quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

89 FM ABRE NOVO CAPÍTULO DA DITADURA MIDIÁTICA


Por Alexandre Figueiredo

Parece um transe coletivo. Muitos deslumbramentos de internautas. Famosos também saúdam seu retorno, deslumbrados. Muita histeria, muitos elogios exagerados, irreais, surreais. Muito oba-oba, muita euforia, uma animação maior do que a festa em si.

Isso poderia se referir muito bem a uma seita religiosa surgida há algum tempo, e que juntou uma legião de fiéis fanáticos e um tanto ingênuos e desinformados. Mas se trata do retorno da dita "rádio rock", a 89 FM, uma rádio que nunca foi além do hit-parade do gênero.

Sabemos que, perto do que foi uma Fluminense FM nos anos 80, a 89 FM sempre foi medíocre. No fundo, foi uma rádio "mais ou menos" até o final dos anos 80, para depois mergulhar numa mediocridade respaldada por um logotipo hipnótico que dizia, em fontes fortes, que a 89 era "A Rádio Rock".

Mas além da rádio, à maneira da ex-BBB Mayra Cardi, não ter se arrependido dos erros que fez, que foi reduzir seu perfil a uma "Jovem Pan 2 com guitarras", restrita ao mero hit-parade "roqueiro" com ênfase nos anos 90 e 2000, ela representa algo muito pior do que o otimismo kafkiano de seus deslumbrados adeptos.

A rádio, pela participação acionária do Universo On Line, de propriedade de Otávio Frias Filho, representa mais um capítulo da ditadura midiática que pode afetar seriamente, no futuro, a juventude brasileira, na medida em que desestimulará o espírito de mobilização social que move a juventude do restante do mundo, do Oriente Médio, EUA, Europa e até mesmo Argentina e Chile.

SIMULACRO DE REBELDIA

O deslumbramento fanático e um tanto ingênuo, que faz vista grossa aos graves erros cometidos pela 89 FM e que fizeram derrubar a rádio em 2006 - ocupada por uma programação assumidamente pop - , como um estilo de locução justamente inspirado nas rádios do pop dançante mais rasteiro, mostra o perigo que se encontra sob as sombras dessa "excelente notícia".

Pois a "novidade" esconde todo um processo de controle midiático da juventude, desde que o apresentador Luciano Huck, astro da Rede Globo e poderoso empresário de vários negócios, popularizou a gíria "balada" antes restrita a círculos fechados das boates de dance music das áreas mais ricas de São Paulo.

Pois a juventude, infelizmente, acaba respondendo positivamente a essa manobra midiática, como se ainda estivesse brincando de "Meu Mestre Mandou". E agora a 89 FM, com seu simulacro de rebeldia, usa o rock para promover a catarse coletiva, enquanto os verdadeiros interesses por trás provam não ser culturais, mas estritamente mercadológicos.

Os donos da 89 FM possuem boas relações com as multinacionais e com empresários de entretenimento da envergadura de Roberto Medina. Dono da marca Rock In Rio, o empresário é filho do dono da antiga rede de lojas O Rei da Voz, Abraão Medina, que havia apadrinhado o primeiro "coitadinho" da música cafona brasileira, José Adauto Michiles, que usou o pseudônimo Orlando Dias e gravou músicas como "Tenho Ciúme de Tudo" e "Perdoa-me Pelo Bem Que Te Quero".

ROCK IN RIO, COPA E OLIMPÍADAS

O Rock In Rio havia sido a motivação para que a antiga Pool FM, uma despretensiosa rádio de pop eclético, virasse a tal 89 FM "A Rádio Rock", buscando capitalizar no rock mainstream e alimentar o mercado de eventos internacionais realizados no Brasil. E é esse o motivo da volta da 89, visando o Rock In Rio 2013 e o turismo dos eventos esportivos, como a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016.

O deslumbramento, portanto, cria um "rebanho" forte que irá gastar ingressos caríssimos, alimentando as grandes corporações às custas de uma rebeldia de fachada e de toda uma cega adoração à 89 FM, adoração essa que elogia até mesmo os piores erros cometidos pela emissora.

É um fanatismo que nenhuma seita pentecostal consegue obter com tanta rapidez. E faz com que a Folha de São Paulo mantenha sua manobra de controle não só intata, mas também renovada. Afinal, de que adiantam as críticas contra Eliane Cantanhede, Otávio Frias Filho, Josias de Souza e outros reaças da FSP se ela, através da parceria acionária com a famiglia Camargo, tem os jovens ajoelhados a seus pés.

