segunda-feira, 29 de outubro de 2012

VITÓRIA DE HADDAD CONSAGRA DECLÍNIO DO PSDB EM SP


Por Alexandre Figueiredo

Depois da vitória no primeiro turno de Carlinhos Almeida em São José dos Campos, a vitória de outro petista, Fernando Haddad, para a prefeitura de São Paulo, consagra a decadência do PSDB e dá início ao processo de declínio de um ciclo ideológico em que o tucanato era considerado sinônimo de "modernidade" e "racionalidade".

Embora tenha repercutido mal, a princípio, a famosa foto de Paulo Maluf junto a Haddad e Lula, as propostas de Haddad e outros fatores como o apoio que os movimentos sociais davam ao candidato se sobressaíram ao incômodo respaldo de Maluf.

O próprio José Serra contribuiu para a derrota eleitoral. Antipático e arrogante, o outrora líder estudantil e um dos símbolos dos chamados "ex-querdistas" (esquerdistas que migraram para a direita), atualmente economista e empresário, demonstrava antipatia até mesmo com profissionais da imprensa aliada.

Mesmo para Miriam Leitão, uma das "divas" do conservadorismo midiático, José Serra se comportou de forma indelicada, mostrando sua intolerância com determinadas perguntas. E na eleição recente até mesmo a Datafolha e as Organizações Globo tiveram que "engolir" a derrota de Serra.

Até mesmo Fernando Henrique Cardoso começava a ficar incomodado com seu antigo pupilo, que se tornou seguidor do sociólogo já nos tempos em que este pregava as ideias da Teoria da Dependência que no âmbito da cultura influenciou até mesmo Hermano Vianna e o possível aspirante a "ex-querdista" Pedro Alexandre Sanches.

Mas a antipatia de José Serra havia também contagiado outras figuras que o apoiavam. Soninha Francine, outra "ex-querdista", havia dirigido, no Twitter, um palavrão para xingar Fernando Haddad, que repercutiu mal e a ex-VJ da MTV, antes muito simpática e graciosa, recorreu ao famoso "huahuahuahuah" típico dos troleiros.

Há também o pastor evangélico Silas Malafaia, espécie de "Ratinho" dos evangélicos pelo seu estilo grotesco de pregação religiosa, que com seu ultraconservadorismo também mostrou-se um cabo eleitoral de Serra por demais reacionário, indigesto para estimular o eleitorado laico a apoiar o tucano.

Evidentemente, a grande mídia começou a falar bobagens. A comentarista política Cristiana Lobo disse que Haddad era o "mais tucano" do PT escolhido para concorrer à prefeitura. É certo que o PT de hoje adota programas neoliberais em seu projeto político, e isso é quase generalizado no establishment do partido, mas é equivocado chamar Haddad de tucano, com os rumos quase medievais que o partido de Serra e Geraldo Alckmin andou seguindo nos últimos anos.

A revista Veja deu menos destaque à vitória de Haddad. No portal da revista, houve a preferência de colocar, em primeiro plano, a foto do prefeito eleito de Curitiba, Gustavo Fruet, do PDT. Para o reacionarismo doentio de Veja, é dos males o menor ofuscar a vitória de Haddad, rival do candidato defendido febrilmente pela revista, mostrando o campeão de outra cidade, ainda que este tenha o PT como coligado em sua chapa.

Fruet havia derrotado Carlos Massa Jr., o Ratinho Jr., o filho do famoso apresentador de TV Ratinho, símbolo da mídia popularesca dos anos 90. Ratinho Jr., do PSC, poderia colocar a moderna Curitiba - cujo sistema de ônibus está numa decadência sem freio - sob uma administração tecnocrático-populista, mas sua derrota abriu caminho para um político sem muitas surpresas, mas menos popularesco.

Quanto a Haddad, sua vitória foi reconhecida até mesmo por Marta Suplicy, que a princípio ficou indignada com a escolha dada a ele, e não a ela, para concorrer à prefeitura de São Paulo. Essa postura mais calma se deve sobretudo à boa recepção que o meio artístico e intelectual deu a ela ao assumir o Ministério da Cultura, dando fim ao corporativismo do ECAD da gestão anterior.

O que a vitória de Fernando Haddad representa, para São Paulo, é o fim do ciclo de domínio do PSDB, partido que parecia ideologicamente moderado e, sob a cumplicidade do PFL/DEM, mergulhou num processo de reacionarismo rabugento que fez os tucanos serem até mesmo pouco sutis ao lidar com a opinião pública.

A arrogância de José Serra, que até 30 anos atrás era impensável, quando o ex-líder estudantil e anistiado pela fase de abertura da ditadura militar, era uma "unanimidade". Hoje figuras como José Serra, Geraldo Alckmin e Fernando Henrique Cardoso, pelos seus erros políticos mais grotescos, perderam, e muito, daquela aura de "superioridade" que ainda se dá a tecnocratas e autoridades.

Fala-se que José Serra irá se aposentar da política. Em todo caso, as derrotas eleitorais recentes foram demais para ele. Mas o maior abalo foi dado contra o PSDB como um todo, que já deixou de expressar qualquer possível modernidade para São Paulo, diante das transformações sociais que fazem o Estado parecer a cada dia menos identificado com a supremacia tecnocrática que durante anos era associada à sua capital.

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