sábado, 10 de novembro de 2012

A 89 FM NO CONTEXTO DA VELHA GRANDE MÍDIA HOJE


Por Alexandre Figueiredo

Informações dos bastidores do rádio de São Paulo anunciam a provável volta da programação "roqueira" da 89 FM, aquela que marcou a emissora sobretudo entre 1987 e 2006. No entanto, a rádio irá retornar num contexto completamente diferente de quando passou a ser uma rádio pop comum, há seis anos atrás.

A 89 FM nunca foi uma rádio de rock verdadeira, que juntasse não somente um repertório musical roqueiro, mas uma linguagem e uma mentalidade próprias. A 89 FM, em sua história, em que pese a força publicitária do logotipo e da expressão "A Rádio Rock" numa fonte gráfica impactuante, nunca foi além de um mero vitrolão "roqueiro", mas com uma linguagem que sempre se aproximou de uma rádio pop comum.

Na melhor das hipóteses, a 89 FM, nos seus primeiros tempos - de dezembro de 1985 a meados de 1987 - , parecia reunir o melhor da MTV norte-americana (cujo formato era então inédito no Brasil), a filosofia da carioca Estácio FM e alguns elementos da Rádio Fluminense FM mais inofensivos. A emissora paulista dos 89,1 mhz nunca exerceu a missão revolucionária de rádios como a Fluminense e a paulistana 97 Rock.

Mesmo o tal projeto "anti-rádio", de Luiz Fernando Magglioca, primeiro coordenador da 89 FM, era apenas uma tradução mais comportada do estilo original da Fluminense FM de Niterói, mas com o acréscimo de uma mentalidade mais próxima da MTV original. No entanto, vale ressaltar que, do contrário que se alardeia, a MTV nunca foi um canal de rock, mas um canal eclético de música jovem.

Isso fez a diferença negativa da 89 FM, que acabou perdendo suas poucas e banais virtudes para aderir ao comercialismo que atingiu as últimas consequências em 2006. Já em 1988 dava para notar uma mentalidade pop na emissora, até mesmo na locução, distanciando da linguagem e da personalidade rock necessária para uma rádio do gênero.

Quem acompanha a Internet, a história é conhecida. A 89 FM diluiu gradualmente o formato rock de tal forma que, em 2006, a emissora dava mais destaque para programas humorísticos, debates esportivos e entrevistas com celebridades, numa linguagem mais próxima do SBT, que chegou a ter o locutor da 89, Zé Luís, como contratado.

A diluição eliminou a credibilidade da 89 FM diante do público roqueiro, mas fez a rádio se tornar popular diante de um público menos radical, supostamente "roqueiro", porém mais identificado às tendências comerciais dos anos 90, como o poser metal, e ideologicamente mais conservadores.

MUDANÇAS DE CONTEXTO

É esse o público que comemora a possível volta da 89 FM, cuja decadência se deve ao fato da emissora não ter acompanhado as transformações da cultura rock no exterior e ao reacionarismo de seus defensores, que não suportavam ver a emissora sendo contestada em larga escala nas redes sociais.

A volta da 89 FM pegará a rádio sem a força de antes, com a imagem abalada desde 1995, quando a mídia não aguentou conter a indignação dos roqueiros contra uma "rádio rock" com QI de FM de pop dançante. A indignação cresceu e continua crescendo, sem falar que a 89 FM encontrará um cenário cultural e midiático pouco favorável para sua reputação.

Primeiro, porque a velha grande mídia, como um todo, está sendo amplamente questionada pela blogosfera. No auge da 89 FM, até a revista Veja era um totem sagrado, embora a Folha de São Paulo, tida como paradigma de "jornalismo moderno" no Brasil, fosse ainda mais inabalável e muito mais sagrada.

Em comparação à Fluminense FM, a 89 FM tem um quadro empresarial mais conservador. A Fluminense dos anos 80 tinha como dono o antigo político pessedista Alberto Francisco Torres, jornalista já idoso, e seus radialistas eram de um círculo social que incluiu descendentes de João Goulart e seus aliados. Já os donos da 89, José Camargo e seus filhos Neneto e Júnior, são uma conservadora oligarquia paulista, sendo José um ex-filiado da ARENA e do PDS.

Há 20 anos atrás, auge da 89 FM, não havia Internet, a cultura rock autêntica - aquela que não segue os ditames do hit-parade, não aprecia o poser metal e não teme curtir bandas pouco conhecidas - estava sendo marginalizada e expulsa do rádio, com seus conhecedores especializados do gênero perdendo a chance de entrar no rádio e se limitando a consertar aparelhos de rádio e TV nas oficinas.

O radialismo rock, já nos microfones, passava a ser comandado por garotões que correspondiam ao excedente de locutores habilitados para rádios pop, que vendo a ampla concorrência decidiram passar a perna nos verdadeiros radialistas roqueiros, tirados do páreo. Daí a linguagem Jovem Pan 2 das "rádios rock" que passaram a vigorar nos anos 90.

