domingo, 18 de novembro de 2012

A INVERSÃO RETÓRICA DA INTELECTUALIDADE DOMINANTE


Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade dominante no Brasil engana. Ela é capaz de defender a "cultura de massa" dizendo que está defendendo a renovação do folclore brasileiro, lançando mão até de monografias e documentários, se for preciso, só para reafirmar o status quo dos chamados "sucessos do povão".

A inversão discursiva que eles fazem é notória. Mesmo usando de artifícios acadêmicos ou de narrativas sofisticadas - como o Novo Jornalismo de Tom Wolfe ou a História das Mentalidades de Marc Bloch - , defendem teses absurdas, ilógicas, travestindo os problemas vividos pelas classes pobres com um glamour que maquia a pobreza, transformando-a num brinquedo visual para as elites.

Essa inversão do discurso permite até mesmo que Pedro Alexandre Sanches, discípulo das ideias do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, defenda os pontos de vista da Folha de São Paulo nas páginas de Caros Amigos e Fórum. As ideias falam alto, de um neoliberalismo gritante, mas Sanches camufla tais ideias evocando palavras soltas do vocabulário esquerdista (Che Guevara, reforma agrária, esquerda etc).

O "funk carioca" é outro exemplo dessa inversão discursiva. Machista, tenta se passar por "feminista" às custas de funqueiras que só querem sexo e falam mal dos homens. Até a pedofilia nos "bailes funk" é justificada pela desculpa da "iniciação sexual das jovens pobres".

Qualquer baixaria que o "funk carioca" faça é justificada pelo engenhoso discurso intelectual, que, se preciso, faz apologia até dos "proibidões", argumentando, habilidosamente, que o termo é "preconceituoso" quanto às "denúncias" (?!) da "realidade vivida" nas favelas. E se há muita pornografia, põe na conta de Gregório de Matos, falecido há mais de 300 anos.

Esses intelectuais tão badalados que lotam plateias e possuem ampla visibilidade, praticamente monopolizando os ambientes acadêmicos e tornando-se senhores das "verdades tropicais" atuais, até gracejam quando acusamos a pseudo-cultura brega-popularesca de alienada, como se as leis do mercado ou a despolitização de seus ídolos "fizesse parte" da espontaneidade das periferias.

Eles usam até uma frase clichê para gracejar dessa alienação, sobretudo quando se relacionam a um determinado "artista": "Enquanto chovem acusações de alienação, fulano passa ao largo disso com plateias lotadas, discos vendidos e aparecendo o tempo todo no rádio, nas revistas, na televisão e na Internet".

Citar a CIA, então, nem se fala. A "nossa" intelectualidade acha isso "um absurdo". Baixa um chilique tipo José Serra - embora esses intelectuais, felizes em serem "contraditórios", tentem dizer que "odeiam" o PSDB - e eles dizem que isso "nada tem a ver", que isso é uma tese conspiratória ridícula e que a "cultura de massa" brasileira é a "mais pura e sincera expressão das comunidades pobres".

A inversão tem suas "pérolas". Traveste seu neoliberalismo com jargões esquerdistas, promove o povo subordinado pela indústria brega-popularesca a uma "multidão autossuficiente das periferias". Transforma os todo-poderosos empresários do brega-popularesco em "humildes produtores culturais". Converte a despolitização do povo pobre num "outro tipo de consciência popular".

Para piorar, a intelectualidade credita o mero processo de consumismo submisso do "povão" para a "cultura de massa" como se fosse "rebelião popular". A rádio e a TV "mandam" o povo ir ver os ídolos por elas promovidos, e o povo vai que nem gado aonde eles se apresentam, e a intelectualidade vai logo atribuindo a isso um suposto "ativismo social" que no fundo não tem pé nem cabeça.

Os valores retrógrados, quando associados às classes pobres, são vistos como "outros valores modernos". O machismo, a degradação da imagem da mulher, a pedofilia, se tudo isso ocorre nos subúrbios e nas roças, eles passam a ter "outras visões". O machismo "vira" feminismo, e a pedofilia "vira" uma iniciação sexual das jovens pobres.

Até mesmo o "mau gosto" se transforma em "causa nobre", com a conversão, pela retórica intelectualoide, da degradação sócio-cultural das classes populares em "algo diferente das nossas concepções higienistas (sic)". A intelectualidade nos aconselha a ficarmos preguiçosos na análise crítica da realidade popular, deixando tudo como está, porque é "uma outra beleza (sic) que nós não compreendemos".

Dessa feita, a intelectualidade que deveria ser a primeira a defender a melhoria das classes populares, no entanto é a que mais impede que isso aconteça. Basta que o espetáculo neoliberal da "cultura de massa" renda muito dinheiro e prometa, ainda que teoricamente, a "emancipação social" e o "recreio feliz" das populações das periferias e roças.

A intelectualidade dominante não quer o fim do analfabetismo, nem a regulação da mídia, nem a reforma agrária, nem o aperfeiçoamento das leis trabalhistas, nem a melhoria de nossa cultura. Isso lhes é frescura, é "higienismo social". Esses intelectuais preferem ver o povo pobre abobalhado, submisso à mídia, porque para eles é uma "concepção ideal de povo feliz". Daí seu etnocentrismo.

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