e "perseguição contra a imprensa independente" são fartamente explorados, tratando a lei de regulação midiática proposta pela presidenta argentina como uma "censura à imprensa livre".

O empresariado midiático usa essa desculpa de "imprensa livre" para impor seu poderio e manter a histórica concentração de poder de seus veículos. E eles conseguem fazer tudo, por conta de seu poderio econômico e político, para barrar a regulação midiática. A sociedade é que não é livre, ela acaba sendo manipulada pela "liberdade" atribuída apenas a uns poucos jornalistas e executivos detentores de poder.

E o Clarín acha que seu monopólio garante o status de "mídia independente". É uma corrupção do sentido de "independente" que faz com que o poder dominante se camufle num "não-poder", como se quisesse se confundir entre os cidadãos que lhe são manipulados.

O grande problema é que toda a mídia conservadora associada, em outros países, engrossa seu coro contra a Ley de Medios, difundindo uma imagem bastante negativa do controle democrático da mídia, do uso da lei para combater abusos cometidos pelo poder econômico através da mídia. Até a Sociedad Interamericana de Prensa se mobiliza em defesa dos ricos barões do Grupo Clarín.

E é irônico que, há dois dias, enquanto os defensores da regulação da mídia mudaram o 7D para o 9D na esperança de que ela seja realmente efetivada, os barões da mídia estabeleceram o "Dia Internacional contra a Corrupção", num engajamento caricato que se pode ver até no portal do Instituto Millenium, principal reduto da blindagem da mídia reacionária e abertamente solidário ao Grupo Clarín.

A regulação da mídia não é um processo de "fechar o cerco da mídia", mas um instrumento legal para começar a desobstruir as barreiras midiáticas que impedem a verdadeira liberdade de informação, que não é aquela dos que têm mais dinheiro, mas a que procura o maior equilíbrio possível entre os diversos interesses da sociedade, sobretudo as classes populares.

Isso é que os grandes grupos de comunicação não querem. Eles não querem largar o osso, o poderio que eles exercem lhes garante privilégios extremos. E eles tentam criar um simulacro de mobilização para enganar a opinião pública, como se eles é que fossem as "vítimas" e não os algozes.

A concentração de poder que eles exercem prejudica a sociedade e por isso a regulação da mídia existe como um instrumento legal e democrático para combater esse abuso do poder. A sociedade é impedida de expressar seus reais interesses, por conta da influência que esse monopólio, em cada país, exerce na sociedade e que chegam ao ponto de condenar os movimentos sociais e até as populações indígenas locais.

A regulação da mídia, dessa forma, é uma ferramenta indispensável para tentar recuperar o direito de voz àqueles que não conseguem ser inteiramente representados nos meios de comunicação. Quem censura a sociedade é a grande mídia, a mesma que reclama pela sua "liberdade de expressão".

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