domingo, 25 de novembro de 2012

"CULTURA DE MASSA", DIVERSIDADE CULTURAL E PRECONCEITO


Por Alexandre Figueiredo

Estava lendo o anexo do Plano Nacional de Cultura (Lei 12.343, de 02 de dezembro de 2010), e observei no item que se refere à competência do Estado, nos seguintes termos:

PROTEGER E PROMOVER A DIVERSIDADE CULTURAL, reconhecendo a complexidade e abrangência das atividades e valores culturais em todos os territórios, ambientes e contextos populacionais, buscando dissolver a hierarquização entre alta e baixa cultura, cultura erudita, popular ou de massa, primitiva e civilizada, e demais discriminações ou preconceitos.

Notei que este é um texto bastante controverso, que aparentemente vai a favor do que a intelectualidade etnocêntrica está fazendo, sob o aplauso condescendente das esquerdas médias mas com a mais evidente satisfação dos barões da grande mídia.

Afinal, o texto, aparentemente, assina embaixo em relação à "ditabranda do mau gosto", supostamente considerando-a válida no contexto da diversidade cultural, já que aparentemente o brega-popularesco em seus valores, ícones, ídolos e músicas, é classificado, à primeira vista, como "baixa cultura", "cultura de massa" ou "cultura primitiva".

O texto, interpretado neste sentido, sugere que tenhamos que aceitar a hegemonia do brega-popularesco e a invasão de seus ídolos em todo tipo de espaço, mesmo sob o prejuízo de outras expressões culturais, e que qualquer choradeira intelectual em prol dos bregas valeu a pena.

Não é bem assim. O que vemos, hoje em dia, na cultura brasileira é que, em nome da diversidade cultural, a verdadeira diversidade cultural está sendo sacrificada e ameaçada diante da hegemonia crescente e quase totalitária de um tipo de "cultura popular" trabalhado pela velha grande mídia.

É muito delicado escrever isso, e não é fácil. Primeiro, pela ideia que muitos têm da palavra "preconceito" como necessariamente de "rejeição", e não de falta de compreensão. Mas não é preciso pensar muito para ver que, por exemplo, no caso do "funk carioca", o preconceito não está do lado de quem o rejeita, que conhece muito bem o ritmo, mas de quem o aceita e só ouve as propagandas em torno do ritmo.

Eu nunca tive preconceito com o brega. Mas eu nunca gostei de seu universo. Conheci os ídolos bregas desde que eu via televisão e ouvia o rádio na infância. Com três anos, achei "Eu Não Sou Cachorro, Não", de Waldick Soriano, bastante risível. Também achava patético o "Farofa-fá" e "Bilu Teteia" de Mauro Celso, na melhor das hipóteses meros "chicletes" radiofônicos com sabor pós-Jovem Guarda.

Quando morei em Salvador, vizinhos tocavam Chitãozinho & Xororó, Só Pra Contrariar (então com Alexandre Pires) e É O Tchan. Eu andava pelas ruas, ia pelo comércio, tocava tudo de brega-popularesco. Não havia como ser preconceituoso dentro de um "curso intensivo" desses.

No entanto, meu gosto musical é bastante oposto disso. Curto rock alternativo, gosto de chorinho, de Clube da Esquina, de Bossa Nova. Também curto rock instrumental dos anos 50 e 60. Smiths, Gentle Giant, Police, Ride, Fellini, Mutantes, Ventures, Syd Barrett, Beatles, Rolling Stones, Who, Clash, Legião Urbana, João Gilberto, Lô Borges, Laura Nyro e Voluntários da Pátria são alguns nomes que aprecio muito.

O brega nunca me incomodou muito, mas a hegemonia do brega-popularesco passou a se tornar um problema em diversos aspectos. Influía no gosto musical da maioria das pessoas, e a diversidade cultural deu lugar ao que os críticos chamavam de "monocultura": "monocultura do axé", "monocultura do funk", "monocultura do forró", "monocultura do sertanejo" etc.

