quarta-feira, 28 de novembro de 2012

VIOLÊNCIA EM SÃO PAULO E FIM DE UM CICLO POLÍTICO


Por Alexandre Figueiredo

A preocupante onda de violência na Região Metropolitana de São Paulo, com suas centenas de mortos, mostra a questão que um dos mais ricos Estados do Brasil e considerado centro financeiro do país sofre com a questão da insegurança.

A cada dia são dezenas de mortos que são registrados pelos boletins policiais, fora outros que nem chegam a ser denunciados. Muitos inocentes encontram-se nas estatísticas, mas os próprios bandidos - ou também os "policiais bandidos", como apontam denúncias de autoridades policiais - também preenchem os obituários sobretudo quando reagem ao mandado de prisão.

O Estado que era um paradigma de modernidade e progresso, tanto que até mesmo as ideias e fórmulas mais retrógradas eram requentadas em São Paulo para serem lançadas no resto do país como "coisa moderna", vive uma crise social sem precedentes, embora surtos de violência não sejam novidade nos subúrbios da Grande São Paulo.

O grande problema é que hoje essa carnificina ocorre de forma organizada, sob o provável mando de uma das maiores organizações criminosas do Estado, o Primeiro Comando da Capital (PCC), sob a provável influência da corrupção policial, mas, acima de tudo, pela falta de políticas sociais para as classes populares.

Junte-se, a esse quadro de homicídios diversos, os estranhos incêndios que "devoram" favelas inteiras, ou pelo menos boa parte delas, deixando desabrigados e desamparados milhares de pessoas humildes, já prejudicadas pela natural exclusão imobiliária. É uma outra tragédia, que, dizem rumores, tem a especulação imobiliária por trás de tais ocorrências.

Mas mesmo que esses incêndios ocorram porque algum morador dormiu com o cigarro aceso, vizinho a uma casa que possui um depósito de gás irregular, eles ocorrem, de qualquer maneira, por conta da omissão do poder público, que poderia orientar as populações faveladas a se prevenirem contra incêndios.

Essa desordem social - temperada pela violenta expulsão dos moradores do bairro Pinheirinho de São José dos Campos, destruído para favorecer o dono do terreno que antes pertencia a uma fábrica de sucos - mostra o quanto a política do PSDB, partido que está no poder estadual e da capital paulista desde o final dos anos 90, se encontra antiquada e impotente para lidar com as questões populares.

O PSDB, partido da moderna tecnocracia brasileira, que se ascendeu nas cátedras da USP e nos gabinetes do MDB (o partido "moderado" da ditadura), parecia estar pronto para enfrentar os grandes desafios da sociedade brasileira. Seu maior astro, Fernando Henrique Cardoso, ligado tanto à USP quanto ao MDB, foi até presidente da República por dois mandatos, depois de ter implantado a moeda Real.

O sucesso econômico da unidade monetária não representou o êxito definitivo de todo um projeto político, econômico e social dos governos tucanos, nas três esferas federal, estadual e municipal. Pelo contrário, o projeto político demonstrou-se caduco, o projeto econômico, a julgar pela corrupção feita pela "onda de privatizações" - depois conhecida como "privataria tucana" - , excludente e desonesto, e o projeto social, ineficiente.

Aliás, não só o projeto social tornou-se ineficiente, como também se tornou de certa forma irracional e equivocado. Afinal, no caso dos moradores de Pinheirinho, o governador Geraldo Alckmin deixou o povo à própria sorte, preferindo socorrer um especulador financeiro, Naji Nahas, que era o dono do terreno, há muito tempo inutilizado depois da falência da empresa Selecta.

Não bastasse isso, a arrogância e grosseria dos principais governantes de São Paulo, o próprio Alckmin e José Serra, e sua própria indiferença com o verdadeiro interesse público - que fazia com que Serra, em suas diversas campanhas para cargos políticos, apresentasse propostas inconsistentes e frouxas - , agrava o desgaste do partido que permitiu a vitória eleitoral de Fernando Haddad para a prefeitura da capital paulista.

A impotência com que a orientação neoliberal do PSDB lidou com as classes populares faz com que a criminalidade cresça e os problemas sociais se agravem. E ainda há a questão da cracolândia na capital paulista, que os governantes demotucanos - mesmo um dissidente como o hoje pessedista Gilberto Kassab, ex-DEM (partido-irmão do PSDB) - não conseguiram resolver, senão através da violência policial.

Só episódios assim mostram o quanto o ciclo político do PSDB está se encerrando. O fim só não está completo porque ainda não estamos em 2014, quando haverá eleições para governos estaduais e para a presidência da República. E, a julgar pela arrogância e pelo autismo político, o PSDB tem poucas chances de dar qualquer volta por cima.

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