sábado, 22 de dezembro de 2012

89 FM E FOLHA DE SÃO PAULO QUEREM DOMESTICAR JUVENTUDE BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

O retorno da programação "roqueira" da 89 FM mostrou a que veio. E não é coisa muito boa. De mãos dadas com a Folha de São Paulo, dona do portal Universo On Line (UOL), a dita "rádio rock" nem de longe voltou atualizada com as novas demandas da cultura rock do mundo inteiro.

O que se ouviu, no primeiro dia da "nova" programação é aquela mesma baboseira que rolava nos anos 90 e 2000, e que foi motivo de críticas severas de muitos especialistas da cultura rock no Brasil. Dentro daquela linha "em terra de cego...", a 89 FM apenas tocou o "mais do mesmo" que só é "genial" para quem se acostumou com o pior.

Por sinal, a 89 FM mostra o caráter bitolado de seus adeptos mais ferrenhos. Gente que toma como parâmetro o que ocorre de ruim no rádio e na TV aberta e que acha que a 89 FM é "genial" só por tocar um repertório ralo de uns grandes sucessos do rock e coisas mais comerciais e muitas vezes de valor bastante duvidoso.

Claro, é um "Brasil" onde "grandes artistas" é Thiaguinho e Michel Teló, o "feminismo" se alimenta com "mulheres-frutas", ex-BBBs e paniquetes e Luciano Huck é considerado a "pessoa mais evoluída do planeta". No lodo da mediocridade cultural, a 89 FM se enquadra no meio, e, como tanta mediocridade, é vista como "grande coisa", até seus piores erros são considerados "acertos".

Mas que ninguém se iluda. A 89 FM, pela clara parceria com a Folha de São Paulo, se enquadra na mesmice do retrocesso midiático, e não será a rádio que vai romper com a realidade decadente vivida pela velha grande mídia.

JÁ VIMOS ESSE FILME

A 89 FM vende uma imagem de "moderna', quando sabemos que ela anda extremamente defasada diante de muita rádio de rock que existe no mundo inteiro. A própria rádio havia esnobado as pressões da Internet, com direito à solidariedade de seus adeptos temperamentais, que afirmavam que a emissora não tinha as mesmas responsabilidades das rádios roqueiras da Austrália, EUA e Reino Unido.

Isso significa o veto a bandas alternativas, a raridades musicais, a preciosidades artísticas do rock que estão fora dos padrões do hit-parade radiofônico. Sem falar da ideologia conservadora da rádio. Existe até mesmo o risco da 89 FM vetar, com o tempo, a banda Rage Against The Machine, pondo no lugar "genéricos" brasileiros ideologicamente vagos, como Charlie Brown Jr..

O conservadorismo ideológico da 89 FM, que no plano musical está atrelado a um rigor estético entre o grunge e o poser, entre o emo e os clichês do punk skatista, se mostrará evidente com o tempo, mostrando que a emissora adotará posições claramente reacionárias, que fizeram com que muitas pessoas físicas e jurídicas antes ligadas à modernidade se mostrassem claramente conservadoras.

SE A "MODERNA" FOLHA DE SÃO PAULO FICOU REAÇA...

Isso se tornou fato, a julgar pelo elenco de humoristas, jornalistas e até mesmo veículos midiáticos que antes eram associados à modernidade mais atraente, virando paradigmas do "novo" em vários sentidos, mas que depois deixaram a máscara cair com o reacionarismo de última hora.

A própria Folha de São Paulo vendia a imagem de "paradigma" de "novo jornalismo" no Brasil. Nos anos 90, a Folha tentava ser o símbolo da sociedade moderna, o que aumentou a projeção do periódico da famiglia Frias em todo o país. Mas que depois a máscara caiu e o periódico, de tão reacionário, ganhou até o apelido jocoso de "Falha de São Paulo".

Nos anos 90, Arnaldo Jabor brilhava como jornalista, até com ideias interessantes sobre cultura e cinema. No entanto, ele acabou virando reacionário, até um tanto rabugento, embora sem o radicalismo febril de um Reinaldo Azevedo, mas chegando perto disso.

Danuza Leão, ex-mulher de um jornalista progressista, ex-ícone da modernidade chique dos anos 60, também se mostrou boa escritora na relembrança de suas experiências de vida, mas mostrou-se depois porta-voz de um pensamento conservador da alta sociedade.

Marcelo Madureira era um universitário comunista que, com seu grupo Casseta Popular, lançou com seus amigos (inclusive o falecido Bussunda) um tipo de humor hilário que fazia as pessoas descontrolarem seu riso, ao lado dos humoristas do Planeta Diário, que se fundiram e viraram o Casseta & Planeta bastante renovador nos seus primeiros anos.

No entanto, Marcelo Madureira virou um reacionário febril, a ponto de ficar mal humorado num "festejado" evento do Instituto Millenium, esquecendo-se até de que é humorista, sem dizer uma piada, apenas fazendo comentários mórbidos sobre o cenário sócio-político atual, confundindo crítica com calúnia, chamando Lula de "vagabundo".

Seu xará, Marcelo Tas, era um notável humorista e produtor de programas educativos. Seu personagem Ernesto Varela fez história. Também deu contribuições valiosas para a série Telecurso e, como ator, para o programa Rá-Tim-Bum, alternativa educativa para a mesmice erótico-consumista dos programas infantis da TV aberta comercial.

Mas, ultimamente, Tas tornou-se também um comentarista reacionário da mesma linha do ex-casseta, mostrando seu conservadorismo ideológico e abrindo espaço, no programa CQC da Bandeirantes, para gente humoristicamente duvidosa como Danilo Gentili e Rafinha Bastos.

Sônia Francine, por sua vez, era uma admirável e bem informada VJ da MTV, simpática e atraente em sua beleza doce e seu visual de "Dora, a Aventureira". A princípio, parecia bastante arrojada nas suas ideias sobre política e cidadania, até depois se tornar uma "tucana" histérica e ideologicamente confusa, mas identificada ao pensamento conservador do trio PSDB-DEM-PPS.

Já dá para perceber o que será a "moderna e adorável rádio rock hoje e sempre" daqui a algum tempo. A julgar pelo reacionarismo de seus adeptos e profissionais no passado recente - incluindo a fúria reinaldoazevediana dos seus similares da carioca Rádio Cidade - , a 89 FM nem está aí pela rebeldia de conteúdo, que não precisa necessariamente de pavio curto.

A 89 FM é uma forma da velha grande mídia domesticar a juventude brasileira, criando um modelo de "rebeldia" que ideologicamente esconde um fundo conservador. O "entusiasmo" de seus ouvintes pela volta da tal "rádio rock" nem de longe soa revolucionária, e a histeria não difere muito daquela feita pelos fanáticos do "sertanejo universitário" ou dos pretensos ativistas do "funk carioca", por exemplo.

A "rebeldia" da 89 FM é formal, que no conteúdo é bastante reacionária, mas serão sempre reacionários confundindo rebeldia com irritabilidade, achando que serão "modernos" falando palavrão e fazendo xingações irônicas. Se eles soubessem que, nos bastidores das grandes corporações, há muita gente assim...

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