domingo, 11 de novembro de 2012

A ILUSÃO DE QUE A ECONOMIA RESOLVE TUDO NO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

Um terrível cacoete existente no Brasil é a crença na ilusão de que a Economia resolve tudo no Brasil. Mesmo entre os analistas de esquerda, a utopia contamina até mesmo a visão dos movimentos sociais ou das medidas em prol da inclusão social e da qualidade de vida.

A Economia é apenas um aspecto nos fenômenos sociais. Podemos dizer, é só um detalhe. É verdade que muitas coisas têm um custo financeiro na vida humana, mas isso não quer dizer que tenhamos que viver numa ótica dinheirocentrista.

Até mesmo medidas paliativas como Bolsa Família e as cotas raciais nas universidades públicas são superestimadas. Essas medidas são provisórias, dentro de um quadro de crise sócio-econômica em que se vive. Mas não podem ser consideradas medidas permanentes ou definitivas.

A euforia que se tem em torno dessas medidas, nos círculos esquerdistas, e a cegueira com que se defende essas medidas, preocupa. Afinal, é preciso que, junto às medidas de inclusão social paliativas, se façam outras medidas que combatam os problemas pela raiz.

Afinal, de que adianta a inclusão universitária se as escolas média e fundamental são ruins? A ineficiência viciada das escolas de ensino médio, com professores mal formados e mal remunerados, não pode ser dissimulada com o maior índice de cotas raciais nas faculdades.

É necessário mexer no problema e transformar os programas de ensino médio e fundamental em programas bem mais substanciais, que transmitissem uma gama mais abrangente de conhecimentos. Mas mesmo muitos apreciadores do tema Educação são surdos até mesmo às análises mais banais feitas pelos nossos grandes pensadores, como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Paulo Freire, só para citar os mais conhecidos.

Da mesma forma, o Bolsa Família não traz em si a transformação na estrutura social como um todo. Como medida paliativa, ela é válida, para socorrer famílias numerosas que vivem sérias dificuldades econômicas. É uma motivação urgente, que traz sentido à medida. Mas da forma como é valorizada, e supervalorizada, por autoridades e tecnocratas, a medida acaba sucumbindo para o supérfluo, com seus vícios e preguiças.

DESIGUALDADES E MEDIOCRIDADE

As desigualdades continuam ocorrendo, porque a estrutura de poder e de privilégios continua existindo. As medidas apenas diminuem a gravidade de seus efeitos e o número de atingidos, daí o nível paliativo. Mas isso não resolve em todo o problema nem traz benefícios definitivos para a sociedade.

Primeiro, as cotas raciais, dentro de um contexto de banalização do ensino universitário, são mais desafios que benefícios para pessoas que, por conta de sua condição social, tiveram escolaridade básica precária. As universidades precisam dar a eles, além de sua instrução específica, um aprendizado adicional que compense e escolaridade deficiente dos professores com formação precária e salários insuficientes.

A multiplicação de universidades privadas, a mercantilização do ensino superior - que, na prática, atende aos anseios da ditadura militar e do USAID, entidade norte-americana que patrocinou o sucateamento do ensino no Brasil - e o aumento meramente quantitativo do acesso de jovens às universidades, mostra o quanto tais medidas em pouco contribuíram para a melhoria da situação das universidades em geral.

Já no caso do Bolsa Família, ela em tese apenas socorre famílias muito pobres - desconta-se os casos de corrupção em que o benefício é desviado para pessoas abastadas e não necessariamente com muitos filhos para criar - , mas não rompe com as estruturas de poder que promovem as desigualdades sociais, como o coronelismo político no interior do país.

Além do mais, essa euforia de que a Economia resolve tudo, tão comum nas esquerdas corporativistas, ainda se estende para o âmbito cultural, onde os debates se limitam puramente à viabilização financeira das expressões artísticas, sejam elas autênticas ou bastardas.

NEM TUDO É VIABILIDADE FINANCEIRA

A ilusão de que a viabilidade financeira resolve todos os problemas da nossa cultura é que ela acaba protegendo o processo de mediocrização cultural e, não bastasse que o Bolsa Família e as cotas universitárias não representam uma ruptura com as estruturas de poder desigualitárias, essa mediocrização não rompe com as estruturas de poder da grande mídia.

O discurso intelectual que havia, por exemplo, vendido o "funk carioca" e o tecnobrega como "movimentos" que supostamente promoviam a cidadania e a inclusão social, mesmo transitando nos círculos esquerdistas mais flexíveis e ideologicamente frágeis, é o mesmo que se vê, tranquilamente, na velha grande mídia, respaldado, explicitamente, pelos mesmos barões midiáticos do qual a intelectualidade foge de qualquer associação.

Além do mais, tudo é uma questão somente de dinheiro, mas a crise de valores em que se vive não é superada. Pelo contrário, põe-se a sujeira por debaixo do tapete, mesmo. Os valores sociais mais retrógrados, quando ocorridos no seio das classes populares, são vistos pela intelectualidade influente como se fossem uma "nova moral", como se o que ocorre de negativo nas classes abastadas fosse "positivo", quando ocorrido nas classes mais pobres.

A mediocridade cultural não traz conhecimentos nem garante progresso moral, social e intelectual para as classes populares. Pelo contrário, ela acaba prorrogando a validade de valores retrógrados, associados à pieguice emocional mais reacionária, às baixarias morais, à violência e mesmo ao racismo e ao machismo mais discriminatórios e humilhantes.

Não há como relativizar neste caso. A mediocridade cultural, sustentada pelo dinheiro dos empresários de ídolos musicais e celebridades que dominam a grande mídia, pode significar uma grande prosperidade cultural, no qual qualquer ameaça de ostracismo é facilmente socorrida pela divulgação maciça de novos factoides na mídia.

No entanto, é o supérfluo se passando por permanente, e, o que é pior, com valores retrógrados transmitidos em redes nacionais, apoiadas pela Internet e recicladas pelo gosto popular. Os empresários associados a tudo isso se enriquecem. E a prometida cidadania não acontece. É bom nossos analistas de esquerda abrirem seus olhos.

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