segunda-feira, 15 de outubro de 2012

VEJA E SUA VISÃO MÍOPE DA ÉTICA


Por Alexandre Figueiredo

Semana passada, o Poder Judiciário condenou, por corrupção ativa, os acusados de envolvimento no esquema do "mensalão", entre eles o ex-presidente do PT, José Genoíno, e o ex-ministro da Casa Civil do governo Lula, o também petista José Dirceu.

É uma decisão controversa, bastante polêmica, que inclui até mesmo rumores de que as condenações foram feitas sem provas e de forma precipitada. Em todo caso, foi uma dura lição do PT que achava que práticas ilícitas poderiam lhe ajudar a obter vitórias no cenário político brasileiro.

No entanto, a mídia direitista exagera, assim como os anti-petistas mais radicais, ao dizer que José Dirceu ou Lula eram os chefes do "mensalão". Primeiro porque eles eram apenas aliados, cúmplices até, mas o chefe do esquema era Marcos Valério, também condenado, mas cuja influência foi subestimada pela grande mídia.

Um bom indício dessa tese é que, antes de cooptar o Partido dos Trabalhadores, o "mensalão", ou "valerioduto", teve como parceiro anterior o PSDB, através, sobretudo da figura do hoje senador mineiro Eduardo Azeredo. Pois é o mesmo Eduardo que lidera uma cruzada moralista na Internet, bem aos moldes das campanhas estrangeiras SOPA, PIPA e ACTA. Sinal de que ele está com medo da influência da blogosfera.

Certamente Dirceu e Genoíno saíram abatidos no episódio. Um tanto desapontados com a repercussão negativa das práticas "pragmáticas" feitas pelo PT, para obter vantagem a qualquer preço, comprando votos e estabelecendo alianças de crédito duvidoso, como a aliança de Fernando Haddad, candidato à prefeitura de São Paulo no segundo turno contra o tucano José Serra.

No entanto, a mídia explora o episódio com um sensacionalismo e uma hipocrisia que fazem com que seja arriscado apoiar a campanha direitista contra o que ela chama de "petralhas". A Veja, a "voz" mais radical desse reacionarismo, usa e abusa da credulidade dos conservadores radicais para empurrar seu simulacro, ou melhor, sua falsificação do jornalismo investigativo.

NAVEGANDO EM CERTAS "CACHOEIRAS"

A Veja navega em certas "cachoeiras", como sabemos das alianças de Policarpo Júnior com o bicheiro goiano Carlinhos Cachoeira, apoiadas pelos colegas e pelo "patrão-colega" Roberto Civita. Daí que a revista não tem moral alguma para defender a ética. Sua visão míope e anti-social diz tudo.

A revista que vai contra tudo que for movimentos sociais e representar busca de melhorias de vida para as classes populares nem de longe possui credibilidade. Suas últimas reservas de profissionalismo se agonizam, afastando colaboradores menos parciais e fazendo com que muitos cidadãos de bem cancelassem a assinatura dessa rabugenta publicação.

A manchete de capa da Veja mostra que a revista não está em bons momentos. Nos últimos tempos, ela adotava manchetes autorreverentes através de mensagens subliminares - uma, sobre eutanásia, era intitulada "Eu decido meu fim", outra, sobre comportamento nos negócios, anunciava "Do alto tudo é melhor" - , como se quisesse ainda se impor como veículo formador de opinião.

Mergulhada num reacionarismo doente, ao mesmo tempo velhaco e paranoico, Veja diz que a "vitória suprema" do julgamento contra o "mensalão" lava a alma de todos os brasileiros que são vítimas da corrupção. Isso é um grande engano.

Primeiro, porque a corrupção não está apenas no PT, mas em outros focos dos mais diversos perfis políticos ideológicos. É o vício humano de levar vantagem fácil, abrindo mão da ética, prática que está acima de qualquer ideologia. E a banalização da corrupção foi uma herança de um cenário político acéfalo resultante da castração imposta pelo AI-5.

Segundo, porque Veja está envolvida em corrupção e fraudes. Tem sócios ligados a grupos nazistas que promoveram o apartheid na África do Sul, pratica intolerância febril contra os movimentos sociais, adota práticas ilegais de exercício da atividade jornalística, contrariando as normas mais básicas de busca de reportagens.

Por isso Veja não merece ter a atenção da sociedade "neutra" que busca algum jornalismo investigativo mais empolgante. Até porque Veja não investiga, calunia, e há muito tempo ela nem é sombra do que foi, sendo hoje uma publicação decadente, mórbida, desonesta, estupidamente reacionária.

Por enquanto, Veja consegue enganar certos incautos com esse sensacionalismo que se vê na edição que ilustra este texto. Um sensacionalismo que em nada diz sobre nossa realidade, até porque a corrupção política continua ocorrendo, sobretudo entre os apoiados pela "investigativa" revista.

Há muito que melhorar em nosso país, sobretudo no que se diz à ética, à cidadania e outros princípios hoje deturpados ou desrespeitados. O Brasil está numa grande crise de valores, que impede que tenhamos um questionamento unilateral das coisas. Cabe repensarmos o país como um todo, não só na parte que se interessa.

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