quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

BRASIL, SAMBA, SUOR E SENSUALIDADE: O IMAGINÁRIO CONSTRUÍDO

EM SENTIDO HORÁRIO: As musas da mídia machista Geisy Arruda, Mayra Cardi, Renata Frisson (Mulher Melão) e Jéssica Lopes (Peladona de Congonhas).


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Um texto de Kátia Maria Belisário, bastante contundente, mostra a grave denúncia de que a exploração da imagem "sensual" da mulher brasileira, além de criar uma imagem preconceituosa, agrava problemas sociais como o turismo sexual, a prostituição e o tráfico de mulheres.

Junte-se a isso a violência feminicida de diversos homens, a exploração da mídia da imagem da "boazuda" e os malabarismos no recenseamento, que criam na população brasileira uma maioria feminina que não existe na realidade, e são forjadas condições que mais desfavorecem a vida das brasileiras em diversos sentidos.

Brasil: samba, suor e sensualidade. O imaginário construído

Por Kátia Maria Belisário* - Do Portal da Universidade de Brasília

A mídia e a Embratur contribuem para construir o imaginário do Brasil como a terra do samba, suor e sensualidade, da mulher fácil. A consequência é o agravamento dos problemas sociais, com aumento da prostituição infantil e do tráfico de mulheres.

O Brasil tem sido representado no cenário externo por suas belezas naturais e exóticas, pelo verão, pela musicalidade, pelo futebol e principalmente por mulheres belas e sensuais. Jornalistas, e a mídia estrangeira de modo geral, costumam mostrar a brasileira ao mundo com certa dose de malícia, excesso de preconceito e demasiada generalização. Clichês e estereótipos femininos como Carmem Miranda, Garota de Ipanema, passistas seminuas e mulatas fazem parte da identidade nacional e do imaginário de turistas masculinos norte-americanos e europeus que, anualmente, desembarcam no país no carnaval.

Chrysostomo (2004), em artigo publicado no Observatório da Imprensa, constata: “A mulher brasileira vem tendo sua imagem desrespeitada no exterior em razão da nudez do Carnaval”.  No mesmo artigo ela mostra fotos de mulheres das escolas de samba do Rio de Janeiro publicadas no jornal italiano Corriere de La Sera Online com legendas “extremamente maliciosas”. Sá (2002) também mostra o desrespeito à brasileira no artigo “Rio, as Metas excitantes de inverno” do jornalista italiano Giovanni Buffa, que sugere a fuga dos europeus para o Brasil em busca de suas fantasias:

Para os jovens é fácil encontrar companhia, as mulheres brasileiras não se fazem de difíceis, obviamente quando elas  têm vontade. Porém, vale a pena lembrar que o Rio é a cidade onde se encontra a maior quantidade de prostitutas e de homossexuais de todo o continente americano. [...] Nos bares noturnos da cidade encontram-se graciosas jovens brasileiras dispostas a dançar com vocês, e, se forem generosos, elas estarão dispostas inclusive a fazer companhia durante toda a viagem (BUFFA apud SÁ, 2002:113).

O jornalista italiano Sandro Malossini descreve os principais pontos turísticos da costa brasileira e destaca a grande facilidade para conquistar as mulheres. Apresenta ainda um glossário para entender melhor o Rio de Janeiro, onde explica termos como: “Gatinhas – garotas gentis com biquínis de tirar o fôlego; Mulatas – mulheres conquistáveis por pouco dinheiro” (BUFFA apud CALAÇA, 2007).

Costumam ser mostrados também trechos de informações direcionadas ao público-alvo, com informações sobre motéis, valores de programas com prostitutas e frases motivadoras para a prática do turismo sexual, como: “[...] Se vocês algum dia sonharam em ser o sultão de um harém repleto de esplendiosas odaliscas, o Rio é o lugar ideal” (MERIDIANE BRASILE, apud CALAÇA, 2007). Ou ainda: “O que é o Brasil? São as praias, as florestas, as favelas (…) ou as formas arredondadas posteriores das garotas de Ipanema, Copacabana ou Itaparica?” (TUTTO TURISMO, apud CALAÇA, 2007).O Instituto Brasileiro do Turismo (Embratur), autarquia especial do Ministério do Turismo responsável pela promoção, marketing e apoio à comercialização dos destinos, serviços e produtos turísticos brasileiros no mercado internacional, também contribuiu para essa percepção da brasileira. Nas décadas de 1970 e 80, a Embratur divulgou material institucional brasileiro com fotografias de bumbuns femininos  e garotas com biquínis minúsculos e nudez de Carnaval.

