terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A NOVA DIREITA VELHA


Por Alexandre Figueiredo

A edição de Carta Capital desta semana destaca a nova direita brasileira, que se articula e tenta ameaçar e reagir contra os progressos sociais que, embora relativos e um tanto frouxos, de fato acontecem no Brasil. Intitulada "Saudades de 1964: A velha cara da nova direita", a reportagem destaca sobretudo as atividades do Instituto Millenium.

O novo direitismo é um tema há um bom tempo alertado por este blogue. E o que surpreende, e muito, embora de maneira negativa e assustadora, é que boa parte dos membros dessa nova direita era originário das fileiras esquerdistas, que apoiam os direitistas tradicionais, descendentes de antigos direitistas, constituindo uma nova direita que é velha nas ideias e princípios.

Podemos citar vários nomes, a começar do próprio José Serra, mas incluindo também Arnaldo Jabor, Ferreira Gullar, Fernando Gabeira, Marcelo Madureira, Soninha Francine, César Maia e tantos outros, hoje entrosados com as forças sociais mais retrógradas, apesar de alguma postura "modernosa" deles.

Quando se fala que a direita de amanhã poderá vir com Eugênio Arantes Raggi e Pedro Alexandre Sanches, há quem graceje e acuse um certo exagero. Mas ninguém iria imaginar que o esquerdista José Serra, abraçado a João Goulart e Leonel Brizola em 1964, iria se aliar com gosto ao Comando de Caça aos Comunistas e à Opus Dei, em 2010.

O novo direitismo brasileiro surgiu sobretudo quando passou a ressaca do pseudo-esquerdismo da Era Lula, maculado tanto pelas denúncias do "mensalão" quanto pela troca de comando do carismático Lula à nem sempre adorada Dilma Rousseff, em 2010. O modismo de apoiar um senhor bonachão fez muito neoliberal intransigente vestir a máscara esquerdista, para levar vantagem.

Mas, passado o teatrinho pseudo-marxista, que envolvia até troleiros - que soavam como "guevaristas com QI de extrema-direita" - , o neo-direitismo já veio com o apetite redobrado, envolvendo desde fãs de "sertanejo" até busólogos, passando por comediantes ofensivos e por fanáticos por "mulheres-frutas".

O Instituto Millenium nem sempre é assumido como clube do coração de muitos direitistas. Há vários que, enrustidos, até preferem fazer falsas xingações a seus mestres (como Fernando Henrique Cardoso) e a instituições como o próprio Millenium, mas seguindo suas lições com a mais devota obediência.

As visões são neoliberais, variando entre um conservadorismo doentio ortodoxo e um neo-conservadorismo que aceita mudanças comportamentais (como o uso de drogas e a pornografia exagerada das "popozudas"). E não pense que o brega-popularesco defendido por Pedro Alexandre Sanches está fora da pauta direitista: ele está todo lá, com o Casseta & Planeta, Luciano Huck e Nelson Motta (do Instituto Millenium).

O Instituto Millenium até tem parcerias com a APAFUNK, a mesma que certos incautos acreditam ser uma organização "de esquerda": o cineasta José Padilha, que recuperou o sucesso "Rap das Armas", de MC Júnior e MC Leonardo (este presidente da APAFUNK), é um dos entusiasmados colaboradores do Instituto Millenium. Não bastasse o total apoio que a famiglia Marinho dá ao "funk carioca"...

Mas também o "sertanejo", a axé-music e o "forró eletrônico" são históricos aliados da direita brasileira. O "sertanejo" é a divisão de entretenimento do poder coronelista, mesmo o "sertanejo universitário" vive de mãos dadas com Kátia Abreu e seus agropolíticos. A axé-music se alimentou do poder de Antônio Carlos Magalhães e o "forró-brega" também se alimentou do poder midiático dos Sarney, Mayorana etc.

Há também o membro honorário Pedro Bial, animador do Big Brother Brasil, que contribuiu para o circo das "popozudas" jogando nomes como Anamara, Lia Khey e Maíra Cardi para defender aquilo que a direita "dente-de-leite" de machistas "uia" (só reagem gritando "uia" quando acusados de machismo) entende como "liberdade do corpo" (no mesmo sentido da "liberdade de imprensa" dos barões da mídia).

A direita brasileira se fortalece pelas debilidades da esquerda brasileira, corporativista e fisiológica, vícios que mesmo a ultra-esquerda não conseguiu combater em si. Por mais que Reinaldo Azevedo seja odiado pelos seus textos irresponsavelmente escritos, ele mantém sua arrogância e até ri quando se lembra que é abominado pela sociedade.

Afinal, eles são medievais, mesmo. Eles não se intimidam com o isolamento em que se encontram. Nem se identificam com o interesse público, e por isso também não se intimidam com as pressões da sociedade. E se reúnem com prazer no Instituto Millenium, para pedir a volta de um Brasil retrógrado, onde os tecnocratas e os empresários decidem todas as coisas, enquanto ao povo só cabia obedecer e seguir.

Deve-se tomar cuidado com esse pessoal. Não subestimá-los nas suas estratégias. Eles são decadentes nos seus princípios e visões, mas estando a esquerda viciada em medidas paliativas, pragmáticas e, na pior das hipóteses, fisiológicas e tecnocráticas, a nova direita brasileira ainda tem razões para sentir orgulho de suas ideias raivosas, retrógradas porém às vezes bastante sedutoras. A direita é nova, mas no fundo é velha.

Não vamos apoiar os vícios da esquerda mainstream. E, no caminho de pedras da realidade brasileira, direitistas e os pseudo-esquerdistas que restam bajulando Che Guevara mas seguindo Milton Friedman - incluindo um Eugênio Raggi comendo quieto com seu neoliberalismo mal-disfarçado - continuam destilando suas raivas para impedir o verdadeiro progresso do nosso país.

Não é tempo para festas nem ilusões e o Brasil, com seus problemas e suas pessoas-problemas, está muito longe de se tornar uma verdadeira potência mundial. A direita assumida e não-assumida não deixam.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...