domingo, 16 de dezembro de 2012

BREGA NUNCA FOI VANGUARDA


Por Alexandre Figueiredo

A blindagem da grande mídia - sim, a mesma dos Mervais, Policarpos e Cantanhedes da vida - ao brega chega ao ponto de lançar a "pérola" de que seus ídolos são "preciosidades cult", fazendo com que o público dito alternativo no Brasil desviasse sua garimpagem na busca de verdadeiras preciosidades com a preguiçosa comodidade de aceitar o que era dominante no paradão popularesco mais antigo.

Fica muito fácil. Afinal, qualquer um vai para um sebo de discos e procura vinis e CDs - ou, para quem interessar, fitas cassete - de ídolos bregas de 20, 30, 40 anos atrás. Tudo bem. O problema é que esse hábito é trabalhado pela grande mídia como se fosse um "revival alternativo" ou alguma "nova vanguarda" que supostamente se renova a partir de referenciais antigos.

Grande engano. O que se vê é uma grande malandragem na imprensa. Afinal, é muito mais fácil procurar "aquele disco" do Odair José ou uma coletânea de Waldick Soriano do que garimpar à procura de, por exemplo, bandas psicodélicas da Bulgária do período 1965-1968.

DIANTEIRA PERUANA

Até o Peru passou uma rasteira nos brasileiros e o pequeno país sul-americano foi descoberto como pioneiro no punk rock, através de uma banda de curta trajetória chamada Los Saicos. O grupo, aparentemente, era apenas uma banda de garagem situada entre a Beatlemania e a "nação" Woodstock, mas tanto sua trajetória quanto suas músicas e temas anteciparam, com exatidão, as bandas punk dos anos 70-80.

Ouvindo músicas como "Demolición", o musicólogo se surpreende com a estrutura da música, curta e direta, tipicamente do punk rock mais básico. A única diferença é que, como é de praxe na época, o som do vocal era ecoado, como nas músicas dos anos 60. Mas, fora isso, a crueza punk pode ser notada neste grupo que havia gravado apenas compactos entre 1965 e 1966.

Até uma música como "El Entierro de Los Gatos" também surpreende por antecipar em 1965 o que os Stooges só passaram a fazer em 1967, e, com mais projeção, depois de 1969, que é um protopunk menos veloz, que na verdade antecipava o som noise de Sonic Youth e Jesus and Mary Chain. Não há como deixar de comparar "El Entierro de Los Gatos" com "I Wanna Be Your Dog".

A própria postura "despretensiosa" e supostamente "despolitizada" do grupo lembrava muito a do Ramones. Mas o grupo era capaz de compor temas políticos como "Alcatraz", sobre uma conhecida prisão de segurança máxima. Do grupo original, três estão vivos e eles retomaram as apresentações ao vivo depois de serem redescobertos pelo documentário Saicomania.

JÁ NO BRASIL...

No Brasil, até a psicodelia chegou tarde, de uma forma tímida em 1967, por alguns nomes mais avançados da Jovem Guarda. Até que "Tijolinho", sucesso de Bobby di Carlo, assimilou elementos dos Byrds em sua gravação original de 1966.

Nomes como McCoys (do sucesso "Hang On Sloopy", cuja versão, "Pobre Menina", com Leno e Lilian, foi grande sucesso no Brasil) e Seeds (cuja música "Pushin' Too Hard" teve versão gravada por Wanderleia) de alguma forma eram divulgados no país, juntamente com outros como Sam Shan & The Pharaohs, Castaways e outros. Ainda era a turma de 1965, pois Doors e Velvet Underground só seriam mais conhecidos pelos brasileiros a partir dos anos 70.

Mas tudo isso era muito pouco diante do que se fazia nos EUA - sobretudo na Califórnia - e no Reino Unido. O clima de desbunde que o Brasil só começou a conhecer para valer em 1970 já existia na San Francisco de 1965. Mas se notarmos, por exemplo, o engajamento estudantil da forma como vimos no Brasil de 1966-1968, ele já havia nos EUA e na França de 1959-1961.

O grande problema do Brasil é que o brega, visto hoje pela campanha midiática como "vanguarda", nunca teve a ver com isso, constituindo, até de forma explícita, numa retaguarda cultural escancarada.