Eram várias "monoculturas" dos anos 90 que, a partir de 2002, se "juntaram" e passaram a sofrer a blindagem de intelectuais associados, como cientistas sociais e críticos musicais bastante badalados, que passaram a defender tudo isso a pretexto de uma "diversidade cultural".

Pois a diversidade cultural que serve de pretexto para legitimar a hegemonia brega-popularesca - que naquele 2002 já deu o que tinha que dar, o que veio depois é apenas uma "recicliagem" do que já existia nos anos 90, vide Michel Teló, Mr. Catra e Gaby Amarantos - , na verdade, acaba sendo ameaçada por essa mesma hegemonia.

Afinal, dos anos 90 para cá, a MPB autêntica acabou perdendo seus espaços drasticamente. As tradições culturais das classes populares perderam seu vínculo com as novas gerações, que praticamente perderam a herança de seus antepassados. Nosso patrimônio cultural passou a ser "peça de museu" ou, quando muito, apreciado tão somente por elites de especialistas e pesquisadores.

O grande problema nesse caso é quanto ao que o texto condena como "discriminação e preconceito" e "hierarquização" da nossa cultura. Isso porque as críticas contra o brega-popularesco nem de longe podem ser vistas como tais injustiças, pelos seguintes motivos.

Primeiro, porque o brega-popularesco surgiu sob um contexto de dominação midiática e manipulação ideológica do povo pobre, desde quando os primeiros ídolos cafonas eram tocados, desde 1958 mas sobretudo a partir de 1964, por rádios que defendiam interesses coronelistas.

Eram expressões caricatas, estereotipadas e tardias de boleros, Jovem Guarda, country, disco music e ritmos caribenhos, ou mesmo "releituras" piegas de sambalanços e modinhas, que o jabaculê radiofônico fez tornarem-se não só "sucessos populares", mas hoje processos hegemônicos de dominação cultural.

O FUTURO DO NOSSO FOLCLORE ESTÁ NO JABACULÊ?

Dizer que o jabaculê hoje decide o futuro de nosso folclore não é discriminar nem hierarquizar nossa cultura. Hoje nossa cultura é submetida ao poder midiático, rádios e TVs não são mais inocentes difusores de nossa cultura, mas manipuladores do que seus donos entendem o que deve ser a "cultura popular".

Ou seja, não se pode dizer que é hierarquizar a cultura querer que as gerações mais novas do povo pobre ouçam baiões, modinhas, sambas de verdade. Hierarquizar, sim, é impor o reconhecimento do "mau gosto"como "expressão das classes populares", porque embora seja um argumento tido como generoso, classifica o povo pelo que ele é de ruim.

Isso cria uma manipulação discursiva muito traiçoeira. Porque a intelectualidade, com seu discurso "objetivo" e positivista (no sentido de Auguste Comte), julga que o povo é "melhor" pelo que ele tem de ruim, que seria, nesse discurso, uma forma "diferente" de ser "bom".

Isso é pura malandragem, pois o que o povo pobre acaba tendo de baixarias e carências resultantes da miséria e da baixa ou nula escolaridade, a intelectualidade associada entende como "prosperidade". Essa forma corrompida de "aceitar o outro" gera distorções na análise sociológica que transforma problemas sociais em supostas "soluções".

Se for nesse sentido, Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches condenariam, por exemplo, o projeto educacional de Paulo Freire, que havia encabeçado o Movimento de Cultura Popular, porque o fato de alfabetizar as pessoas seria uma forma de "higienização social" que afetaria seriamente a "pureza da pobreza" tão exaltada pela intelectualidade dominada de hoje.

Portanto, não é hierarquizar a cultura falar que existe mediocridade social e que a intelectualidade de hoje prefere glamourizar a pobreza do que defender melhorias reais para o povo pobre. Além do mais, a própria lei acima citada estimula a crítica cultural, no inciso V do artigo 1º, na medida que problemas existem para serem contestados, e não exaltados a pretexto de serem "uma forma diferente de solução".

A QUESTÃO DA "CULTURA DE MASSA"

É o que fazemos: crítica cultural, convite à verdadeira reflexão. Não é um simulacro de "reflexão crítica" que não passa de propaganda do que "está aí" e que, no final das contas, dispara farpas contra quem realmente tem valor, seja Chico Buarque, Edu Lobo, Rita Lee, Beth Carvalho e os "velhos de ultrapassados" músicos do povo (Luiz Gonzaga, Zé Kéti, Jackson do Pandeiro etc).

