quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A MPB E O SARRO DA MÍDIA "POPULAR"


Por Alexandre Figueiredo

A grande mídia propriamente dita até trata com certo respeito os nomes da MPB autêntica. Mas a chamada "mídia popular", movida a factoides e a sensacionalismo barato, parece tratar os nomes da MPB autêntica com um certo esnobismo, quando muito como "coisa boa, mas muito velha".

Hoje o jornal Expresso, o "News Of The World" brasileiro e de propriedade das Organizações Globo, havia colocado uma nota sobre a dívida acumulada pelo cantor Belchior em hotéis no Brasil e no Uruguai, onde também está sendo procurado pela polícia.

Sem querer detalhar nos problemas pessoais de Belchior, o célebre cantor e compositor de canções como a famosa "Como Nossos Pais", também gravada por Elis Regina, a exploração sensacionalista desta notícia e, três anos atrás, do aparente sumiço do artista, é fato que não deve ser subestimado.

Na verdade, a mídia "popular" tenta inverter as coisas. Trata os artistas da MPB autêntica como "aberrações" ou "exotismos", mesmo quando aparentemente exalta certos artistas. Já os ídolos brega-popularescos, mesmo figuras como Mr. Catra e Belo, são trabalhados pela mídia como "caras normais", como se eles fossem a realidade do povo e não a cultura brasileira de verdade.

Até mesmo Paulinho da Viola, aparentemente exaltado pela imprensa "popular" mais moderada - aquela que se dirige a um público de classe média baixa, como O Dia e Extra, este também das Organizações Globo - , é visto como uma preciosidade "admirável", mas "velha" e "ultrapassada", como se ele fosse um artista fora da realidade concreta das classes populares.

Uma grande injustiça. Paulinho, um dos maiores cantores-pesquisadores do samba, ao lado de Martinho da Vila, é, assim como este, capaz de transmitir as boas lições do ritmo para as novas gerações, embora dificilmente se veja um novo artista à altura dos dois mestres, já que as novas gerações preferem consumir o samba caricato, estereotipado e "colonizado" do "pagode mauricinho".

Mas esse tratamento ainda é relativamente elegante, se comparado com o que a mídia "popular" faz com outros grandes nomes da MPB, como Chico Buarque e Belchior. Chico, "inimigo número um" da intelectualidade ultrabadalada de nosso país, é tido pela imprensa "popular" como um bon vivant, galanteador e ocioso. Já Belchior, de uns anos para cá, virou um "garoto problema".

Belchior é até um dos nomes "vampirizados" pelos surtos pedantes dos ídolos neo-bregas, tendo a música "Como Nossos Pais" gravada por Ivete Sangalo e até Zezé di Camargo (com sua natural desafinação). Mas seu talento é ofuscado pela exploração midiática de sua excêntrica personalidade.

Há também casos dos bons mas "ultrapassados" Djavan e Milton Nascimento, ambos com fôlego para criarem novos clássicos para a MPB, até agora "escondidos" em seus discos mais recentes. São sempre elogiados na mídia "popular" mais moderada, porém desdenhados pela imprensa "popular" mais rasteira (tipo Meia Hora, Massa e Supernotícia, para os quais "sofisticação musical" é sinônimo de Thiaguinho, Bruno & Marrone e similares).

A MPB acaba sendo vista, neste filão da grande mídia brasileira, como algo secundário, quase estrangeiro. Pouco importam as origens suburbanas de Paulinho da Viola, em Madureira, e Martinho da Vila, de uma Vila Isabel bem menos urbana que hoje, eles são vistos pela mídia como se fossem estrangeiros, o que mostra a separação que os barões da mídia fizeram do povo pobre de seu próprio legado cultural.

Mesmo parte da classe média brasileira, e, pasmem, uma boa parcela com nível universitário, trata a MPB autêntica de forma secundária. Diz "sempre gostar" da boa MPB, acha suas canções muito lindas, mas se aparece Chico Buarque na TV Cultura no mesmo tempo que Luan Santana no Domingão do Faustão, é neste ídolo brega que vão dar preferência.

Além do mais, as rádios já quase não tocam os novos discos dos artistas da MPB autêntica. Como se Djavan tivesse parado em "Oceano" e "Te Devoro". As rádios "populares", nos anos 80, ainda colocavam alguma MPB entre um brega e outro, mas hoje nem isso ocorre mais. E as rádios especializadas em MPB são raríssimas no país.

Isso é um efeito das politicagens sucessivas que ocorrem no rádio de todo o Brasil, aliado ao esquema de jabaculê que empurrou, nas últimas décadas, centenas de ídolos bregas e derivados que fizeram acostumar mal o "gosto musical" do grande público. E isso não é "cultura das periferias", e sim a "cultura popular" que a ditadura midiática quer que o "povão" aprecie e curta.

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