quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A PREOCUPANTE IMAGEM "SENSUAL" DO BRASIL

PARA REFORÇAR O MITO DO "PAÍS MULHER", ATÉ MESMO HOMENS QUE MORAM NAS ENTRANHAS DAS FAVELAS, COMO EM SALVADOR, SÃO IGNORADOS PELO CENSO.

Por Alexandre Figueiredo

Lendo o artigo de Kátia Belisário, reproduzido ontem neste blogue, vemos que a situação da mulher brasileira é bem mais grave do que se imagina. A preocupação de promover uma imagem "sensual" do Brasil, principalmente no exterior, para alimentar o turismo, recorre a mentiras e fraudes que em vez de estimularem a verdadeira valorização da mulher brasileira, fazem justamente o contrário.

Vemos que até mesmo o Censo do IBGE, desde 1970, adota métodos viciados que até agora não foram superados. Em 1960, os homens eram maioria na população brasileira, numa época em que as mulheres praticamente viviam "guardadas" na sociedade.

Depois, de 1970 em diante, com toda a vulnerabilidade que a realidade cruel impôs às mulheres, principalmente a fúria machista conjugal que praticamente massacra mulheres na "contribuição" vingativa de seus próprios "companheiros", com todos os latrocínios e acidentes de trânsito que vitimam até mesmo muitas moças, com todos os erros médicos diversos que dizimam fêmeas, elas estranhamente viraram "maioria" nos recenseamentos oficiais.

Enquanto isso, nas entranhas das favelas, nos trajetos dos êxodos rurais, no escuro das calçadas noturnas, muitos homens "desaparecem" dos dados censitários, junto aos homens de negócios no extremo oposto das pirâmides sociais, escondidos nos aviões no alto dos céus. Quanto aos homens pobres, eles não são sequer um número nos dados censitários, só são "alguém" nos obituários das ocorrências policiais.

Enquanto isso, os dados censitários mantém expostos os cadáveres das mulheres vítimas da violência, ainda vivas nos números do Censo. Pelo menos duas ou três das "oito mulheres" que oficialmente os homens brasileiros têm direito já foram mortas em algum acidente de trânsito, homicídio ou algum erro médico. Mas elas continuam "fazendo número" nos dados populacionais, já que foram consultadas antes de morrerem.

O mito de que o Brasil tem "maioria feminina" na população, embora em tese favoreça o corporativismo de certos movimentos feministas e garanta a satisfação confortável de homens e mulheres, é uma armação feita por algumas instituições, como o IBGE e a Embratur, para atender a interesses do mercado turístico e hoteleiro de promover a imagem de um Brasil "sensual" para atrair investidores e turistas.

Uma das cidades símbolo, Salvador, por exemplo, possui uma evidente maioria masculina em sua população, algo observável nas ruas, em toda parte da capital baiana, mas a preocupação da indústria turística em transformar a cidade num "paraíso sensual" tenta mostrar o contrário, principalmente manipulando os dados, creditando muitos moradores masculinos de Salvador como se eles ainda morassem nas suas cidades de origem localizadas no interior da Bahia.

Mas os malabarismos censitários, que contradizem as tendências de 1960 comparadas com hoje, são apenas o recheio de todo um cardápio machista que estimula o mercado brasileiro, fenômeno produzido durante a ditadura militar e que ainda não foi superado pela redemocratização nem pela chegada do PT ao Governo Federal.

MÍDIA MACHISTA E MULHERES EMANCIPADAS "CASTIGADAS"

A mídia machista é uma grande colaboradora desse mercado junto à indústria hoteleira, certas autarquias e outros interessados. Ela manipula os conceitos de emancipação feminina, juntamente a uma intelectualidade associada, para que não avancem as conquistas do feminismo e elas se limitem apenas a alguns aspectos pontuais permitidos pelo status quo social, político e econômico.

Assim, a mídia machista promove uma multidão de "boazudas" ou "popozudas", lançadas aos montes no mercado para confundir a opinião pública e dificultar o efeito das críticas. Se algumas dessas mulheres repercutem mal na mídia por conta de uma gafe, elas somem - mas depois voltam - enquanto outras são usadas para alimentar esse mercado da "sensualidade" vulgar.

Essas moças são empurradas a um celibato contratual, muitas vezes falso, noutras cruel, que em boa parte dos casos impede as próprias moças de namorarem os pretendentes que elas encontram na vida noturna. Tudo isso para manter os "compromissos de trabalho", eufemismo usado para as aparições que elas fazem na mídia, sempre mostrando os corpos "avantajados", empurrados para o desejo masculino mais impulsivo.

