terça-feira, 13 de novembro de 2012

GLAMOURIZAÇÃO DA PERIFERIA CRIA "ELITE" SUBURBANA


Por Alexandre Figueiredo

O discurso intelectual que fala na aparente ascensão das periferias esconde um detalhe muito delicado. É o surgimento de uma "elite" nas áreas suburbanas que, sabemos aqui, se emancipou da pobreza original, se constituindo no que oficialmente se chama de "classe média".

O problema não é haver essa emancipação, mas a forma como ela foi feita. Embora o processo hoje não se compare com os estereotipados "novos ricos" da Era FHC, vários deles "fabricados" pelas loterias e outros jogos similares, as "periferias" exaltadas pela intelectualidade dominante se ascenderam dentro de um status quo midiático e mercadológico.

A "elite" suburbana de intelectuais emergentes e alguns ativistas menos ousados não rompe com as estruturas de dominação vigentes, e apenas simbolizam uma redução parcial de desigualdades. Em contrapartida, temos ainda uma ampla população pobre que ainda sofre com a dominação sócio-cultural que limita sua qualidade de vida ao pior possível.

É só ver como são as "periferias" exaltadas pela intelectualidade "sorospositiva" e "fora do eixo" e pelo poder midiático. São áreas semi-urbanizadas nas favelas ou antigos favelados removidos para apartamentos de classe média, alguns casos acima dessa classe.

Seus indivíduos são tutelados pelo ativismo de mercado - sobretudo através de instituições financiadas pelo Soros Open Society, mentor da ideologia do "negócio aberto" que é a bandeira do Coletivo Fora do Eixo - , adotando uma "cultura independente" que depende do "assistencialismo" do poder midiático e do mercado.  Por isso eles prometem uma "nova visão" sem romper com o status quo vigente.

Para piorar as coisas, a intelectualidade badalada e dominante de hoje ainda define como "periferia" os empresários do entretenimento brega-popularesco, muitos deles muito ricos e poderosos, mas definidos pela intelectualidade associada, até mesmo em monografias e documentários, como "humildes produtores culturais" e, quando muito, "pobres que conquistaram o sucesso com seu suor".

Enquanto isso, temos a população ainda pobre, que realiza protestos pedindo reforma agrária, justiça contra vítimas da violência e até mesmo implantação de melhorias como passarelas em rodovias que "cortam" favelas, por exemplo.

Esses ativistas verdadeiros, que não se compactuam com o poder midiático - poder que se exerce até mesmo sobre rádios comunitárias ideologicamente domesticadas - , não aparecem na "periferia" sorridente do discurso fácil de pessoas como Regina Casé e Hermano Vianna, e nem mesmo na "dramática visão" de cineastas, acadêmicos e críticos musicais sobre as classes pobres.

Isso porque não há a poética do discurso intelectual, como também não há a glamourização do "mau gosto" pregada sobretudo pelo "funk carioca" e seus ricos empresários. O povo pobre que se vê, nas andanças suburbanas, nem sempre é a caricatura trabalhada pelos "núcleos pobres" das novelas da Globo e nem pela visão "realista" dos "sorospositivos" politicamente corretos, como se vê na minissérie Subúrbia.

O Movimento dos Sem-Terra, o Movimento dos Sem-Teto, as Mães de Acari, as Mães de Maio, os movimentos negros, os movimentos contra a mídia machista, ou mesmo os simples populares que, nas zonas suburbanas e rurais, não acreditam nessa "cultura popular" midiática do brega-popularesco, eles são as periferias verdadeiras.

E é essa população ainda pobre que aparece nos lixões, sofre ainda com deslizamentos de terras, com a violência diária, não é uma população que posa de vítima e de coitadinho, porque é vítima real dos problemas cotidianos e se recusa a bancar o coitadinho nas palestras para autoridades e intelectuais.

Esse povo incomoda a classe média, ou mesmo a intelectualidade que prefere ver formas domesticadas de ativismo como o "funk carioca", ou caricaturas de "cultura das periferias" como o mesmo ritmo e outros como o "forró eletrônico" e o tecnobrega.

Essa intelectualidade tenta exaltar uma "periferia" de contos de fadas, às vezes com os tons "trágicos" de Subúrbia, do que suportar manifestações reais das classes pobres que inquietam e irritam, e muito, esses mesmos intelectuais, que possuem formação elitista e andam de mãos dadas com os mesmos barões da grande mídia que eles dizem odiar nos seus discursos.

Cria-se uma "elite" supostamente autossuficiente das periferias, que no entanto só está comprometida com o consumismo, com o poder midiático, com o entretenimento dominante nas rádios, TVs e imprensa "populares" e que se "emancipa" e se "mobiliza" sem oferecer qualquer ameaça às estruturas dominantes que mantém as desigualdades sociais. Enquanto isso, os outros pobres continuam na mesma miséria.

É preciso olhar a periferia sem os filtros intelectualoides vinculados ao poder midiático. E mesmo o ativismo "sorospositivo" não é menos duvidoso, na medida em que seu discurso apresenta um novo processo de domesticação ideológica das classes populares, que nem chega a ser novo, porque aparece até mesmo na Rede Globo, mas ele é pouco debatido e parcialmente discutido nos meios intelectuais.

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