quarta-feira, 28 de novembro de 2012

DANUZA LEÃO E O INCONSCIENTE DOS INTELECTUAIS


Por Alexandre Figueiredo

A escritora e socialite Danuza Leão causou reboliço, no pior sentido do termo, quando publicou, ontem, na sua coluna da Folha de São Paulo, o texto intitulado "Ser Especial", em que ela trata com ironia a banalização do aumento do poder aquisitivo, numa sutil implicância com a ascensão da classe C.

Danuza até tem um bom background. Irmã da musa da Bossa Nova, Nara Leão, ex-mulher do jornalista de esquerda Samuel Wainer, participou do filme Terra em Transe (1967) de Glauber Rocha e era um dos ícones modernos do colunismo social dos anos 60. Até os fãs da Fluminense FM lhe dão tributo, pelo fato dela ter sido mãe do precocemente falecido Samuel Wainer Filho, um dos mentores da rádio de rock.

No entanto, como tantos "desiludidos" de sua geração, como Arnaldo Jabor e Ferreira Gullar, Danuza mostra seu saudosismo de elite, incomodada com o fato de que está mais fácil encontrar brasileiros no exterior ou ver que até porteiros de prédios podem ir a Nova York ver musicais da Broadway.

Desapontada com tal situação, Danuza então sugere o isolamento como forma de proteção das elites para os avanços sociais de hoje, nos seguintes termos: "Para os muito exigentes, passa a existir uma única solução: trancar-se em casa com um livro, uma enorme caixa de chocolates --sem medo de engordar--, o ar-condicionado ligado, a televisão desligada, e sozinha"

Sobre a saudade da "distinção social" das pessoas "especiais", Danuza fala que "se todo mundo fosse rico, a vida seria um tédio". Parece ver os progressos sociais de hoje como o fim do mundo, talvez o fim de seu mundo de um colunismo social moderno, mas ainda assim elitista.

INCONSCIENTE INTELECTUAL

No entanto, podemos dizer também que Danuza Leão, que há tempos reflete os pontos de vistas das elites mais elitistas de São Paulo, aqueles que continuaram lendo a Folha de São Paulo depois do auge do jornal nos anos 90, reflete também o inconsciente da intelectualidade que se assenhoreou do tema da cultura popular.

Afinal, os "dissidentes" também mostram suas visões elitistas, pois, mesmo se alinhando aparentemente nas esquerdas médias, eles mantém o DNA do Projeto Folha compartilhando do neoliberalismo pós-tropicalista de Pedro Alexandre Sanches, cria dessa fase da FSP.

O que faz os intelectuais da moda, como cientistas sociais e críticos musicais badalados, defenderem a breguice cultural e a "ditabranda do mau gosto", são pontos de vista não muito diferentes do que Danuza expressou no seu texto. E que dizem muito do quanto essa intelectualidade, apesar de se afirmar "sem preconceitos", é bastante preconceituosa.

A artilharia que esses intelectuais fazem, por exemplo, a Chico Buarque, na verdade é uma forma deles dizerem ao "povão" que ele é um "bicho papão" e o melhor, para essa elite "pensante", é que o povo improvise sua "prosperidade cultural" às custas de Odair José, Michel Teló, Tati Quebra-Barraco, Wando, Zezé di Camargo & Luciano e É O Tchan.

Esses intelectuais se sentem incomodados quando o povo dos subúrbios tenta recuperar para si os sambas, baiões, modinhas etc que os tecnocratas lhes roubaram, em algum momento da ditadura militar. Ficam apavorados quando veem um favelado tocando piano e não rebolando um "funk", e ficam traumatizados quando surgem das favelas cantores e músicos que vão fora e muito longe da indigesta indigência brega.

Situados entre os 40, 50 e 60 anos, esses intelectuais detém a tão evocada exclusividade do artigo de Danuza. Querem ter a apreciação exclusiva de sambistas, violeiros, sanfoneiros e da "MPB maldita" que ninguém conhece. Como o "moleiro" do conto "O amigo dedicado" de Oscar Wilde, os intelectuais brasileiros "de nome" usurpam do povo seu patrimônio e lhe reservam o lixo das rádios e TVs "populares".

Danuza certamente escreveu um artigo de um saudosismo puramente elitista. Mas a intelectualidade que acha que o brega "de raiz" e o "funk carioca" são a "revolução social" e que as "popozudas" são "feministas modernas", até pelo fato de serem influenciados pela Folha dos anos 90, também mostram seu elitismo à sua maneira, embora usando o termo "popular" como escudo contra qualquer crítica.

É porque, para esses intelectuais, o "popular" tem que estar sempre associado ao pitoresco, ao medíocre, ao piegas, ao cafona, ao ridículo, ao patético, ao mau gosto. Até o "progresso cultural" do povo pobre esses intelectuais só admitem depois que as próprias elites aprovam esses papéis degradativos para os pobres.

Dessa feita, pode-se concluir, com segurança, que esses "arautos da cultura das periferias", da mesma forma que Danuza Leão, também se sentem incomodados quando os pobres passam a apreciar uma cultura de melhor qualidade.

A estes intelectuais da breguice cultural, sugerimos que eles se tranquem em seus apartamentos de luxo, leiam livros de auto-ajuda, tomem um chope, só vejam TV paga e, com o ar condicionado ligado, sonhem com uma periferia da pobreza glamourizada e consumista feito a Disneylândia, enquanto o povo lá fora redescobre a qualidade de vida.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...