Só que a diluição teve seu preço, e a cultura rock, diluída (com todas as exaltações à Billboard e às demais corporações do hit-parade feitas pela 89), deu lugar a uma cultura eclética que aprecia tanto Guns N'Roses quanto Britney Spears, e que faz qualquer Backstreet Boys ter defensores tão fanáticos quanto uma 89 FM "roqueira".

Isso se deve à geração de intérpretes que juntam atitudes e elementos sonoros que mesclam os clichês roqueiros dos anos 90 e um forte apelo de pop dançante, que em aspectos variáveis gerou nomes como Shakira, Pink, Lady Gaga, Kelly Clarkson e os atores-cantores dos canais Disney e Nickelodeon.

Além do mais, o público jovem convencional brasileiro conhece mais o som roqueiro através de caricaturas de última categoria como Restart e na diluição do folk rock feita pelo "sertanejo universitário", como Victor & Léo e Luan Santana, ou por alguns grupos de "pagode romântico", como o Sambô. Recentemente, houve um tributo "roqueiro" para o grupo de "pagode romãntico" Raça Negra.

Além disso, o rock clássico dos anos 60 e 70 e o rock pós-punk dos anos 80 passaram a ser rejeitados pelos "roqueiros" que ouviam a 89 FM e, no Rio de Janeiro, a Rádio Cidade, mais apegados no "som dos anos 90".

RÁDIO SOA VELHA DEMAIS PARA OS DIAS DE HOJE

A fórmula da 89 FM soa muito velha. E nem tanto pelo repertório. Prisioneira do seu "estilo", a rádio não deve avançar muito para um formato ao mesmo tempo abrangente e renovado de radialismo rock, mesmo com a concorrência da Kiss FM. A emissora se apegou à sua linguagem pop e à sua grade inspirada na Jovem Pan 2,  sob todos os aspectos, o que fez a rádio ficar longe até do que deveria ser o básico em radialismo rock.

E nem tanto pelo repertório, porque a emissora nem de longe se compromete a tocar os velhos clássicos do rock, a não ser uns poucos megassucessos. A 89 está velha pela sua mentalidade um tanto provinciana, um "radialismo rock à moda da casa" que não condiz com a realidade do segmento rock, nem no Brasil e muito menos no resto do mundo, onde cada vez mais o público de rock se torna mais exigente e foge das rádios mais superficiais (que, além do mais, jogam locução em cima das músicas, atrapalhando a audição).

A 89 tende a ser apenas um "clube" de uns poucos jovens abastados, de perfil ideológico mais conservador apesar da falsa rebeldia, da irritabilidade fácil - se bem que o ultradireitista Reinaldo Azevedo, por exemplo, tem o mesmo pavio curto da "nação roqueira" da Rádio Cidade, "irmã" carioca da 89 - e do impulso de falar palavrões e enviar mensagens jocosas ou agressivas. Jovens cuja noção de "rock" se limita puramente a umas poucas bandas grunge, além dos grupos de poser metal, poppy punk e nu metal.

Embora a 89 use e abuse da palavra "rock" e seus derivados, como "roquenrol", os fanáticos da 89 FM mostram que seu saudosismo tem muito pouco a ver com o verdadeiro som rock, mas com os elementos não-roqueiros da 89, como humorísticos, mesas redondas e papo com famosos, embora através de programas cuja razão de ser está na embalagem "roqueira" que não condiz ao conteúdo.

Para eles, o "rock" se resumirá a Guns N'Roses, Alice In Chains, Bon Jovi, Offspring, Charlie Brown Jr., Lenny Kravitz e alguns nomes convencionais. Ninguém pode esperar que a 89 FM despeje as maiores preciosidades de bandeja. Se ela tocar os sucessos mais conhecidos da fase progressiva do Pink Floyd, que qualquer rádio de adulto contemporâneo pode fazer, o pessoal tem que agradecer aos céus.

A 89 FM pode causar um rebuliço nos primeiros meses de retorno. Mas, quando virar rotina a emissora será mais uma no mercado jabazeiro do rádio FM, com seus fanáticos isolados numa "tribo" que não se entende com o pop convencional, por causa do pretensiosismo "roqueiro", e nem se entende com o público de rock autêntico.

A 89 FM se comportará mais como uma "rádio comunitária" de pseudo-rebeldes, enquanto se enquadra no contexto da mídia reacionária do CQC (Marcelo Tas já trabalhou na 89), do Pânico da Band, da Folha de São Paulo e Veja (cujos donos faziam blindagem com a rádio nos anos 90) e da Globo (que chegou a fazer merchandising da 89 no Jornal Nacional). E mais: os donos da 89 são muito queridos pela revista Caras.

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