A reflexão crítica se dá, sobretudo, acerca dos problemas da "cultura de massa" de hoje, hegemônica e totalitária, praticamente "dona" da cultura brasileira em geral e da MPB em particular, subordinando as demais expressões culturais em torno da breguice dominante sobretudo no rádio e televisão.

A "cultura de massa" não é ruim, em si. Tivemos uma boa "cultura de massa", como na televisão dos anos 60, mas hoje, com a glamourização da cafonice cultural reinante em nosso país, virou tabu fazer qualquer tipo de restrição na avaliação de certos nomes associados.

Moacyr Franco, por exemplo. Ele é o que chamamos de entertainer brasileiro, sendo um grande ator e apresentador de TV. Como compositor e cantor, Moacyr, assim como Fábio Jr., não surgiu brega, mas se bregalizou depois. Só que hoje temos que nivelar o Moacyr Franco compositor a um patamar igual ou superior a Tom Jobim, senão seríamos vistos como "preconceituosos".

O próprio Cassino do Chacrinha era um ícone admirável da chamada "cultura de massa" brasileira. Virou ícone cultuado pelos tropicalistas em 1967, quando o Tropicalismo pelo menos era revolucionário na atitude comportamental, trazendo esse lado da Contracultura para o Brasil, com direito a psicodelia e guitarras elétricas.

E isso era muito antes do programa virar um jabaculódromo como foi nos anos 80, quando o apresentador Abelardo Barbosa era marcado pelo seu senso de humor e pela desenvoltura admiráveis. As gerações recentes superestimam a fase anos 80, da Rede Globo, mas esta é uma fase menor, e o próprio Chacrinha era reduzido a um anunciador de atrações e um mediador do júri de calouros.

O problema hoje é que a "cultura de massa" que se veicula hoje surgiu num contexto da ditadura midiática de hoje em dia, cada vez mais ideologizada, pior do que havia em 1964, quando, pelo menos, o poder midiático não afetava nossa cultura, e permitiu, até 1976, que seguidores da sofisticação bossanovista e do engajamento cepecista dos anos 60 fossem amplamente divulgados, constituindo dos nomes hoje consagrados da moderna MPB dos nossos dias.

Hoje a "cultura de massa" é hegemônica, fruto do poder das oligarquias empresariais e políticas estimuladas sobretudo pelas concessões de rádio e TV do então presidente da República, José Sarney, e seu ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, estes dois então líderes de oligarquias regionais. E essa fase foi coroada pela comemoração da vitória eleitoral de Fernando Collor com ídolos "sertanejos".

Foi a partir da Era Collor que a mediocrização cultural se tornou hegemônica e rumo ao poder totalitário. Portanto, ela não é a "boa 'baixa cultura'" nem a "cultura de massa moderna", nem a "verdadeira cultura popular". Ela serve a princípios ideológicos de manipulação das classes pobres e atende aos interesses dos barões da grande mídia, por mais que os intelectuais associados digam que isso "nada tem a ver".

O que se vê é que a diversidade cultural, em vez de legitimada, é ameaçada pela hegemonia do brega-popularesco. A MPB autêntica é que sofre a mais cruel discriminação, sobretudo de intelectuais que, pasmem, são "contra a discriminação cultural". Os ataques a Chico Buarque são exemplo disso.

Além disso, o grande público é afastado, pelo poder midiático, de suas próprias raízes culturais. A maioria das rádios só toca brega-popularesco. Valores sociais retrógrados, quando associados às classes populares, são tidos como "positivos e modernos" pelos intelectuais mais badalados. O nosso rico patrimônio cultural ameaça virar peça de museu ou privilégio de usufruto pelas elites especializadas.

Denunciar essa realidade nada tem de discriminador, preconceituoso e hierarquizador, mas simplesmente tem tudo de realista e coerente na apresentação de problemas culturais vividos em nosso país.

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