quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A "DIREITA MODERNINHA" E A "ESQUERDA ENGOMADINHA" DA MÚSICA BRASILEIRA


Por Alexandre Figueiredo

No artigo de Caros Amigos do mês passado, Pedro Alexandre Sanches havia citado a "direita moderninha" de Roberto Carlos e a "esquerda engomadinha" de Chico Buarque para citar a tal "terceira via" de Tom Zé, enfocado em seu texto da coluna "Paçoca".

Quem acompanha este blogue, acaba entrando mais em contato com a análise das ideias de Sanches do que qualquer leitura apressada e sem verificação de seus textos na revista Fórum e Caros Amigos. Os leitores de Carta Capital, mais cautelosos, sentiram a herança neoliberal nos textos do jornalista, alinhado com a tese de "fim da História" de Fukuyama para a Música Popular Brasileira.

O que ele quis dizer com a "direita moderninha" de Roberto Carlos e a "esquerda engomadinha" de Chico Buarque? Ele havia escrito um livro sobre Roberto Carlos, Como Dois e Dois São Cinco, e aparentemente admitiu o perfil conservador do cantor.

No entanto, os ideólogos que defendem o brega-popularesco (para quem não sabe - o termo é inédito na grande imprensa - é a "cultura popular" de mercado veiculada pela grande mídia) veem Roberto Carlos como uma espécie de "lado B" do Tropicalismo e um dos "padrinhos" do movimento, por ter difundido a guitarra elétrica na música brasileira.

Mas Roberto é também, devido à fase brega-romântica iniciada quando lançou seu primeiro especial da Rede Globo - que, para o "Elvis brasileiro", se tornou seu "coronel Parker" - , um dos patronos da música brega brasileira, pois a partir dele vieram nomes como Odair José e Paulo Sérgio, a atuação de seus ex-colegas da Jovem Guarda, Michael Sullivan e Paulo Massadas e uma geração de neo-bregas dos anos 90 claramente influenciadas pelo ídolo capixaba, como Leonardo, Zezé di Camargo & Luciano, Belo e Alexandre Pires.

Talvez a reputação de Roberto Carlos tenha sido "manchada" pela polêmica causada pelo maior ideólogo da música brega, Paulo César Araújo, que havia escrito um livro sobre o cantor, Roberto Carlos em Detalhes, sem poder ter entrevistado o próprio. Roberto não havia gostado do que leu e moveu processo contra o historiador.

Com isso, o coração um tanto partido e dividido da intelectualidade etnocêntrica - que via em Roberto Carlos um modernizador da música brasileira "mais representativo" que João Gilberto - , depois de uma certa hesitação, preferiu seguir o historiador Araújo, admirando o "Rei" de longe, mas admitindo que ele é tomado de "surtos conservadores".

Já a "esquerda engomadinha" de Chico Buarque é um termo claramente pejorativo, porque o verdadeiro inimitável - na medida em que Roberto Carlos foi imitado por Odair José, Paulo Sérgio e até pelo cantor evangélico J. Neto - , porque além de compositor peculiar, o filho de Sérgio Buarque de Hollanda é capaz de dar opiniões e análises sobre os fatos como ninguém, virou a "geni" da intelectualidade badalada de hoje.

Chico Buarque é considerado galã e, como artista, é claramente influenciado pela sofisticação da Bossa Nova. Isso é fato. Mas o que incomoda a intelectualidade é a incapacidade de Chico Buarque ser "vendido" para o "livre mercado". Não nos iludamos: Pedro Alex Sanches, PC Araújo, Ronaldo Lemos e outros são entusiastas do "livre mercado" musical.

Eles criam discursos "revolucionários", "subversivos", "esquerdistas", "modernistas" etc evocando Che Guevara, Oswald de Andrade, Leon Trotsky, Malcolm McLaren e seja quem for, falando que a indústria fonográfica "morreu", que a mídia está "agonizante", que o mundo será governado por um clique de mouse etc etc etc. Mas tudo isso é feito para defender ideias mais neoliberais do que o neoliberalismo que seus ideólogos dizem "combater".

Daí a aparente evocação de Pedro Alexandre Sanches da "terceira via" tropicalista de Tom Zé - talvez porque ele acolheu Criolo e Emicida em seu disco recente, agradando o jornalista - , do seu "Tropicalismo mais à esquerda".

No entanto, não nos iludamos. A julgar pelo itinerário tropicalista e por uma certa complacência que Sanches tem com Gilberto Gil e Caetano Veloso - sobretudo quando se vê que os estilos discursivos de Sanches e Caetano, este colunista de O Globo, são parecidos, o que indica forte influência deste para aquele - que acabam terminando em Roberto Carlos, já dá para perceber uma coisa.

Entre a "direita engomadinha" de Roberto Carlos e a "esquerda engomadinha" de Chico Buarque, Pedro Alexandre Sanches, tal qual a "terceira via" de Tony Blair, no fundo prefere a primeira opção.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...