domingo, 2 de dezembro de 2012

A "BOSSIFICAÇÃO" DO SAMBA DO MORRO


Por Alexandre Figueiredo

O samba, aparentemente, continua em alta. Mas, sutilmente, a grande mídia, o mercado e a intelectualidade associada andam empurrando o samba original para fora de seus redutos populares. Há uma sutil exploração do gênero que sugere uma elitização gradual da exploração do gênero.

É algo que já aconteceu com o baião, que virou "coisa de universitário", na medida em que o mercado e a grande mídia do Norte e Nordeste tiraram do povo pobre a chance de continuar apreciando o verdadeiro som dos autênticos sanfoneiros, colocando no lugar, sob o rótulo de "forró", o engodo chamado "forró eletrônico" ou, quando muito, baiões frouxos de segunda ou terceira categorias.

O mercado e a grande mídia, no Rio de Janeiro, andam empurrando, desde os anos 90, um cem número de grupos do chamado "pagode romântico", às vezes com alguns grupos politicamente corretos, como Grupo Revelação e Sambô. No entanto, nem eles fogem da mesmice sambrega dos "sambas sem alma" feitos para o mero consumo através dos sucessos radiofônicos.

O samba acaba sendo diluído por uma "linha de montagem" que nem de longe representa uma criatividade ou modernização. O "pagode romântico" ou sambrega se autoproclama "herdeiro" do sambalanço, mas seu som não vai além de um samba frouxo e caricato unido a elementos também caricatos e frouxos da música negra norte-americana.

Só que é justamente o sambrega que desvia as atenções do grande público para o verdadeiro samba, que continua sendo divulgado pela mídia, mas apenas com poucos artistas e com um certo boicote das rádios "populares".

Esse estrangulamento mercadológico do samba, que contraria o mérito que o ritmo deveria receber já que é considerado patrimônio cultural pelo IPHAN, ocorre de tal forma que nomes do samba autêntico, como Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz, precisam compactuar com o mercado do sambrega para continuarem em evidência.

Mas isso também envolve os novos sambistas. Diogo Nogueira, filho do bamba João Nogueira, teve que recorrer a duetos com Grupo Revelação e Exaltasamba e um cover de Alexandre Pires para ingressar na grande mídia. Dudu Nobre, discípulo de Zeca Pagodinho, tem que compactuar com os sambregas e Leandro Sapucahy, por sua vez, teve que assimilar elementos de sambrega num CD recente.

Adere-se ao "samba sem alma", à linha de montagem que alterna uma soul music malfeita com batidas de samba estereotipadas ou uma imitação de clichês do samba mais recente para uma suposta evolução artística dos sambregas.

Pois os sambregas mais espertos decidem imitar os sons mais manjados de Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Arlindo Cruz e Fundo de Quintal, em primeira instância. Em segunda instância, a imitação já fica mais "ambiciosa", envolvendo Jorge Ben Jor e mesmo saindo da exclusividade sambista através de Djavan (que gravou sambas, também, mas não se limita ao gênero). Em terceira instância, a imitação já envolve a necrofilia de Wilson Simonal.

BOSSIFICAÇÃO

O problema se agrava quando sabemos que o mercado só permite, por cada temporada, no máximo quatro sambistas autênticos para acesso constante nas programações de rádio e TV. Artistas veteranos, como Martinho da Vila, Neguinho da Beija-Flor e Paulinho da Viola, são deixados de lado, por serem veteranos e, na ótica preconceituosa dos intelectuais "sem preconceitos", "sofisticados demais".

Por outro lado, há também o fato de Bezerra da Silva estar falecido, o que impossibilita seu acesso às rádios "populares", ou, quando muito, só no final da noite. E há um rodízio que só permite quatro sambistas autênticos por temporada. Vamos dar um exemplo.

Digamos que numa temporada os sambistas autorizados a estarem em evidência na grande mídia sejam Zeca Pagodinho, Dudu Nobre, Jorge Aragão e Arlindo Cruz. Se entra Diogo Nogueira, Dudu Nobre vai embora. Se aparece um outro, Jorge Aragão sai de cena. Infelizmente, funciona assim.

