terça-feira, 2 de outubro de 2012

RÁDIO FM E A CRISE DO "AEMÃO"


Por Alexandre Figueiredo

Domingo é um dos principais dias de partidas de futebol com os principais times de cada Estado. É dia em que muitos dos chamados "clássicos do futebol" são realizados, geralmente no final de tarde.

Pegando carona nas emissoras AM, as FMs, juntando o jabaculê habitual com os conchavos com dirigentes esportivos, há um bom tempo perseguem o filão do "Aemão", tendo como um dos carros-chefe as chamadas "jornadas esportivas".

Anteontem foi o primeiro domingo da mais recente "novidade" do setor, a Rádio Bradesco Esportes FM, parceria entre o banco brasileiro e o Grupo Bandeirantes de Comunicação, da família Saad, herdeira do ex-governador paulista Adhemar de Barros.

Sem ter a mesma audiência que as emissoras AM, as FMs haviam lançado mão do recurso da "audiência de aluguel", sobretudo através de acordos com estabelecimentos comerciais ou com os produtores das próprias FMs que promovem poluição sonora em vários pontos estratégicos da cidade.

Isso mostra uma decadência acelerada que o rádio FM está sofrendo no Brasil e no mundo, pois, embora a Frequência Modulada aparentemente está ganhando a batalha contra o rádio AM (Amplitude Modulada), hoje sufocado economicamente, ela perde feio diante da Internet e da televisão.

O "Aemão de FM" é uma fórmula velha, que na verdade remete à pré-história da Frequência Modulada, quando esta não tinha formato nem linguagem definidos. Era apenas uma "repetição" do que o rádio AM fazia, dizendo-se com mais clareza.

No entanto, nos últimos anos essa era a "nova" (?!) fórmula imposta pelos barões da grande mídia, no intuito de "competir por fora" com as emissoras AM, desnorteadas pela concorrência alienígena das FMs. O "Aemão de FM", definido pelos chamados "programas de locutor" e "jornadas esportivas", usando como pretexto o "jornalismo" e a "prestação de serviço", era uma fórmula muito utilizada pelas oligarquias regionais como meio de "influenciar" a opinião pública.

Expressão de um radialismo conservador, o "Aemão de FM", insistindo no erro dos donos de rádio de preferir jogar uma programação velha de AM para as FMs do que revigorar e modernizar a Amplitude Modulada. Esse erro de preferir o rádio FM do que o AM, em certos casos extinguindo ou enfraquecendo este último, é tendência mundial que anda debilitando o rádio como um todo.

Vários motivos levam o rádio FM a sofrer um desgaste mais acelerado do que o do próprio rádio AM, agonizante e já extinto em alguns países. Vários deles:

1) A concentração de poder dos grupos midiáticos nacionais, internacionais ou regionais;

2) O caráter monótono e cansativo do "Aemão de FM" para a maioria dos ouvintes de FM;

3) A prática de jabaculê que envolve sobretudo as "jornadas esportivas";

4) A extinção de antigas rádios musicais de referência, desalojadas pelas redes de rádios;

5) O caráter politiqueiro de muitos programas "informativos" e "esportivos" das FMs com roupagem de AM;

6) A falta de tempo de muitas pessoas para sintonizarem o "Aemão de FM", que dispensam uma atenção maior do que a de rádios musicais;

7) O fato do rádio FM não possuir o mesmo histórico do rádio AM, pois, em conteúdo, AM e FM tornaram-se meios diferentes e quase independentes entre si;

8) A decadência de credibilidade do jornalismo, incluindo o radiojornalismo, como influência decisiva na formação da opinião pública.

A baixa audiência de muitas dessas rádios mostra aspectos preocupantes, se observarmos que várias dessas emissoras se "multiplicam" em telefones celulares e canais de rádio na TV paga. Uma emissora antes com uma única sintonia em AM tinha uma audiência de quatro a cinco vezes maior do que a mesma que hoje tem repetidora em FM e é sintonizável no telefone celular e no canal da TV paga.

RADIÓFILOS TENTAM DESMENTIR DECADÊNCIA

A crise do "Aemão de FM" tenta ser desmentida nas redes sociais por radiófilos, simpatizantes e admiradores do rádio, e profissionais do setor. Eles tentam dizer que as emissoras continuam tendo grande audiência e que locutores considerados estrelas do ramo nunca passam por níveis sérios de queda de audiência.

Eles se apoiam no caráter mítico da popularidade do rádio AM e dos programas dos chamados "grandes comunicadores", incluindo as "jornadas esportivas", e acham que o rádio FM é apenas uma forma atualizada e ampliada dessa popularidade.

No entanto, não é isso que se observa nas ruas. Quando se lança uma nova rádio ou programação, no que se diz ao "Aemão de FM", a repercussão é muito baixa. Quando muito, apenas raros estabelecimentos comerciais sintonizam a emissora, às vezes notando-se uma certa vaidade de quem a sintoniza.

A decadência das FMs, através da "Aemização", que requenta fórmulas e procedimentos velhos do rádio AM camuflado em "modernidades" adotadas em vinhetas ou mesmo na linguagem radiofônica - como o tom de "conversa" dos noticiários e a imitação da narrativa televisiva nas transmissões esportivas - , é um fato que no entanto não deve ser ignorado.

Essa decadência se dá sobretudo porque o rádio FM, na ironia de querer ser o "novo rádio AM", passa a sê-lo no aspecto mais negativo. E sofre uma decadência mais rápida que a do rádio AM, que declinou de forma lenta e gradativa nos últimos 40 anos, pela pressão dos tecnocratas da ditadura militar e pelos tecnocratas do setor de aparelhos eletrônicos mundial desde os anos 90.

Isso porque o que o rádio AM perdeu em 40 anos o rádio FM perdeu em 10, no que diz à audiência e potencial publicitário. A competição dos grandes grupos empresariais em aumentar redes de rádio, dizimando programações regionais, e a derrubada de emissoras de referência tanto em AM como em FM, contribuem para o enfraquecimento da Frequência Modulada, que ainda consegue sobreviver bem através de emissoras musicais, sobretudo as do chamado pop adulto, voltadas a um público eclético.

A concorrência com as emissoras de TV paga, durante as transmissões esportivas e os noticiários, e a concorrência da Internet, sobretudo em canais de vídeo e áudio mas sem excluir a blogosfera, cujo nível de qualidade e variedade informativa supera, e muito, o das chamadas rádios all news, também são fatores que andam enfraquecendo a Frequência Modulada no Brasil.

Um outro fator a chamar a atenção é que o rádio FM já é considerado tecnologia em processo de obsolescência no Reino Unido, uma vez que foi anunciada, há três anos, a implantação de uma nova tecnologia, o DAB (Digital Audio Broadcast), que adapta a tecnologia radiofônica à era da Internet, determinando a aposentadoria da Frequência Modulada britânica até 2025.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...