segunda-feira, 19 de novembro de 2012

SEM RENOVAÇÃO À ALTURA, MPB MAIS ANTIGA SEGUE EM FRENTE


Por Alexandre Figueiredo

No último fim de semana, o sambista Paulinho da Viola se apresentou junto com a Velha Guarda da Portela, no bairro suburbano de Madureira, no Rio de Janeiro. O carisma e a credibilidade desse músico ímpar, que está com 70 anos de idade, comprova a boa reputação que a música brasileira autêntica possui, apesar do boicote dado pela grande mídia.

A grande mídia, mesmo a imprensa "popular" - tipo os jornais cariocas Extra e O Dia, e o paulista São Paulo Agora - , trata a MPB autêntica como se fosse uma música quase estrangeira, elitista e antiga. E, o que é pior, são os sambas e baiões autênticos, por exemplo, que já não fazem parte do cotidiano do grande público das classes populares, por culpa da pressão da grande mídia.

A grande mídia pressiona para que o chamado "povão" se divorcie das suas próprias raízes culturais. O que o povo consome como "cultura das periferias" - um engodo que inclui até mesmo o brega arrumadinho, do qual o cantor Thiaguinho e a dupla Jorge & Mateus são alguns nomes mais recentes - é na verdade o "popular" midiático, postiço, frouxo, meramente comercial e sem valor artístico-cultural.

Foram cortados os laços comunitários da transmissão de valores culturais. Agora as comunidades estão "interconectadas" por uma mídia controlada por grupos oligárquicos regionais que, como não possuem grandes escritórios na Avenida Paulista (o centro financeiro de São Paulo), são classificados, erroneamente, pela intelectualidade como sendo "pequenas (?!) mídias das periferias".

É essa "pequena mídia", que poucos admitem ser ligada ao latifúndio ou com os donos do poder político regional, que agora dita as regras, os valores e os totens a serem adorados e cultuados pelo grande público, seja em âmbito regional ou em âmbito nacional, neste caso sob o apoio mais explícito dos barões da grande mídia.

POR QUE A MPB AUTÊNTICA NÃO TEVE UMA REAL RENOVAÇÃO?

A MPB autêntica se congelou no tempo não pela falta de capacidade de renovação, mas pelo fato de que sua cultura autêntica foi expropriada das classes populares. O povo pobre não tem mais os baiões, os sambas de seus antepassados, nem as modinhas nem outros ritmos autênticos, genuínos, de reconhecida força expressiva e verdadeiro valor artístico e cultural.

Para piorar, a intelectualidade acha ótima essa expropriação. De forma bastante etnocêntrica, a professora da Universidade Federal da Bahia, Malu Fontes, ou o conhecido cientista político Leonardo Sakamoto, reprovam a tese de que o povo pobre não pode mais assumir a herança musical de seus antepassados, "seu folclore" agora é o que rola no rádio e na televisão e domina o mercado dito "popular".

Ou seja, não são mais avós, pais, professores que transmitem os valores culturais para os jovens pobres. São agora os programadores de rádio, produtores de televisão e editores de jornais, revistas e sítios digitais a serviço do poder dominante regional ou nacional.

Isso influi na falta de renovação na música brasileira. Mesmo a MPB autêntica se resume, na maioria dos casos, ao "feijão com arroz" de elementos da MPB dos anos 70 que viraram fórmulas, e que tem na cantora Ana Carolina seu ícone mais típico.

Ou então há os chamados "performáticos", com sua gororoba confusa de informações, pretensamente "pós-moderna", prometendo uma MPB "mais arrojada" mas cumprindo muito menos o que prometem, se limitando a ser meros fantoches de um ecletismo pop mal digerido.

Fora eles, até existem grandes artistas. Mas eles não têm grande espaço na mídia. E os que se destacam, como a cantora Roberta Sá e o instrumentista Yamandu Costa, já são veteranos e, infelizmente, são subestimados como referência de música brasileira para o grande público.

A MPB antiga segue em frente, mas seus intérpretes são quase todos idosos. Eles têm uma força artística que quase não se vê nos mais novos. E a MPB autêntica foi rebaixada a um gosto musical secundário do grande público, quase como um sub-erudito, de apreciação a cada vez mais restrita às elites.

A música brasileira, como a cultura brasileira em geral, está se tornando acéfala, com o avanço da mediocrização cultural na pirâmide do mercado. Dominando totalmente a parte baixa da pirâmide sócio-econômica, a mediocrização do brega-popularesco sobe seus degraus num processo de se tornar totalitário, criando um beco sem saída da "cultura de massa".

A grande preocupação, no futuro, é que a cultura brasileira seja completamente dominada pelo mercado, pelo consumismo, anulando totalmente a sua importância social e a sua função de garantir o progresso do povo brasileiro. É preciso nos mexermos, em vez de aceitar isso através da relativização que mata sem doer.

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