sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O "REVIGORAMENTO" DE JOSÉ SERRA NA AGONIA DO PSDB


Por Alexandre Figueiredo

Quando surgiu, em 25 de junho de 1988, o Partido da Social Democracia Brasileira tinha como figuras de destaque nomes moderados como André Franco Montoro - que, antes de 1964, era um político do PDC, Partido Democrático Cristão - e Mário Covas, líder da oposição à ditadura militar na Câmara dos Deputados e um dos que votaram contra a cassação do deputado Márcio Moreira Alves.

Seu programa era uma espécie de modernização do liberalismo clássico, com alguma influência iluminista, prometendo um capitalismo mais humano, ainda que não desejasse rupturas com estruturas dominantes nem realizar projetos políticos audaciosos.

O PSDB, desde o começo, já tinha nomes como José Serra e Fernando Henrique Cardoso nos seus quadros. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, se ascendeu politicamente quando, vice do então governador paulista Mário Covas, assumiu o governo quando este, doente do câncer, se retirou para tratamento, não conseguindo vencer a doença e morrendo pouco depois.

Franco Montoro, que também foi governador de São Paulo, então pelo PMDB, havia falecido dois anos antes de Covas. Sem essas duas figuras que haviam atuado nas campanhas pela redemocratização do país, entre 1983 e 1984, o PSDB tornou-se "acéfalo", não bastassem os erros cometidos por Fernando Henrique Cardoso a partir de 1998, já no final de seu primeiro mandato.

Afinal, são erros sérios que acabaram "batizando" o desgaste do PSDB. A tragédia da Plataforma P-36 da Petrobrás, resultante de uma sobrecarga de trabalho imposta pelo Governo Federal, a ameaça da Petrobrás mudar seu nome, sob administração de um francês naturalizado, o racionamento de energia e mesmo comentários infelizes de Fernando Henrique, como aquele em que chamou os aposentados de "vagabundos", são alguns desses erros, vivos na memória de muita gente.

Até a intelectualidade que se formou e se "amamentou" nas ideias de Fernando Henrique Cardoso, e que estabeleceu um "modelo" de defesa da cultura popular mais voltado ao mercado e à supremacia midiática, seria a "intelectualidade cultural do PSDB" não fosse esse desgaste.

Essa geração de intelectuais - que trabalhariam a tese de que o sucesso comercial do brega-popularesco na grande mídia era "natural" e que qualquer reprovação a ele era vista como "preconceito contra a vontade das periferias" - formaria, ao lado de José Serra, um grupo cujo poder e visibilidade seria formalmente comparável ao ISEB (o instituto que respaldou o projeto nacional da Era JK), mas ideologicamente comparável ao IPES (fachada de instituto para uma organização igual ao atual Instituto Millenium).

Figuras como Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Paulo César Araújo, Bia Abramo, Mônica Neves Leme, Eugênio Arantes Raggi e os baianos Milton Moura e Roberto Albergaria tiveram que largar o barco tucano assim que José Serra enfrentou sua primeira derrota como presidenciável, em 2002.

A turma então se dividiu naqueles que, ideologicamente "independentes", foram se associar à grande mídia - como Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Milton Moura e Roberto Albergaria e, mais tarde, Ronaldo Lemos - e outros que tentam fazer proselitismo às esquerdas, como Eugênio Arantes Raggi (de uma forma mais grosseira) e Pedro Alexandre Sanches.

Eles mudaram até o discurso, embora a Teoria da Dependência, na concepção feita por Fernando Henrique, seja sua influência forte até hoje. Mas os próprios intelectuais seguiram a orientação de tecnocratas oriundos do grupo pré-tucano da USP, como Francisco Weffort e Guido Mantega, que haviam migrado para a ala neoliberal do Partido dos Trabalhadores.

Talvez os erros de Fernando Henrique Cardoso e José Serra tenham feito uma repercussão negativa muito forte para tais intelectuais assumirem seu apoio. Como discípulos envergonhados, como Sanches e Raggi, ou silenciosos, como Vianna (que havia sido orientado, na pós-graduação, pelo antropólogo Gilberto Velho, ligado ao grupo de FHC), precisam mudar a estratégia, escondendo suas convicções ideológicas.

O "NAUFRÁGIO" DO TUCANIC

Isso se deve sobretudo aos efeitos negativos causados pela imprensa associada e pelo que há de mais explícito no conservadorismo ideológico no Brasil. Assim como na política, Fernando Henrique Cardoso e José Serra cometeram gafes prejudiciais, na imprensa figuras como Diogo Mainardi, Merval Pereira e Eliane Cantanhede apresentaram um reacionarismo explícito que os fez tornarem-se antipáticos para parte da opinião pública.

Com isso, intelectuais cujas ideias claramente se identificam com o PSDB tiveram que adotar uma aparente (e falsa) postura esquerdista, usando um discurso "mais positivo" e defendendo uma concepção mercadológica e estereotipada de "cultura popular" com retóricas falsamente progressistas. Chegam até a dizer que a mídia e o mercado "estão morrendo", como forma de seduzir a opinião pública.

Eles viram que o "Tucanic" intelectual que se formou desde os salões, escritórios e auditórios da USP estava afundando e tiveram que tirar os diamantes para salvar seus dedos. Deixaram de dar, pelo menos oficialmente, o respaldo a seus próprios mestres do PSDB, além de embarcarem no tendencioso respaldo petista, por pressões corporativistas ou para usurpar a máquina estatal.

AS DERROTAS DE SERRA

José Serra é a expressão máxima desse desgaste do PSDB que afugenta seus próprios aliados e discípulos, uns pegando carona no proselitisimo de esquerda, outros se mudando para partidos como o PMDB e o "ressuscitado" PSD, que também abocanhou quadros do partido-irmão do PSDB, o DEM, já a partir de Gilberto Kassab, então "unha-e-carne" com José Serra.

O PSDB, que era o paradigma de uma política capitalista mais "moderna", não correspondeu mais às transformações da sociedade brasileira. E seus "caciques" também não conseguiram expor simpatia e propostas pelo menos verossímeis, adotando até mesmo medidas anti-populares, relacionadas à repressão de moradores de rua e o famoso episódio de Pinheirinho, em São José dos Campos.

José Serra, em suas campanhas para a Presidência da República mais recentes, assim como na última campanha para a Prefeitura de São Paulo, mostrou-se antipático, arrogante e com promessas sem graça que não empolgavam o eleitorado. Pelo menos o rival Fernando Haddad, apesar de arranhado pelo apoio de Paulo Maluf, se sobressaiu com propostas mais convincentes e uma base de apoio de sindicatos e movimentos sociais que fizeram a diferença.

O PSDB envelheceu. José Serra disse se sentir "revigorado" pela derrota eleitoral. No entanto, é uma forma de tentar desmentir sua humilhação em derrotas seguidas. Ou então seria uma forma arrogante de não admitir derrotas. De qualquer forma, o partido se desgasta na medida em que se tornou reacionário, anti-popular e politicamente ineficaz. Essa é a realidade que o tucanato não quer admitir. O PSDB agoniza.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...