Em contrapartida, as mulheres que passam longe desse universo "sensual" e que são emancipadas e dotadas de uma personalidade mais voltada ao mínimo de inteligência e talento, na quase totalidade dos casos, são "castigadas" sempre com a quase obrigatoriedade de viver sempre com algum marido ou namorado firme que se envolve com alguma posição de liderança, embora fora do âmbito profissional sejam ocos, superficiais ou antiquados (no caso de serem bem mais velhos).

Em ambos os casos, a influência machista ainda tenta se prevalecer sobre qualquer necessidade de avanços sociais. No caso das "musas" vulgares, o machismo é simbólico, e como elas seguem a cartilha dos padrões machistas do que é a mulher "bem sucedida", elas são dispensadas (ou até proibidas) de ao menos assumir alguma companhia masculina.

Já no caso das mulheres emancipadas, mesmo que elas apareçam mais tempo sozinhas nos eventos sociais, elas precisam sempre se associar a um marido importante, de forma a prendê-las em estruturas familiares bastante conservadoras, em que é o marido o símbolo de liderança e poder e a esposa apenas uma "aliada" desse sucesso, reduzindo sua emancipação apenas a um "saudável" complemento do êxito marital.

INTERPRETAÇÕES EXAGERADAS

Enquanto isso, mesmo quando dados oficiais censitários são muito mornos para sugerir alguma "abundância" de mulheres disponíveis. É como no caso da suposta maioria feminina nos dados do Censo do IBGE, que na prática podem sugerir um empate técnico.

Embora oficialmente se estabeleça uma média de 96 homens para cada 100 mulheres, a realidade já mostra uma proporção real, e não reconhecida ainda, de 105 homens para cada 100 mulheres no Brasil, realidade ignorada porque, além de prejudicar o mercado "sensual" dos hotéis e do turismo, aumenta a dívida pública com o reconhecimento estatístico de centenas de milhares de homens vivendo na miséria.

Afinal, a suposta proporção de 96 homens para cada grupo de 100 mulheres continua, mesmo dentro dessa estatística fictícia, sugerindo que, para cada homem, existe uma única mulher. Não existe 0,9 homem para cada mulher e, além disso, o quadro nem de longe resolve as profundas desigualdades nas escolhas amorosas, que o politicamente correto tenta ocultar mediante os claros problemas existentes entre gosto estético e afinidades de personalidade.

Recentemente, uma pesquisa da PUC de Minas Gerais afirmou que, de cada três mulheres executivas - um paradigma autêntico de mulher bem sucedida - , uma delas é solteira. A mídia divulgou isso como se fosse "crescente" o número de mulheres emancipadas solteiras, como se as mais inteligentes "sobrassem" no "mercado" amoroso.

Chegam a dizer, nas redes sociais ou nas revistas e jornais popularescos (tipo revista Sete Dias ou jornal Extra), que os homens "correm de medo" de mulheres emancipadas, sem dar detalhes e apenas apresentando números.

Mas é só ver as colunas sociais, as revistas de celebridades, as publicações de negócios ou revistas femininas mais conceituadas para ver que a realidade é bem contrária. Quase sempre as mulheres emancipadas têm marido, várias delas surpreendentemente jovens!

NO EXTERIOR, A COISA FICA FEIA

O resultado dessas manobras todas é o tráfico de mulheres, a prostituição crescente, e, por outro lado, a violência marital por conta de casais forçosamente unidos pelo status quo dos maridos e namorados. A coisa é tão séria que as moças pobres, vendo as centenas de "popozudas" que aparecem na mídia como "sinônimo de sucesso", são tentadas a ser iguais a elas para ter algum êxito a mais.

Isso faz com que redes internacionais de tráficos de mulheres cobicem justamente as brasileiras. E, na Bahia, onde as moças pobres são "educadas" pelo poder midiático a assediar qualquer homem, sem medir a necessidade de afinidades pessoais nem qualquer cautela, são fáceis de serem seduzidas por traficantes estrangeiros que podem se disfarçar de turistas "modestos".

O mercado de prostituição é até abordado na ficção através de uma novela da Globo, Salve Jorge, mas isso se torna ainda insuficiente, diante da realidade que é ainda mais cruel e longe de estereótipos. E, por outro lado, o mercado e a mídia machista continuam alimentando seu circo de "popozudas" que gera muitos problemas sociais nas classes populares.

Há a perdição de moças pobres, empurradas para apreciar "aventuras" amorosas. Há a gravidez precoce, da sexualidade impulsiva e mal orientada. Há a prostituição, há o tráfico internacional, há a pedofilia, abertamente feita até nos "bailes funk", e outros problemas sérios. E há também as mulheres brasileiras assassinadas pelos namorados no exterior, por motivos diversos.

Enfim, isso se torna preocupante por ser um emaranhado de distorções, de armadilhas, de limitações e outros transtornos e prejuízos que as mulheres brasileiras enfrentam no cotidiano. E que fazem com que o feminismo enfrente novos desafios, dentro dessa situação bastante problemática.

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