sábado, 6 de outubro de 2012

TRAGÉDIA FEMININAS E FOFOCAS SOBRE O TAL "BRASIL MULHER"


Por Alexandre Figueiredo

A alta mortalidade de mulheres pela violência, pelos erros médicos, pelos acidentes de trânsito e outros fatores é uma realidade escondida por debaixo do tapete pelo Censo do IBGE e pela mídia.

Evidentemente existem razões sociológicas que mostram que acreditar que "existem mais mulheres no país", enquanto várias delas morrem pela omissão de uns e pela vingança de outros, mais prejudica do que favorece a luta das mulheres contra seus diversos infortúnios.

Primeiro, porque o Brasil, tomado de um surto ultraconservador desde o golpe de 1964, inclui no seu "pacote" os valores machistas que movimentam o mercado turístico e hoteleiro. Deixemos de hipocrisia, porque, na surdina, o turismo sexual, combatido no discurso, é o que movimenta o mercado e a "vida noturna" nos seus bastidores.

Por isso, há o mito do "Brasil mulher" que, convertido em propaganda política, tenta também deturpar o feminismo criando uma visão estereotipada e inócua, tomada de uma certa pieguice que acaba enfraquecendo o sentido combativo da luta das mulheres. Elas continuam lutando, com natural coragem e bravura, mas a deturpação midiática é feita para tentar neutralizar seus efeitos.

O machismo tenta assim usar o mito do "Brasil mulher" para que minimize a culpa de machistas por boa parte da alta mortalidade das mulheres, já que cria-se um mito de que "mulher, no Brasil, existe aos montes que nem capim". Ou seja, comparar mulher a um capim, com toda certeza, não ajuda de forma alguma o feminismo.

Além disso, os programas que mais "colaboram" com esse mito são os programas de variedade vespertinos que aparecem na TV aberta, programas cujas atrações principais são justamente as fofocas de celebridades. Como é que programas de fofocas vão legitimar o mito do "Brasil mulher", contratando umas moças para se passarem por encalhadas nas boates, feito uma pegadinha não assumida, é um grande mistério.

Mas as mulheres andam morrendo muito, de todos os tipos e razões. Na foto acima, a jovem Jaciene Santos Farias foi morta pela madrasta. Houve caso de uma policial morta numa UPP carioca. Há vários casos de mulheres grávidas que morrem nos hospitais pela falta de atendimento ou por algum erro no parto.

Há mulheres que morrem em chacinas, ou então vítimas de balas perdidas, ou em acidentes de carros, e a vulnerabilidade feminina aumentou consideravelmente, enquanto a masculina manteve o mesmo ritmo, apenas crescendo dentro da proporção populacional.

Só que o IBGE, ainda preso a critérios duvidosos vigentes desde a ditadura militar - um método estranho onde "vale o que diz", sem qualquer verificação de veracidade, e que no passado fez muitos negros serem atribuídos como "morenos", "reduzindo" a população negra brasileira -  , esconde cerca de 100 mil homens brasileiros, seja os do topo da pirâmide (homens de negócios), seja na base (em boa parte mendigos, retirantes, favelados e marginais), dos dados censitários.

Isso faz com que esses homens só apareçam nos dados estatísticos quando morrem nos hospitais ou vítimas de violência. De repente, daqueles 100 mil homens ocultos morrem 55 mil. Ou seja, são 55 mil homens vindos do nada, que acabam "agravando" a tragédia masculina que prossegue no mesmo ritmo de pelo menos 30 anos atrás.

Ou seja, superestima a tragédia masculina, subestima a tragédia feminina. Em vez de prevenirmos contra a tragédia feminina, nos fantasiamos pensando que "há mais mulher" do que realmente existe. Isso não favorece o feminismo e atenua os crimes do machismo ou mesmo as omissões e violências de outras naturezas. Desse modo, não se resolvem os problemas de mulheres e homens que sofrem, e a corda sempre arrebenta nos lados mais fracos, em ambos os sexos.

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