sexta-feira, 23 de novembro de 2012

ALAIN VICKY E A CONSTRUÇÃO TENDENCIOSA DE UMA PROPAGANDA


Por Alexandre Figueiredo

Como transformar a "cultura de massa" em um aparente ativismo social? Dá para transformar o engajamento numa mercadoria? Até que ponto existem as fronteiras entre o comercial e o artístico? Por que os ritmos "populares" não incomodam a grande mídia?

São perguntas, muitas perguntas. E mostram o quanto a indústria cultural de hoje mostra situações inusitadas para as quais não cabem as velhas abordagens, o velho maniqueísmo entre o protecionismo das elites e a espontaneidade popular.

Lendo o Le Monde Diplomatique do corrente mês de novembro, na sua edição brasileira, é reproduzida uma reportagem lançada em agosto passado na edição original e na edição em inglês do referido jornal francês, nota-se que ela, que em português recebeu o título de "No ritmo do kuduro", mas que, em inglês, se intitula "Angola's defiant kuduro", indica essa nova situação da "cultura de massa".

A reportagem também segue o caminho tendencioso das propagandas de ritmos comerciais. O repórter Alain Vicky, em seu texto, tenta vincular o kuduro, um ritmo dançante de Angola, à rebelião popular daquele país africano. Ele inicia sua reportagem citando o poeta africano Arlindo Babeitos, que havia sido aluno do teórico da Comunicação, Theodor Adorno, um dos nomes da Escola de Frankfurt, a cena de intelectuais alemães que, durante a vigência do nazi-fascismo, se popularizou nas universidades dos EUA.

A reportagem ainda faz um breve histórico do Movimento Popular para a Libertação de Angola, que começou como um movimento ativista e guerrilheiro para depois tornar-se um partido político que havia sido vitorioso nas eleições presidenciais angolanas.

Aí é que se coloca o kuduro nesse contexto. O ritmo se ascendeu nessa época, aparentemente resultante de uma mistura de ritmos africanos tradicionais com hip hop e música eletrônica, e a reportagem atribui ao estilo uma "expressão das frustrações da juventude angolana".

Na prática, porém, o kuduro é apenas um ritmo pop dançante, mais próximo dos interesses comerciais do que de criar um suposto novo folclore. Ele se tornou mais conhecido pelo seu potencial comercial, mas o ativismo social tornou-se um pretexto para fortalecer seu marketing.

O mesmo discurso "engajado", numa época em que, para os jovens que consomem essa "cultura de massa" no mundo inteiro, "ativistas sociais" são Madonna e Lady Gaga, já foi feito com o miami bass dos EUA e, no Brasil, com a axé-music na Bahia, o "funk carioca" no Rio de Janeiro e o tecnobrega no Pará.

Imagine, por exemplo, se um repórter do New York Post, por exemplo, escrevesse nos anos 70 uma reportagem sobre a disco music começando com um depoimento do escritor beat William Burroughs, descrevesse a Contracultura estadunidense e até mesmo os Freedom Riders (movimento que defendia o fim da segregação racial nos terminais de ônibus daquele país) e atribuísse a era disco ao contexto da queda do então presidente Richard Nixon.

O kuduro é de tal forma comercial que o mercado europeu de dance music - o mesmo que, nos anos 90, foi largamente divulgado pela Jovem Pan 2 - mergulhou direto na "causa". E, no Brasil, nomes associados ao brega-popularesco mais rasteiro, como o funqueiro Latino e o grupo de "pagodão" Psirico, também passaram a tocar sucessos do kuduro.

Musicalmente, o kuduro não é mais do que uma mistura de house music com batidas caribenhas e alguma batida africana. É apenas uma "costura" de ritmos dançantes comerciais feita em Angola, o que não é pretexto algum para legitimar esse discurso "ativista". Até porque o kuduro não é coisa que um Ricky Martin e uma Shakira não possam fazer.

Mas é preciso que se venda modismos dançantes como se fossem "ativismo", porque isso faz com que os ritmos perdurem na popularidade e recebam, dos cofres estatais, investimentos permanentes. Em Angola existe até mesmo um "coletivo", o Coletivo Batida, um movimento de DJs ligados a uma emissora de rádio local.

O discurso "ativista" também se apoia nas "novas mídias", como se quisesse se desvincular do poder midiático, como tentaram, e ainda tentam, fazer os ritmos brega-popularescos do Brasil. Até mesmo a citação de um ex-aluno de Theodor Adorno, que em seu tempo havia alertado para os males da "cultura de massa", se apoia nessa ideia.

Afinal, vivemos uma rearticulação das estruturas midiáticas e o poder econômico busca, na verdade, novas estratégias para a manutenção de velhas estruturas sociais. O status quo político-midiático quer que o verdadeiro ativismo se limite aos países mais ricos, enquanto para os países pobres e emergentes o "ativismo" tenha que se limitar ao "espetáculo" como um fim em si mesmo.

Esse discurso usa a alegação de prosperidade econômica como se fosse a conquista feita pelas rebeliões populares. Tentam confundir uma coisa e outra, com um discurso sofisticado. Talvez até o É O Tchan tivesse sido melhor sucedido, se tivesse surgido quando foi desenvolvida essa retórica, uma tendência mundial patrocinada por George Soros e companhia, há dez anos atrás.

Só que usar a "cultura de massa" dos países pobres e emergentes como se fosse "ativismo social" é uma tese bastante tendenciosa, que tenta criar nesses países uma prosperidade que é apenas uma meta distante. Além disso, os ritmos envolvidos são meramente comerciais, e seu sucesso se deve mais ao dinheiro que gera, mas Economia nem sempre justifica a Cultura.

A reportagem em questão foi apenas uma construção tendenciosa de uma propaganda, um modo de criar uma narrativa que juntasse um mero ritmo dançante com a realidade sócio-política de um país. É o que vimos, com menos sutileza, no caso do "funk carioca", e cujo sentido de ativismo social é, na verdade, puramente falso.

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