SE A 89 FM É "A RÁDIO ROCK", A NATIVA FM É O QUÊ? "A RÁDIO MPB"?

A grande preocupação está na desinformação e na falta de referenciais que os jovens brasileiros em sua maioria possuem, que glamouriza qualquer mediocridade vinda da década de 1990, sobretudo agora, quando o distanciamento temporal é desculpa para qualquer saudosismo delirante.

De repente, aquele formado diluído, deturpado e caricato lançado pela 89 FM nos anos 90 é "rádio rock de verdade". Bobagens do tipo "rádio rock de verdade" e "a melhor rádio do mundo" são escritas nas redes sociais, por internautas que parecem ter saído de algum transe hipnótico.

A desinformação é tal que, daqui a pouco, vão dizer que a Nativa FM, emissora popularesca dos mesmos donos (os Camargo) da 89 FM, vai ser conhecida como "rádio MPB", assim que houver alguma chance de "reabilitação" midiática dos neo-bregas que marcaram a década de 90, como Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, Leonardo, Daniel, Belo e Zezé di Camargo & Luciano.

Enquanto isso não ocorre, já vemos locutores de estilo e formação mais pop da 89 como Zé Luís e Roberto Hais serem vistos como "roqueiros fundamentais". De repente, até mesmo as piores bandas que rolaram na 89 FM nos anos 90 e 2000 são também "geniais". Se na terra de cego que é o Brasil, quem tem um olho é rei, seus súditos acabam adquirindo uma cegueira maior ainda.

E isso é perfeito para os barões da mídia manipularem a juventude com mais facilidade. O deslumbramento da tal "nação roqueira" pela 89 FM é algo perigoso, até porque eles já reivindicam a volta, no Rio de Janeiro, da Rádio Cidade, que entre 1995 e 2006 virou um reduto da juventude de extrema-direita no Grande Rio.

É o mesmo deslumbramento que oficiais e pracinhas tiveram quando, em 1945, foram convidados para conhecer a National War College, em Washington, EUA, premiados por terem ajudado a nação estadunidense a ganhar a Segunda Guerra Mundial.

E deu no que deu: os militares passaram a ter uma prepotência e uma arrogância que criou grandes barreiras sociais. Coronéis assinaram um manifesto, em 1954, protestando contra o aumento salarial do então ministro do Trabalho João Goulart, e pressionaram para sua demissão no cargo.

Mas dez anos depois, já sob o status de generais, esses mesmos coronéis acabaram fazendo pior, derrubando o mesmo João Goulart desta vez na condição deste de presidente da República, e iniciaram em 1964 uma ditadura que causou efeitos devastadores e até hoje não superados no Brasil.

NINHO DE NEOCONS

E quem imagina que ditadura militar e 89 FM não tem a ver está enganado, até pelo reacionarismo que seus defensores (e, de forma ainda pior, os da carioca Rádio Cidade) fizeram há dez anos atrás. Mas o mais grave é que esse reacionarismo se apoiará numa fachada de "rebeldia" e num discurso que, mesmo exibindo um reacionarismo furioso, tentará desmentir esse mesmo reacionarismo.

Mas, no futuro, virão multidões de adultos com perfil parecido com o de Reinaldo Azevedo e Eliane Cantanhede. Se eles acham que a 89 FM é "a verdadeira rádio rock", vão achar que o neoliberalismo é "a verdadeira democracia", com todas as alegações conservadoras que eles se acharão no direito de defender.

A 89 FM é um ninho de neocons (neo-conservadores) que no futuro concretizará os versos ditos por Renato Russo, roqueiro bajulado pela 89 FM mas menosprezado por ela na ocasião de sua morte, em 1996 (a rádio se limitou a "chorar" lágrimas de crocodilo, com menos comoção do que na morte dos Mamonas Assassinas).

Pois na música "A Dança", da banda de Renato, Legião Urbana, os versos contundentes de seu refrão são proféticos: "Você é tão moderno / Se acha tão moderno / Mas é igual a seus pais / É só questão de idade / Passando dessa fase / Tanto fez e tanto faz. / (...) Você é tão esperto / Você está tão certo / Que você nunca vai errar / Mas a vida deixa marcas / Tenha cuidado / Se um dia você dançar".

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