O BREGA SEMPRE FOI RETRÓGADO

O brega sempre foi retardatário. Dos primeiros ídolos cafonas, se via uma imitação, um tanto caricata e tardia, dos antigos seresteiros dos anos 30 e 40, feita em pleno alvorecer da Bossa Nova. A intelectualidade do eixo RJ-SP, e mesmo os de outros lugares àquela associados, imaginavam que o "povão" consumia a Bossa Nova adoidado, o que é um equívoco.

Afinal, mesmo músicos surgidos na região Norte, como Billy Blanco e João Donato, eram pouco conhecidos pelos nortistas comuns. Em compensação, já no começo dos anos 60, os ídolos cafonas eram divulgados nas rádios do interior do país, controladas por oligarquias regionais.

No entanto, o brega sempre se valeu de traduções tardias e estereotipadas de tendências mais antigas. As primeiras gerações cafonas, de 1958 a 1972, emularam tardiamente tendências como as serestas (sobretudo seu auge de 1930-1955) entre 1958 e 1964, a Jovem Guarda (1964-1968) entre 1968 e 1975, o sambalanço (1959-1967) entre 1968 e 1977 e a disco music (1972-1980) entre 1978 e 1984.

Mesmo a tardia assimilação de ritmos folclóricos brasileiros evocada pela música brega é também tardia e oportunista, geralmente condicionada pelo mercado turístico nos tempos do "milagre brasileiro" e pelo poder midiático associado. O "sambão-joia", por exemplo, é uma tradução piegas do "sambalanço" tardiamente feita por ídolos como Luís Ayrão e Benito di Paula.

O breganejo surgiu a partir de diluições comerciais e "americanizadas" que a indústria fonográfica impôs à música caipira. A axé-music surgiu de uma tendenciosa manobra política do Carnaval da Bahia, assimilando o mais rasteiro comercialismo pop. O forró-brega surgiu a partir das diversas diluições de ritmos caribenhos e do pop comercial dançante feitos na Região Norte (Pará, sobretudo) desde meados dos anos 70.


A VANGUARDA CULTURAL OLHA PARA FRENTE, NÃO PARA TRÁS

As pessoas em geral ignoram que a vanguarda cultural de verdade olha para a frente, não para trás. Isso não se refere necessariamente à questão cronológica, mas à linguagem artística, já que se pode assimilar tendências antigas de surpreendente expressividade artística. Melhor, por exemplo, assimilar Sílvia Telles (1934-1966) e Bobby Fuller (1942-1966) do que Mr. Catra e Stefany Absoluta.

O grande problema é que o brega é mesmo retardado artisticamente. Isso não é xingação, é constatação. O brega é composto de uma colcha de retalhos de tendências fora de moda, feitos não de forma criativa, mas de uma forma a criar uma "linha de montagens" para o cardápio radiofônico mais comercial.

Na melhor das hipóteses, o brega é nosso bubblegum, não merecendo de jeito algum ser considerado "vanguarda", "canção de protesto", "música alternativa", "verdadeira MPB" ou outras classificações tendenciosas.

Todavia, o brega, sociologicamente falando, é exatamente a tradução musical (ou mesmo cultural, se levarmos aspectos de vestuário, técnica, estética de palco etc), do plano econômico que os ministros da ditadura, Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões, que pensavam no "desenvolvimento" do Brasil às custas de tecnologia obsoleta e da degradação econômica e gradual das classes populares.

Ou seja, o brega sempre é o último a saber em relação aos modismos ou tendências do momento. E, socialmente, está associado aos ambientes de maior atraso social, como prostíbulos, camelôs, botequins velhos e sujos.

Pensar o progresso sócio-cultural do país a partir do brega é simplesmente passarmos para o mundo o atestado de imbecilidade. Bancar os coitados culturais, chorando por algum lugar nobre na cultura brasileira, não traz benefício algum. E, além do mais, a indústria cultural adora a breguice cultural, porque ela rende muito dinheiro com baixos investimentos. E muito "coronel" ficou rico graças aos ídolos cafonas.

Brega é retaguarda, é atraso. Se muitos pensam que o brega trará o progresso social para o país, é sinal que a "síndrome de vira-lata" continua com uma multidão de seguidores...


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