sexta-feira, 30 de novembro de 2012

LYA LUFT E O SAMBREGA POLITICAMENTE CORRETO


Por Alexandre Figueiredo

As elites sentiram compaixão pelos pesadelos de Danuza Leão no seu recente artigo "Ser Especial". Pois também elas sonharam com o artigo de Lya Luft na revista Veja do último dia 25, na edição no entanto creditada a hoje (como é de praxe).

Intitulado "Chega de ser policiado. Chega de politicamente correto. Vamos ser quem somos", o texto da escritora faz críticas ao politicamente correto nas seguintes palavras:

Tanto tenho lido e escutado sobre diferenças, preconceitos, o politicamente correto (detestável na minha opinião, hipócrita e gerador de mais preconceito), que começo a pensar se não devíamos nos livrar das exigências, receitas, códigos, ordens, enquadramentos rigorosos e por vezes cruéis desta nossa cultura atual.

Cultura que propaga liberdade, mas nos veste camisas de força umas sobre as outras, lá vamos nós carregando esse ônus, e achando que somos livres – mas nem sabemos o que queremos.

Aparentemente, o texto parece bem intencionado, mas traduz um certo conservadorismo positivo de nosso país. Não teria sido escrito o texto em virtude das pressões sofridas pela revista Veja? Embora ela passe o tempo todo escrevendo no texto sobre a liberdade de sermos fora das convenções ou das pressões sociais, o texto seria também uma forma politicamente correta da autora dizer-se preocupada com as discussões sobre os problemas sociais do país.

Afinal, ela faz parte de uma revista de perfil bastante conservador. Ela até destoa do reacionarismo furioso de articulistas como Reinaldo Azevedo, André Petry e Diogo Mainardi, só para citar alguns que se projetaram nos últimos anos. Lya até se aproxima da linha equilibrada e bem feita de escrever do articulista Roberto Pompeu de Toledo.

Mas, como um outro lado da moeda danuzaleonina, o texto fala não das desilusões da banalização da pobreza, mas das pressões feitas para agradar a sociedade. Ou seja, se Danuza se incomoda com as pressões em aceitar os avanços da sociedade hoje, Lya se incomoda com as pressões contra os problemas e dilemas em que vivemos.

A certa altura, ela fala de "uma banda excelente chamada Raça Negra", o que nos faz refletir sobre o que ela entende por "politicamente correto" ou "cultura livre". Vale lembrar que o Raça Negra, um dos pioneiros do chamado "sambrega", se insere perfeitamente na visão neoliberal de "liberdade cultural", e na apropriação politicamente correta do engajamento racial dos negros.

Afinal, o Raça Negra não é mais do que um revival do "sambão-joia" que animou o ufanismo da ditadura militar, num processo de diluição piegas e sem criatividade do sambalanço. A "excelente banda", que havia sido alvo de um tendencioso tributo "alternativo", é um daqueles "coitadinhos" cortejados pela intelectualidade associada à grande mídia.

O próprio grupo acaba, com essa postura pretensamente cult, sofrendo todas as cobranças que os ídolos brega-popularescos sofrem quando expandem seus mercados para demandas mais "seletas". Como todo neo-brega dos anos 90, há as cobranças deles serem "menos bregas", o que não ajuda em coisa alguma e cria até problemas, como o fato de que a MPB hoje está perdendo espaço para a breguice.

O grupo em nada contribuiu para a cultura brasileira e nem para a cultura negra do nosso país. Seu som, medíocre, nem justifica o nome politicamente correto do grupo e seu revival "alternativo" traz as mesmas pressões que hoje sofre um Odair José, um cantor romântico conservador, "genérico" de Roberto Carlos, mas pressionado para bancar o "alternativo", o "psicodélico" e o "pós-tropicalista" que ele nunca foi nem é.

O grande problema, portanto, é a pressão realmente de sermos o que não somos. Nisso Lya Luft tem razão. Mas ela errou ao lembrar do Raça Negra como uma "excelente banda", como se o grupo tivesse feito parte de uma vanguarda cultural. Nada disso. O grupo sempre foi associado ao brega, que é retaguarda cultural, hit-parade à brasileira meramente ligado ao consumismo e sem compromissos culturais.

Ser politicamente correto é apoiar esse brega-popularesco como se fosse "a nata perdida da MPB". Isso traz pressões terríveis, até um MC Leozinho hoje é forçado a produzir novos sucessos, sem direito a ser um one hit wonder (intérprete de um sucesso só) como ele naturalmente seria no exterior.

A sociedade conservadora, seja a de Danuza Leão ou de Lya Luft, está incomodada. Seja com as mudanças sociais que derrubam antigos paradigmas elitistas, seja com os paradigmas elitistas que esperavam mudanças sociais mais brandas.

Para essa sociedade, a empregada doméstica não pode ver uma apresentação de Bossa Nova. Mas o Raça Negra, para essa sociedade, pode ser "alternativo". De um lado, o povo pobre é desaconselhado a melhorar sua cultura. De outro, a mediocridade cultural é celebrada como uma suposta vanguarda. É a mesma visão elitista, para a qual o povo pobre só é "melhor" naquilo que tem de pior.

Alguma vez Lya Luft pensou se as empregadas domésticas também não são pressionadas a ouvir Raça Negra e derivados só para agradarem a sociedade? Será que elas não mereciam ouvir coisas melhores?

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