terça-feira, 20 de novembro de 2012

MÍDIA "POPULAR", INTELECTUALIDADE E NEGRITUDE


Por Alexandre Figueiredo

O Brasil precisa reavaliar sua realidade cultural. Isso não é tarefa fácil. Muita gente estava acostumada com a maresia dos anos 90, quando a grande mídia exercia supremacia absoluta na cultura brasileira, promovendo todo o tipo de degradação que muitos pensavam ser a chave da felicidade popular.

Essa época também era a época da supremacia dos tecnocratas na decisão sobre os rumos e as medidas de ordem política, tecnológica e econômica adotadas, além da já reconhecida supremacia dos jornalistas políticos na formação de opinião de seus leitores e espectadores.

Hoje começa a surgir uma ruptura com tudo isso, e não é fácil. No meio do caminho, surgem troleiros partindo para o ataque, uns criando blogues ofensivos, outros xingando em mensagens em fóruns na Internet. Os intelectuais associados se assustam com as novas abordagens acerca de nossa crise cultural e chamam seus analistas de "elitistas" e "preconceituosos".

Muita gente se irritou quando a maresia dos anos 90 e o festival de paliativos adotados no Brasil de então como se fossem a "salvação da lavoura" começou a ser contestada em larga escala. Antes, você escrevia uma carta para um jornal e se o editor da seção de cartas não gostar dela, ele a jogava no lixo. Hoje essa "carta" é publicada em rede, neutralizando a influência ideológica da grande mídia antes soberana.

Na cultura brasileira, vemos que até a negritude está dentro desse contexto. Sobretudo na música, onde a questão do racismo sutil que existe no país enfrenta situações até agora mal compreendidas, como a exploração do negro sobretudo no chamado "pagodão" baiano.

O "pagodão" baiano é aquela diluição do samba lançada a partir do fenômeno É O Tchan e puxado por outros nomes como Companhia do Pagode, Patrulha do Samba, Gang do Samba, Terrasamba e Harmonia do Samba. No âmbito local, o ritmo gerou nomes como Psirico, Saiddy Bamba, Pagodart, Parangolé, Guig Guetto, Nossa Juventude e outros.

Os equívocos já surgem quando esse "pagodão" se autoafirma seguidor do samba-de-roda. Essa vertente do samba, uma das mais antigas do país, nem de longe é objeto da diluição sonora do "pagodão", porque ele prefere diluir o samba de gafieira, como se vê claramente no exemplo do É O Tchan.

Mas a própria alusão à gafieira vaza quando o ritmo também é conhecido como "suingueira", já que suingue é uma forma aportuguesada de swing, uma variação dançante do jazz, assimilada pela influência jazzística adotada pelo samba de gafieira original.

O racismo sutil, embora aparentemente evoque a "valorização positiva" do povo negro, na prática investe no contrário. O "pagodão" baiano explora uma imagem muito caricata do homem negro, visto como um misto de tarado e bobo alegre. Isso é fato, pois os intérpretes do "pagodão" exageravam no sorriso e nas gracinhas, e, em certos casos, também no rebolado.

Essa exploração também contagiou grupos de "pagodão" com brancos, e, independente de quem integrasse esses grupos, a distorção ideológica acabava surtindo efeito. A tal ponto que muitos grupos passaram a carregar também no machismo - com títulos como "Tapa na Cara", "Só na Pancadinha", "É na Madeirada", "Me Dá a Patinha" - que impulsionou um grupo de brancos, New Hit, a estuprar duas fãs no interior baiano.

O sambrega é menos pornográfico, porém mais risonho. O dito "pagode romântico" também é considerado "pagode mauricinho", em virtude da imagem do "mauricinho" como um rapaz arrumadinho demais. O ritmo se ascendeu nos anos 90 e, por seu contexto de sucesso e status, está para o samba assim como o poser metal está para o rock.

Do Raça Negra - com claro parentesco musical com Odair José, o nosso Pat Boone, este por sua vez um dos "patronos" do "rock arrumadinho" dos EUA -  a Thiaguinho, o sambrega trabalha a imagem do negro meio como um bobo alegre, meio como um pretenso coitadinho que dá uma falsa reputação cult ao próprio Raça Negra, que havia ganho um tributo "alternativo" para gravação na Internet.

No "funk carioca", em que pese um ufanismo quase fascista de seus intérpretes, a exploração da imagem do negro é bem menos risonha que a do "pagodão", mas altamente machista, para não dizer outros valores retrógrados e anti-sociais que o ritmo defende sob o pretexto de "novos valores para as periferias".

