quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A "MCDONALDIZAÇÃO" DA CULTURA BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

Há um bom tempo cresceram os questionamentos contra a pseudo-cultura "popular" trabalhada pela mídia, depois que a opinião pública foi surpreendida por uma engenhosa e maciça campanha intelectual comandada pelos barões da grande mídia (embora seus ideólogos não admitam isso).

Infelizmente, porém, a campanha intelectual tornou-se muito forte para consolidar a mediocrização cultural que avassala o Brasil sob o rótulo confortável de "cultura das periferias". O mercado se consolidou às custas da choradeira de intelectuais e famosos, e o dito "gosto popular" se acostumou a isso terrivelmente.

E esse mercado torna-se tão avassalador que as nossas verdadeiras tradições culturais estão correndo o risco de desaparecerem sob a apreciação cada vez mais isolada de especialistas ainda cada vez mais raros. Enquanto isso, a "ditabranda do mau gosto" atinge degraus mais altos da pirâmide social, quando a dita "cultura popular" veiculada pela grande mídia já se torna não só dominante, mas potencialmente totalitária.

Isso preocupa muito, porque, além da música de péssima qualidade que é veiculada pelas rádios e TVs, mesmo com arranjos comésticos que falsamente as "embelezam" para o consumo das elites - vide a pseudo-MPB de Belo, Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, Ivete Sangalo etc - , há também valores sociais retrógrados e decadentes, que, associados em tese às classes populares, são tidos como "modernos".

A cultura que era transmitida pelo convívio comunitário deu lugar àquela "cultura" cujos vínculos não são mais sociais, mas mercadológicos. A mídia impõe os "bens culturais" a serem apreciados pelo "povão". E isso se torna bastante tendencioso, na medida em que o "popular" aumenta ou baixa de nível conforme as circunstâncias, onde critérios de venda e projeção são mais considerados do que qualquer hipótese de progresso social.

O processo de transformação da "cultura popular" é tão cruel que ela se reduz a um fast food que temos que digerir por tempo indeterminado. Nós que aguentemos tudo isso durante uns 50 anos, e, o que é pior, os novos ídolos que surgem não suplantam os velhos, porque na mediocridade cultural o elenco de ícones aumenta sem parar, na medida em que os veteranos não se aposentam.

Tudo vira uma questão de consumo, enquanto os intelectuais usam e abusam de "relativismos" para legitimar um "processo social" que não existe. Afinal, não dá para justificar os mecanismos da indústria cultural com o folclore que esta mesma acabou ou ameaça acabar. É como se usasse a vítima para justificar o valor de seu carrasco.

EXISTE ATÉ EXPLORAÇÃO PROFISSIONAL

A "mcdonaldização" da cultura brasileira, a transformação dela em meros produtos de consumo "rápido e fácil", não só preocupa pelo seu caráter supérfluo ou pelo seu valor duvidoso, mas também pelo fato de que mesmo seu mercado de trabalho não é dos melhores.

No "funk carioca", no "pagodão" e arrocha baianos e no "forró eletrônico" (e, por conseguinte, o tecnobrega), por exemplo, o que se vê são relações subservientes de trabalho, um quase escravismo onde os empresários de grupos e cantores são donos de suas carreiras, ditando as regras de forma autoritária e estabelecendo relações de trabalho menos humanas.

Até mesmo a produção musical nada tem de artística. Os empresários definem até o tipo de comportamento que seus ídolos têm que adotar. Os ídolos funqueiros adotam até um "tipo de personalidade". As músicas são feitas de forma industrial e já houve denúncias de disputa de quem vai gravar primeiro determinados sucessos do "forró eletrônico".

Já houve tragédia na disputa de dançarinas para um grupo de "forró eletrônico" do Espírito Santo, que não é um Estado nordestino nem nortista, o que diz muito para o fato de que o brega-popularesco não passa de uma linha de montagem sem qualquer compromisso com as expressões regionais.

Essa degradação cultural é comparável às denúncias que se fazem da exploração profissional desumana que a rede de lanchonetes McDonald's faz no Brasil. E seu equivalente na música brasileira não pode ser menosprezado nem desmentido pelo relativismo dos intelectuais da moda, porque seus argumentos alegremente "pós-modernos" nem de longe conseguem esconder os dramas que estão por trás disso tudo.

O que há é comércio, consumo, publicidade. É tudo mercado. As alegações de "verdadeira cultura" fazem parte do discurso publicitário travestido de acadêmico. Mas eles não dizem a verdade, como toda campanha publicitária. Só servem para prolongar modismos e fortalecer mercados. A cultura popular de verdade sai perdendo.

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