Nesse sentido, Guinoza (2010), ao tratar do tema turismo sexual, afirma:

O turismo sexual, dizem os nacionalistas envergonhados, é ruim para a imagem do país. Mas não foram os órgãos oficiais que durante décadas “exportaram” a bunda das brasileiras como uma de nossas belezas naturais? E o carnaval: o que é senão chamariz para turista “mal intencionado”? No Rio, agora proibiram cartões-postais com moças de biquíni naquele “doce balanço, a caminho do mar”. Tarde demais. Fez a fama, deita na cama. No guia Rio For Parties (Rio para Festeiros), de Cristiano Nogueira, as cariocas são comparadas a “máquinas de sexo”. A publicação irritou feministas e carolas – sempre prontos para acabar com a festa dos outros –, mas nada faz além de repisar o senso comum (GUINOZA, 2010).

A consequência mais imediata disso tudo é o agravamento dos problemas sociais, com o aumento da prostituição infantil, o tráfico de mulheres para o exterior. O programa Our World: Brazil's Child Prostitutes (Nosso Mundo: As Crianças Prostituídas do Brasil), exibido em 2010 pela rede BBC, mostrou que a cada semana agências de turismo trazem milhares de homens europeus às cidades brasileiras. Os homens chegam em voos fretados ao Nordeste brasileiro à procura de sexo barato, incentivando a prostituição. O problema constatado, principalmente em Recife, faz o Brasil alcançar o posto da Tailândia como o principal destino mundial do turismo sexual.

A Organização Internacional do Turismo (OIT, 2005) elenca as principais razões que favorecem a atuação de aliciadores no Brasil: o baixo custo operacional; a existência de uma boa rede de comunicações; a facilidade de acesso a bancos, casas de câmbio, portos e aeroportos; a facilidade de ingresso em vários países sem necessidade de visto consular; a tradição hospitaleira da população em relação aos turistas e a miscigenação racial, fator que atrai os clientes europeus da prostituição. Nesse contexto, a brasileira comum, a empresária, a médica, a advogada, a professora, a pesquisadora, a modelo e a artista são vistas com preconceito, sendo muitas vezes associadas à prostituição em países do primeiro mundo.

Parece difícil mudar a imagem construída durante décadas. Um país tão grandioso, com tantas belezas naturais e tanta diversidade cultural como o nosso, corre o risco de ser representado de forma simplista e genérica. O Brasil do futebol é terra também de samba, suor e sensualidade, terra de mulher fácil, na linguagem do turismo internacional.

A mudança exige o envolvimento conjunto das famílias, da comunidade nacional e internacional, do governo e dos meios de comunicação. Nesse sentido, o papel da mídia é fundamental. É preciso entender o que está além da simples informação, é necessário responsabilidade social, respeito às cidadãs brasileiras. Representações estereotipadas e preconceituosas por parte da imprensa podem gerar consequências nefastas, tanto para a imagem da brasileira no exterior, quanto para o Brasil como um todo.

Referências Bibliográficas

CALAÇA, Eduardo Bruno. Mídia, Cultura e Exclusão Social; Abordagem sobre o Turismo Sexual na Mídia. Núcleo de Pesquisa em Comunicação e Informação. Nepec, CNPQ, 2007. Disponível em:<http://intermidia.wordpress.com/textos/seminario/midiaculturaeexclusao>. Acesso em 10 de setembro de 2010.

CHRYSOSTOMO, Eliane. Desrespeito lá fora, despudor aqui dentro. Observatório da Imprensa, março 2004.

GUINOZA, Marcos. Import/Export.13/03/2010. Disponível em <http://mais.uol.com.br/view/h2whtaaog3ed/import--export-402993070DCB96326?types=A&

ORGANIZAÇÂO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Um a aliança global contra o trabalho forçado. Relatório Global do Seguimento da Declaração da OIT sobre Princípios e Direitos Fundamentais no Trabalho, 2005.

SÁ, Rosana Bignami Viana de. A imagem do Brasil no turismo: construção, desafios e vantagem competitiva. São Paulo, Aleph, 2002. 

 *Professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UNB), doutoranda em Jornalismo e Sociedade, Mestre pela Universidade da Califórnia, Estados unidos, graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)

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