Das cantoras, a coisa fica difícil. Leci Brandão é "comunista demais" para as rádios "populares". Beth Carvalho é muito veterana e também "comunista" e havia denunciado que a CIA queria eliminar o samba, o que a torna "antipática" para tais rádios. E Teresa Cristina é "sofisticada demais" para o cardápio "básico" das rádios "populares" e os programas de TV aberta associados.

Aí, quem sobra mesmo é a cantora Alcione que, embora seja um nome autêntico da MPB, compactua com os bregas, primeiro com a máquina de fazer dinheiro de Michael Sullivan (e seu então parceiro Paulo Massadas), depois com a geração sambrega dos anos 90 (Raça Negra, Alexandre Pires etc). Apesar do inegável talento, a Marrom é aceita por eventualmente seguir as regras de mercado.

Isso faz com que, enquanto o sambrega leva a antiga ameaça dos "sambas-canções" - que fazia os críticos da época temerem pela "bolerização" do samba - até as últimas consequências e ainda aposta na subordinação do samba à soul music estereotipada dos EUA, o samba autêntico é promovido pela grande mídia "popular" como se fosse a "nova Bossa Nova", no que se refere ao seu elitismo.

Sim, porque, condenando o gosto musical das populações pobres ao sambrega e ao "funk carioca", lhes tira o acesso ao samba autêntico de seus antepassados para confinar este ritmo na apreciação gradualmente mais privativa para as elites.

No caso da Bahia, a coisa é pior ainda, porque joga-se o samba autêntico a escanteio, em nome das baixarias machistas e racistas do estereotipado "pagodão" de nomes como É O Tchan, Harmonia do Samba, Gang do Samba, Psirico, Parangolé e centenas de outros, que não entendem bulhufas de sambas de roda. E ainda têm a coragem de se apropriarem do carisma de Riachão e Jackson do Pandeiro!...

É uma coisa insólita, jogar o samba dos morros para o gosto musical privativo das elites, na ironia de que há 50 anos o samba do morro parecia ameaçado pelo elitismo atribuído à Bossa Nova. Equívocos de interpretação à parte, a Bossa Nova era vista comumente como "samba de elite" enquanto o samba dos morros pertencia aos morros.

Mas hoje, infelizmente, o próprio samba dos morros, tal como se fazia através de Zé Kéti, Cartola, Nelson Cavaquinho, a hoje ainda viva Dona Ivone Lara, além de modernizadores como Jorge Veiga, Noite Ilustrada, Luiz Reis e a ainda viva Elza Soares, e a geração pós-1965 de Paulinho da Viola, Martinho da Vila e Beth Carvalho, agora é a "nova Bossa Nova" no que se refere ao seu "destino elitista".

Ninguém irá afirmar esse processo cruel, é verdade, mas a grande mídia e a intelectualidade associada trabalham para que o samba se afaste dos morros, dos herdeiros de seus criadores e apreciadores, completando o trabalho dos barões da mídia de fazer com que a cultura de qualidade se distancie das classes populares, sem escrúpulos de privá-las de seu próprio legado cultural.

Esse elitismo preocupa, porque os mestres da verdadeira música popular - aquela que vale pela sua música e não pela lotação fácil de plateias - passam a ser vistos pela mídia como "coisa do passado", como "preciosidades de museu", evitando a apreciação deles pelo grande público que seja suficiente para inspirar novas gerações.

Descontam-se os covers oportunistas ou o mimetismo musical que faz os sambregas investirem numa pseudo-MPB à custa de outros arranjadores. Porque isso nem de longe é homenagear o legado dos grandes mestres. Gravar um Paulinho da Viola ou Martinho da Vila, para um sambrega, é muito, muito fácil. Difícil é ele se equiparar, na produção autoral, a esses grandes mestres do samba.

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