E o "funk" acaba fazendo da população pobre refém de sua ideologia, que impõe o ritmo como medida de todas as coisas, impedindo o progresso cultural das classes populares. Pior: mesmo outros contextos, como o samba, o ativismo social e outros, só é reconhecido pelos ideólogos do "funk", como MC Leonardo, como medidas subsidiárias do absolutismo funqueiro.

Mesmo a questão das favelas o "funk" parece mais aprisionar as populações pobres do que libertá-las. A intelectualidade dominante dá uma ajuda, promovendo as favelas como "arquitetura pós-moderna" e integrante da chamada "paisagem de consumo" tão cortejada pelas autoridades e tecnocratas urbanísticos, mas que sociologicamente vai contra a própria realidade dessas habitações.

Afinal, as favelas são construções improvisadas e malfeitas - por diversos motivos de ordem econômica, social e educacional - , consequentes da exclusão imobiliária às populações de baixa renda. Quem as construiu sabe muito bem disso, não teve qualquer orientação para construir casas melhores em lugares melhores, e antigamente elas eram até piores, limitadas a um amontoado de tábuas, quando tijolo era praticamente um artigo de luxo.

Mas, com a ideologia funqueira, as favelas passaram a ser os picadeiros do circo do deslumbramento intelectual mais paternalista. Não se trata mais da busca de qualidade de vida, a não ser em aspectos genéricos e aceitos pelo status quo, mas de uma verdadeira domesticação das periferias e da glamourização da pobreza trabalhada explicitamente pela grande mídia e pela intelectualidade associada.

Daí a grande estranheza pelo fato de que, com o tema "favela" virando moda, desde as problemáticas trazidas por Dráuzio Varella no livro Estação Carandiru (que, apesar de mostrar o cotidiano de um presídio, apresenta a realidade de gente ligada às favelas), a escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977) nem de longe foi reabilitada ao grande público.

Nenhum livro dela foi relançado, pelo que eu saiba, e o "tão engajado" cinema brasileiro, tão afeito a fazer "filmes sobre pobres", nem sequer se interessou em trabalhar no roteiro baseado no livro Quarto de Despejo, que Carolina, uma negra pobre ligada a catadores de lixo e moradora de favela, havia escrito em 1960.

O livro gerou um grande impacto, pela narrativa precisa sobre o cotidiano pobre em que Carolina viveu. O livro apenas teve algumas revisões ortográficas feitas pelo jornalista que a descobriu, Audálio Dantas, então da revista O Cruzeiro. Ele havia recebido os manuscritos já em 1959 e feito uma reportagem sobre Carolina, na época.

Audálio, em sua carreira, trabalhou seu jornalismo em prol dos movimentos sociais, integrou a revista Realidade, fez uma reportagem, depois premiada, sobre o Nordeste brasileiro, era presidente do Sindicato de Jornalistas do Estado de São Paulo na época do assassinato de Vladimir Herzog, em 1975, presidiu a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) e é vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa.

Apenas o escritor Joel Rufino dos Santos - também jornalista e autor do livro O que é Racismo da série Primeiros Passos da Editora Brasiliense - e outros intelectuais menos badalados se lembraram de Carolina. Se fosse nos EUA, o livro já teria se adaptado para o cinema há uns dez anos e, relançado para o mercado, estaria até hoje em catálogo, assim como outros que Carolina escreveu depois.

O Brasil tem grandes personalidades negras, ao longo de sua história. Mas a grande mídia "popular" e os intelectuais que se dizem engajados na "cultura do povo pobre", menosprezam isso. Um Itamar Assumpção só serve para assinar embaixo em toda a breguice feita atualmente. E não só nos esquecemos de Carolina Maria de Jesus, mas também de Milton Santos, Agostinho dos Santos, do saudoso ator Eliézer Gomes, do poeta catarinense Cruz e Souza.

Na verdade, esquecemos ou subestimamos nossos verdadeiros valores culturais, por conta da influência fútil da grande mídia, mais preocupada com futilidades. E como a contribuição negra é um fortíssimo elemento na formação de nossa identidade como nação e como povo, ela também sofre as injustiças da atual tendência de preferir-se a mediocridade triunfante do que as preciosidades valorativas que acumulamos em nossa História.

Daí nossa necessidade de reavaliarmos historicamente nossa cultura, levando em conta as diversas raças que contribuíram para a formação de nosso patrimônio histórico e cultural.

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