sexta-feira, 30 de novembro de 2012

FELIPÃO É ESCALADO PARA REPETIR 2002 EM 2014


Por Alexandre Figueiredo

2014 pretende repetir 2002, que já era uma repetição frouxa de 1970, programado para temperar o ufanismo neoliberal da Era FHC, mas que deu depois em colapso. Desta vez, a CBF escolheu Luiz Felipe Scolari, o técnico de 2001-2002, para treinar a seleção brasileira de futebol para a próxima copa.

Scolari foi o treinador da estranha campanha de 2001-2002, quando a seleção não exibia seu melhor futebol e a equipe nem de longe era coesa. A CPI do Futebol estava em andamento e o governo FHC enfrentava um desgaste político por conta do racionamento do consumo de energia elétrica. Era preciso armar um espetáculo para evitar qualquer inquietação social mais ampla.

A Copa do Mundo da FIFA de 2002 foi o evento escolhido para essa anestesia. A seleção brasileira, insegura, despreparada e dispersa, já devia ter perdido nas eliminatórias de 2001, mas os interesses de Ricardo Teixeira, da Globo e da Nike ordenaram que mesmo adversários fortes tivessem que ceder seus campos de defesa para a patinação nos gramados de qualquer um de uns três goleadores.

Os jogos eram parecidos, parecia tudo ensaiado, e na Copa de 2002 em geral, os times mais fortes perdiam as partidas com uma estranha facilidade. Embora a grande mídia tenha feito uma grande festa, a Copa de 2002 foi mais a Copa da Nike e a seleção brasileira mais parecia a seleção de Ricardo Teixeira.

Com tanta copa para a seleção brasileira ter ganho, 2002 não deveria ter sido o ano. Nem era para a seleção estar lá, 2002 poderia ter sido o primeiro ano de uma copa do mundo sem a seleção brasileira. Teria sido uma solução mais realista, pois o Brasil tinha problemas maiores. Mas o pessoal preferiu a ilusão.

Pois aí vieram os interesses politiqueiros, tecnocráticos e empresariais diversos maquiando as cidades com um urbanismo nem sempre adequado para as necessidades locais dos brasileiros, uma mobilidade urbana que transforma os sistemas de ônibus num "baile de máscaras" da pintura padronizada e "compra" o apoio da população com BRTs que depois se acidentam e se degradam, e uma "cultura popular" decidida por empresários do entretenimento e gerentes de rádio e TV.

E tudo isso porque os interesses dos "cartolas" do futebol em empurrar o Brasil cheio de problemas - e considerado o penúltimo em Educação - não só para a Copa de 2014 mas também, às custas de interesses de outros "cartolas" (entre eles um sisudo Carlos Arthur Nuzman casado com a bela Márcia Peltier num país onde a maioria das solteiras têm o perfil de Geisy Arruda), para as Olimpíadas de 2016.

É muita despesa para o Brasil que ainda mal começou a resolver as desigualdades sociais e ainda apresenta um quadro educacional calamitoso. E o pior é que a grande mídia, de forma esnobe, sempre divulga a Educação como um processo fácil, como se bastasse só ensinar a ler e a escrever e alguns macetes manjados sobre cidadania. Não é.

Apesar de toda a festa e de toda a demagogia política - na última segunda-feira Sérgio Cabral Filho, o amigo de Carlinhos Cachoeira por intermédio do empreiteiro Fernando Cavendish, realizou um "showmício" pedindo o veto da Dilma ao projeto corte de verbas dos roialtes do petróleo - , dá para perceber que o exemplo de 2002 é um sério aviso para 2014.

Primeiro, porque 2002 foi o último ano em que a soberania da grande mídia brasileira reinava absoluta, com os barões da mídia como senhores absolutos da opinião pública. A Internet começava a mostrar seu potencial como alternativa de expressão da sociedade, depois do obscurantismo total dos anos 90. E foi também o último ano de supremacia política do PSDB.

Apesar das manobras trapaceiras da copa - convenhamos, a seleção brasileira jogou muito mal - terem garantido o tal do "penta", a politicagem não conseguiu evitar o colapso do Brasil: crise econômica e educacional, crise política do PSDB que abriu caminho para um (moderado) PT conquistar as urnas, e início da decadência da grande mídia como formadora da opinião pública.

Ou seja, Ricardo Teixeira não conseguiu salvar o PSDB nem a grande mídia, apesar do "penta" ser muito do gosto da Globo. Mas ele, agora como membro honorário da CBF, intervirá num novo cenário de "patriotada" através de seus colaboradores José Maria Marín, atual presidente da entidade, e Marco Polo Del Nero, seu vice.

Segundo o jornalista Juca Kfouri, lembrado por Celso Lungaretti, os dois eram gente tão ligada à ditadura militar do que, por exemplo, o bicheiro e "cartola" carnavalesco Aílton Guimarães Jorge, antigo integrante da repressão militar. Marín era um admirador de outro membro da repressão, o falecido delegado do DOPS Sérgio Paranhos Fleury.

Além disso, Felipão, que não foi um grande jogador no passado e até era um técnico exemplar, havia saído de uma fracassada participação na decadência do Palmeiras que se deixou cair para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro este ano.

Se criará um "patriotada" para quem sabe manter o governo do PT no atoleiro do fisiologismo político ou, se possível, eleger alguém mais conservador e ainda mais comprometido com a politicagem dominante. Cria-se toda uma festa esportiva com pesados investimentos financeiros, e, no final da festa, pouco importa a ressaca, se as autoridades e seus aliados saírem em vantagem, tudo bem.

Esse será o problema. O "hexa", tal como o "penta", será provavelmente comprado mais uma vez por Ricardo Teixeira e pela Globo. É preciso que a festa fique completa, e eles vão fazer de tudo para que o "hexa" esteja garantido.

Enquanto isso, as pálidas conquistas sociais, os paliativos tomados como "definitivos" (como as bolsas-família e as cotas raciais para as universidades) não conseguem resolver por completo os problemas sócio-econômicos do país e o que poderia ser uma relativa melhoria pode resultar numa piora retumbante, com os imprevistos que o otimismo de gabinete não conseguiu sequer prevenir.

Repetiremos 2002, com o "penta" comprado, e 1970, com a "patriotada" mais festiva. Mas como nestas duas festas, a ressaca será muito dolorosa, porque o Brasil não está pronto para tais vitórias esportivas e, o que é pior, apresenta problemas sócio-econômicos sérios e graves.

Não dá para comemorar as poucas vitórias dos governos do PT. Melhor seria trabalharmos para levarmos essas conquistas adiante e efetivar outras, em vez de comemorarmos por benefícios apenas frágeis e relativos. E que as festas de 2014 e 2016 ameaçam acabar, pela farra financeira que está por trás.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...