quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A FESTA DO "MENSALÃO" E A RESSACA DO "CACHOEIRODUTO"


Por Alexandre Figueiredo

Depois da festa do julgamento do "mensalão", o Supremo Tribunal Federal quer agora apressar os desfechos dos julgamentos do "mensalão" mineiro e do "cachoeiroduto", esquema de corrupção comandado pelo bicheiro goiano Carlinhos Cachoeira, a pretexto de encerrar os trabalhos no final do ano.

Diante do contexto político e midiático de hoje, sabemos o caráter tendencioso dessa pressa, que é o de evitar aprofundar as investigações que prejudicariam os envolvidos, que são pessoas ligadas direta ou indiretamente ao PSDB e aos seus interesses.


Com a liberação do bicheiro goiano Carlinhos Cachoeira, condenado a cumprir, em regime semi-aberto, os cinco anos de condenação por fraude no esquema de bilhete eletrônico no transporte coletivo em Brasília, que é apenas um pequeno aspecto do gigantesco esquema do bicheiro goiano, mas que certamente assusta a tecnocracia da "mobilidade urbana" sobretudo do Rio de Janeiro e de Curitiba.

O desembargador Fernando Tourinho Neto, do Tribunal Regional Federal da Primeira Região, a "poeira assentou", tirando, a seu ver, a necessidade de Carlinhos Cachoeira continuar preso porque a Operação Monte Carlo havia desmontado o esquema de jogos de azar comandado pelo bicheiro. Atitude imprudente. Cachoeira, solto, irá montar outro, com certeza.

A CPMI de Carlinhos Cachoeira continua sob a dispensa de muitos envolvidos de deporem no inquérito. Isso é mal. Boa parte do esquema comandado pelo bicheiro goiano deixou de ser revelada quando possíveis envolvidos como o governador fluminense Sérgio Cabral Filho, amigo de Fernando Cavendish, ex-presidente da Delta Construtora, e o jornalista de Veja, Policarpo Júnior, foram dispensados de depor.

Nem o empresário Roberto Civita chegou a ter sua convocação cogitada pra valer, e ele também dificilmente irá depor, o que evita o Grupo Abril, aliado fiel do PSDB, de sofrer o mesmo escândalo que fez a News Corporation tirar de circulação o britânico News Of The World e viver uma das piores crises envolvendo um grande grupo de mídia no exterior.

Enquanto isso, a grande mídia comemorou o desfecho do julgamento do "mensalão", transformando Marcos Valério em coadjuvante e condenando José Dirceu e José Genoíno a vários anos de prisão, derrubando a reputação de figuras históricas da luta contra a ditadura.

Acreditamos que Dirceu e Genoíno participaram da corrupção, mas preferimos não considerá-los chefões do esquema. E sabemos que a condenação dada a Dirceu, por exemplo, foi muito cruel, na medida em que ele foi condenado a ficar inelegível até 2031, um prazo de quase 20 anos, quase que uma aposentadoria antecipada, pois Dirceu tem hoje 66 anos e terá 85 anos quando terminar a sentença.

Nem Fernando Collor sofreu tanto. Pelo seu esquema de corrupção, bem mais grave, o ex-presidente foi condenado a ficar inelegível por oito anos, e em 2005 já havia sido reabilitado pelo amigo Domingos Alzugaray - um barão da mídia de "segundo time", a chamada "mídia boazinha" - que conseguiu colocar Collor no Senado Federal sob uma engenhosa (e generosa) campanha da revista Isto É.

Também não acreditamos que o Supremo Tribunal Federal e outros órgãos do Judiciário tenham feito bagunça total através do "mensalão". Há exageros de todo lado, à esquerda e à direita. O corporativismo das esquerdas médias desqualificou o STF e transformou Joaquim Barbosa, atual presidente do órgão depois da aposentadoria do antigo titular, Carlos Ayres Brito, em "joguete da mídia".

Isso mostra o quanto a corrupção é muito complexa. É uma grande teia de interesses difícil de desmontar. De um lado transformam-se Dirceu e Genoíno nos maiores corruptos do Brasil, de outro transformam os ministros do STF necessariamente em "irresponsáveis".

A festa midiática do "mensalão" agora quer se transformar numa ressaca diante do "cachoeiroduto", já que os interesses da grande mídia, fartamente satisfeitos com o desfecho do caso do "mensalão", tentam tirar o corpo fora quando as investigações vão contra seus aliados.

Os interesses fisiológicos do PT permitiram o envolvimento com o "mensalão". O tendenciosismo de alguns ministros do STF, como Gilmar Mendes, agem pelos interesses do PSDB. O "moralista" Eduardo Azeredo, patrocinado por Marcos Valério, quer censurar a Internet com medo da blogosfera. E as brechas da lei acabam poupando Cachoeira e os tucanos aliados, abrindo caminho para novas corrupções.

Assim não há injustiça que acabe neste país.

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