quinta-feira, 29 de novembro de 2012

CARLA BRUNI E AS MUSAS "POPULARES"


Por Alexandre Figueiredo

A declaração de Carla Bruni-Sarkozy para a revista Vogue francesa, que irá às bancas no próximo mês, revoltou as mulheres que, no Twitter, resolveram criar a hashtag com o nome irônico de #ChereCarlaBruni ("Querida Carla Bruni", em francês).

A ex-primeira-dama havia dito que não sentia o menor interesse em defender a causa feminina, e que apenas gostaria de ter um marido e ser uma "burguesa". "Na minha geração não há necessidade de ser feminista. Há pioneiras que abriram esse caminho. Eu não sou militante feminista para nada. Por outro lado, sou mais burguesa. Gosto da vida de família, de fazer o mesmo todos os dias e, agora, de ter um marido ao lado", disse.

A entrevista, divulgada no último domingo, revoltou as internautas, que nas suas mensagens procuraram chamar a atenção da ex-modelo e cantora sobre problemas como o aborto, o mercado de trabalho, o estupro e a educação machista nas escolas.

Carla é casada com o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy, que havia sido também um dos líderes da União Europeia. Nicolas é um político destacado da direita francesa, e na sua tentativa de reeleição, este ano, na qual foi derrotado pelo socialista François Hollande, sinalizou para o apoio da extrema-direita de Jean-Marie Le Pen.

Carla foi um nome considerado moderno, tendo sido uma modelo e, depois, cantora e compositora - ela também toca violão - de notável atitude e personalidade. Havia namorado vários músicos famosos, mas hoje, por influência conservadora de seu marido, resolveu assumir também seu conservadorismo.

Para o contexto brasileiro, podemos entender que a recusa de Carla Bruni em relação ao feminismo não é lá muito diferente da recusa que as chamadas musas "populares" fazem, mesmo quando os intelectuais brasileiros tentam, em vão, defini-las como "feministas" apenas pelos motivos rasos de "liberdade sexual" e do pretexto de que elas se tornaram famosas sem a sombra de algum marido ou namorado.

Isso porque a recusa que uma paniquete, uma "mulher-fruta", uma "musa do futebol", uma "musa do MMA", uma ex-BBB ou, agora, uma "peladona" fazem em relação ao feminismo é até mais grave do que a de Carla Bruni, que pelo menos fala besteira com "categoria", embora isso também nada tenha de aprovável.

Posar ao lado de gays estereotipados numa festa clubber é muito fácil. Falar de sexo a toda hora, sobretudo quando não há necessidade, também. Uma funqueira esconder seu marido numa cidade do interior para depois "confirmar" para a imprensa de que "está solteiríssima", também é moleza.

No entanto, essas musas também recusam qualquer compromisso feminista, porque o verdadeiro feminismo nada tem a ver com falar mal de homens ou querer sexo livre. Ser feminista é ter opiniões sobre diversos assuntos, é liberar e guardar o corpo conforme o pretexto, não colocar a sensualidade acima da elegância e do bom senso, e ter um pouco mais de compostura em relação à mídia.

As musas "populares", no entanto, continuam vivendo à sombra dos homens, sim. Como estrelas da mídia machista, seus "Nicolas Sarkozy" podem não ser necessariamente seus maridos e namorados - até porque os cônjuges não-assumidos delas, além de feios, são também "durões" - , mas seus empresários e os editores de revistas "sensuais", jornais "populares" e portais de celebridades da TV aberta.

São estes empresários editores que as fazem cumprir todas as regras do machismo mais grotesco. Que só é "feminista" para os barões da grande mídia e para cientistas sociais e críticos culturais que usam a palavra "popular" para dissimular seu reacionarismo ideológico.

Neste sentido, não é muito diferente a funqueira que "canta e compõe" com a senhora Sarkozy. Só diferem os detalhes próprios da nossa terrinha. Mas, depois que a funqueira faz todo o sucesso interpretando letras que falam mal dos homens e se passando por "solteiríssima" aos olhos da grande mídia, bajulando até mesmo atores do perfil de Murilo Benício e Reinaldo Gianecchini.

E tudo isso é feito para a funqueira, depois de faturar um bom dinheiro, voltar à sua vida privada para junto de seu marido, com o qual comemorará seus louros longe dos holofotes, até porque o marido está poupado de qualquer fofoca, já que ele "inexiste" para a grande mídia "popular".

Musas assim são apenas versões "menos glamourosas" de Carla Bruni, à maneira da grande mídia "popular".

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...