domingo, 9 de dezembro de 2012

A "PRIVATIZAÇÃO" DA CULTURA POPULAR


Por Alexandre Figueiredo

Há muito tempo a cultura popular ficou privatizada. Se a opinião pública foi apropriada por uma elite de jornalistas reacionários que desprezam o verdadeiro interesse público, a cultura popular foi duplamente apropriada pelas elites, tanto no que diz à privação da população pobre do seu próprio legado cultural quanto a quem decide o que tem que ser a "cultura" a ser associada às classes populares.

De um lado, temos elites de especialistas e técnicos que se apropriam do antigo legado das classes populares e fazem a propaganda da atual mediocrização cultural como se esta fosse a "cultura popular" da atualidade e o "folclore" do futuro. De outro, temos um empresariado que controla todo o processo de "aculturação popular" que conhecemos como brega-popularesco.

Assim como temos comentaristas políticos defendendo valores contrários ao interesse público, como a privatização desenfreada, a dependência econômica ao FMI e a repressão aos movimentos sociais e às populações indígenas, temos uma intelectualidade que tem medo de ver o povo pobre redescobrindo sambas, violas, catiras, maracatus, frevos, baiões etc.

A intelectualidade sai horrorizada. "Como? O povo curte 'funk', hip hop, brega, tecnobrega, 'forró eletrônico'... Isso é cultura popular! As popozudas são o moderno feminismo, na medida em que elas se sustentam sozinhas e manifestam seu desprezo ao domínio masculino! A imprensa policialesca é sensacionalista, sim, mas mostra a notícia pelo seu lado divertido e hilariante", são as desculpas comuns.

Cidadania, para essa intelectualidade, é boa só na "boa sociedade". Se Gisele Bündchen faz papel de mulher-objeto, essa intelectualidade cai na bronca. Mas se é uma "mulher-fruta" do "funk carioca" fazendo a mesma coisa, eles afirmam que se trata de uma "natural expressão da liberdade sexual das periferias".

A cultura de verdade, seja a música brasileira autêntica, os grandes valores sociais, os grandes educadores, as grandes expressões, quase tudo vira "patrimônio" de uma elite de especialistas. Para eles, o "povão" tem que ficar na breguice, na falta de higiene, no alcoolismo, na prostituição, no comércio ilegal, no subemprego, no analfabetismo, porque tudo isso é a "pureza admirável das periferias".

Esse discurso foi veiculado durante muito tempo e, pasmem, gerando muitos aplausos por causa da forma como esse discurso elitista foi feito. E mostra o quanto a cultura popular foi "sequestrada" pelas elites intelectuais ligadas ideologicamente (embora formalmente "rompidas") com o tucanato acadêmico de Fernando Henrique Cardoso e José Serra.

Eles tentaram convencer as esquerdas a aceitar seus pontos de vista, seu neoliberalismo histérico e intransigente, mas travestido de "esquerdismo" por causa da palavra "popular" que sua retórica se apoiou. Hoje, felizmente, as análises críticas começam a desmascarar esse discurso, que teve que ficar praticamente limitado ao proselitismo mais explícito da velha grande mídia.

No entanto, o estrago foi feito. E ainda há vozes tentando impor seu proselitismo às esquerdas. MC Leonardo, por exemplo. O dirigente funqueiro da APAFUNK parece falar para as paredes em seus artigos na Caros Amigos, não fosse o fato de que seu discurso agrada aos intelectuais domesticados pelas "gorjetas" de George Soros e seu "ativismo social" bem ao gosto do FMI.

Temos hoje um quadro de vulgaridade feminina pior do que nos tempos do É O Tchan e até mesmo as "desalojadas" do nosso mundinho da fama, a "tiazinha" Suzana Alves e a "feiticeira" Joana Prado, tornaram-se duas senhoras recatadas.

E se naquela época tínhamos apenas umas dançarinas do Tchan, umas poucas funqueiras e umas integrantes da Banheira do Gugu beirando a titias, hoje temos um mercado pior, onde centenas e centenas de musas "calipígias" frequentam a mídia "mostrando demais" de seu corpo e nada mostrando de suas mentes, por sinal tão vazias.

O brega-popularesco da música cresceu tanto que as gerações mais antigas ainda são erroneamente vistas como "MPB" por vários incautos. A imprensa policialesca cresceu tanto que cada capital possui pelo menos um jornal do gênero. A programação da TV aberta piorou consideravelmente, mas a banalidade grotesca já começa a contaminar a TV paga. E as novelas usam e abusam na imagem domesticada do povo pobre.

E, enquanto especialistas das ciências sociais e da imprensa cultural usurpam o legado da cultura popular verdadeira, a "cultura popular" que a mídia quer que o povo de hoje tenha é imposta por um empresariado ligado a agências de famosos, "pequenas" gravadoras, casas noturnas, produtoras de eventos, rádios e TVs que controlam o "mau gosto" que deve prevalecer nas classes populares.

Pior: essa elite de "produtores do mau gosto" é ainda cortejada pela intelectualidade, como se fossem eles os "autossuficientes humildes criadores das periferias". E isso inclui até mesmo o dono da rádio regional, com jeitão de latifundiário (e até o é), que toca os ditos "sucessos populares" que a intelectualidade influente, lá nos seus "quartéis generais" de São Paulo, definem como "cultura das periferias".

Desse modo, a "privatização" da cultura popular transforma as classes populares numa multidão praticamente imobilizada, desestimulada a mobilizar-se por melhorias e esperando que algo venha de uma decisão "de cima", de um desenvolvimentismo que agrade aos detentores do poder político, econômico e midiático.

Desse modo, o povo deixa de ter sua cultura enquanto toma como "sua" a "cultura" imposta por rádios e TVs e alimentada pelos barões do entretenimento que empresariam agências de famosos, gravadoras "pequenas" regionais, casas noturnas, produtoras de eventos, rádios (incluindo comunitárias) e TVs locais.

Assim, "Cidadania" se limita a ter um "C" de "cafonice", que não é mais do que um "c" de "consumismo", de "capitalismo", de "conformismo". Tudo para manter o povo como um "gado" para o poder político, econômico e midiático.


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