quinta-feira, 8 de novembro de 2012

AS VEDETES DE ONTEM E A MÍDIA MACHISTA DE HOJE


Por Alexandre Figueiredo

Houve um tempo em que as musas conhecidas por sua sensualidade eram outras, e, em que pese a ênfase nas suas formas físicas, elas no entanto não correspondiam à baixaria que se vê hoje.

Eram as chamadas vedetes, atrizes de teatro de revista, que eram comédias populares que, com um grande elenco de atores e dançarinos, alternava esquetes humorísticas e números musicais. Os moralistas da época apelidavam essas peças de "teatro rebolado", por conta das vedetes e coristas que atuavam nessas peças.

As gerações recentes não acompanharam esse gênero de peça. Vamos explicar. Suponhamos que um típico espetáculo pop, tipo Britney Spears com seus "trocentos" dançarinos, inclua esquetes humorísticas com, digamos, Justin Timberlake, alternadas com números musicais. Seria um típico teatro de revista.

Eles ainda existiam aos montes ainda no começo dos anos 60. José Vasconcelos, pioneiro nas "comédias em pé", havia feito vários deles, um chamado Zé Vasconcelos no País dos Bilhetinhos, em 1961, numa alusão a um estranho hábito de Jânio Quadros anunciar medidas mandando bilhetes. Colé Santana, tio do trapalhão Dedé Santana, havia feito o Mulheres... Só à Francesa, também de grande sucesso.

Mas houve também o caso de Skindô, peça patrocinada pelo empresário Abraão Medina, pai do Roberto Medina, organizador do Rock In Rio. Abraão era dono da rede de lojas de equipamentos de som O Rei da Voz, patrocinadora do programa Noite de Gala da TV Rio.

Skindô havia lançado para a fama a atriz Betty Faria, que havia participado recentemente da novela Avenida Brasil, da Rede Globo e foi um grande sucesso no teatro de revista em 1961. E já que havíamos falado em Noite de Gala, um grande conhecedor das vedetes brasileiras, o jornalista Sérgio Porto, tinha um quadro no programa, em que ele fazia comentários sentado de costas para a câmera. O quadro se chamava "Stanislaw Ponte Preta de costas para a fama", citando o pseudônimo humorístico de Porto.

ERAM OUTROS TEMPOS

As vedetes eram coroadas por Sérgio Porto, através do codinome Stanislaw Ponte Preta, com fotos e comentários elogiosos. Eram as "Certinhas do Lalau", que Porto usou para satirizar as Dez Mais Elegantes que Maneco Müller, sob o pseudônimo Jacinto de Thormes, elegia em sua coluna, geralmente reduzidas ao nome do respectivo marido precedido do vocativo "Sra.". Eram outros tempos.

Aliás, passados os anos, vemos que as vedetes poderiam não ser lá muito intelectualizadas, mas elas tinham uma certa dignidade e um mínimo de sensatez. Naquela época em que os cineclubistas acusavam as chanchadas de fazer uma caricatura das classes populares - bem menos grosseira, diga-se de passagem, que a imagem "realista" que o brega-popularesco faz hoje - , elas eram consideradas as mais sensuais no Brasil pré-1964.

Próximas a elas, hoje, houve as atrizes de porno-chanchadas, que depois puderam superar a mera imagem sensual e seguirem carreiras consistentes. Várias remanescentes das antigas vedetes também hoje se tornaram boas atrizes e até mesmo notáveis comediantes, sem depender da exibição de corpos para obter popularidade.

Houve até mesmo casos trágicos, como as das fotos acima, Zaquia Jorge, que havia investido num espaço teatral nos anos 50, em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, que em 1957 faleceu afogada quando tomava banho numa praia. A comoção pela tragédia prematura - Zaquia tinha apenas 33 anos - inspirou até mesmo um samba-enredo, "Madureira Chorou", muito popular em 1958.

Houve também o caso de Janette Vollu, corista do grupo teatral de Carlos Machado - famoso especialista em teatros de revista e pai da hoje sumida Djenane Machado - , que havia sido escolhida para ser a protagonista de Gabriela Cravo e Canela, primeira adaptação em novela do famoso livro de Jorge Amado e uma das primeiras novelas a ser gravada em videoteipe (mas cujos registros teriam se perdido).

A novela foi ao ar em 1961 na TV Tupi, teve no elenco atores conhecidos como Paulo Autran, Grande Otelo e Suely Franco. Maurício Sherman, hoje diretor do Zorra Total da Globo, dirigiu a novela e ainda atuou em um papel. Janette, com uma beleza muito branca para o papel, mas suficientemente bela e discretamente sensual, limitou sua carreira na TV com este único papel.

Mais tarde, ela se casou com seu noivo na época, um arquiteto bastante ciumento. Largou a carreira e caiu no esquecimento, de tal forma que da morte prematura da atriz não constam informações - seria bom o pessoal mexer nos arquivos - , a não ser que ela teria falecido aos 34 anos e, constando que Maurício Sherman afirmou que ela teria "em torno dos 21 anos" em 1961, o falecimento teria sido em 1974.

COMPARAÇÃO COM AS MUSAS DE HOJE

Se compararmos as antigas vedetes com as "boazudas" surgidas a partir das garotas da "Banheira do Gugu" e das "musas do É O Tchan", nos anos 90, as "musas populares" de hoje estariam muito mais próximas do "Febeapá" que Stanislaw Ponte Preta lançou durante a ditadura do que as "certinhas" exaltadas por ele.

Sem qualquer dignidade, essas "musas" cometem gafes, na ânsia obsessiva de mostrar seus "dotes físicos". O "culto ao corpo" torna-se não um ato libertário, mas apenas um fim em si mesmo. Mesmo outras situações acabam sendo mais um pretexto para a exibição corporal dessas "musas", como se o mundo girasse em torno de seus glúteos e peitos siliconados.

Essas "musas" nada fazem de diferente. Não são capazes de fugir a esse contexto da exibição corporal, viram escravas de sua própria "liberdade (?!) do corpo". Se as antigas vedetes, repete-se, não eram intelectualizadas, elas tinham algo a dizer e podiam se desvencilhar de sua sensualidade, se quiserem.

Mas hoje as "musas populares" não. E, o que é pior, várias dessas "musas" já ultrapassaram o tempo de vida de Zaquia Jorge e Janette Vollu. Ou seja, muitas dessas "musas" já estão entre 32 e 38 anos e ainda "mostram demais" nas fotos e nas aparições públicas. Em outros tempos, elas teriam se retirado de cena, se casado e tendo outra coisa para fazer.

Só que hoje os tempos são outros, em que a mídia machista, extensão "sensual" da ditadura midiática, quer ainda mandar na falta de imaginário masculino nas classes populares. O império da "liberdade do corpo" sem a da alma reina, sob a inflação de glúteos e peitos siliconados.

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