terça-feira, 23 de outubro de 2012

RAÇA NEGRA E O BREGA PSEUDO-CULT


Por Alexandre Figueiredo

Não há o que inventar no Brasil. O hype do "brega cult" tem agora mais um nome, o grupo de sambrega Raça Negra, espécie de tradução "sambista" da música de Amado Batista.

O disco em questão é Jeito Felindie, um tributo "alternativo" (sic) lançado em formato digital ao conjunto que puxou a onda do "pagode romântico" que gerou grupos como Só Pra Contrariar (que lançou Alexandre Pires), Soweto (que lançou Belo), Negritude Júnior (que lançou o hoje político Netinho de Paula), Art Popular (que lançou Leandro Lehart), Exaltasamba (que lançou Péricles e Thiaguinho), entre outros.

Todos puxados pela voz fanha de Luís Carlos, cujo grupo, Raça Negra, está beneficiado pela onda de "coitadinhos" que não para de surgir em tempos de glamourização da mediocridade cultural brasileira. E o tributo até engana na capa, usando uma moça magrinha e graciosa diante de discos de vinil. Só não engana tanto porque os discos que aparecem são a explícita breguice do Raça Negra.

Enquanto lá na Europa se discute a crise cultural de forma séria, aqui a crise cultural deixa de ser debatida por simplesmente não ser uma questão de crise de dinheiro. Se gera dinheiro, tudo bem. Danem-se os valores sociais. Se é o rádio que dita as normas, fazemos de conta que esse rádio "é o povo" e muitos vão bebericar nos botequins felizes da vida ao som da mais escancarada breguice.

O grande problema é que o brega-popularesco possui um lobby tão grande e poderoso, que envolve grandes latifundiários e empresas multinacionais com dinheiro, poder e tráfico de influência suficiente para cooptar várias forças sociais moderadas para aderirem ao seu esquema.

O tributo ao Raça Negra é alternativo? Não. É independente? Também não. Trata-se de uma fachada de "cultura independente" que se vale tanto pelo contexto da "provocação" - o garotão "descolado" curte um brega para "gozar" da cara de seus pais - quanto por um certo paternalismo das elites "bem informadas" em relação aos sucessos radiofônicos.

O que ninguém sabe é que o "maravilhoso" Raça Negra é um subproduto da bregalização feita por retardatários ou "convertidos" da Jovem Guarda, que geraram nomes como Odair José e Michael Sullivan. E que veio sobretudo através do poderio da indústria fonográfica, controlada por multinacionais, e do mercado radiofônico, entregue a políticos, grupos empresariais e latifundiários presenteados por Sarney e ACM, nos anos 80.

Foi esse quadro que desenhou o que oficialmente - mas erroneamente - se entende como "cultura popular" no Brasil. É o brega-popularesco, a Música de Cabresto Brasileira. E quem é muito jovem, nascido de 1978 para a frente, salvo honrosas exceções sucumbiu a essa degradação midiática, que poucos reconhecem ser uma extensão crucial e perigosa da ditadura midiática, um veneno de sabor doce que mata sem causar dor.

No tributo ao Raça Negra - dá para imaginar que virão tributos ao MC Créu e MC Leozinho daqui a vinte anos? - , na reportagem de anteontem no Segundo Caderno de O Globo, há depoimentos muito sentimentalistas, de gente que acha que "cultura popular" é aquela que vem do rádio. Ou então há comparações pretensiosas, como a entre o Raça Negra e Los Hermanos.

Esse tributo, feito por alguns nomes "performáticos", dá o tom do furioso processo de destruição da cultura brasileira, para que se venha o hit-parade com todo o seu apetite. Hoje os pretextos usados são o "cult", o alternativo e a cultura popular, com muito puxa-saquismo a nomes que variam de Oswald de Andrade a Wilson Simonal, de Sérgio Ricardo a Ritchie.

É o tal discurso da "diversidade cultural" ampliado para uma retórica pseudo-vanguardista. Todo muito é "alternativo" e "independente", tudo é "vanguarda" e "cultural", mas o que está por trás desse discurso sedutor é a extinção que o mercado prepara para a verdadeira cultura brasileira, aquela que não vive de lotação de plateias nem de execuções em rádio.

O mercado quer que o hit-parade brasileiro substitua a cultura de verdade. Seus ideólogos têm o cinismo de dizer que o "irrit-pareide" brega-popularesco é "a verdadeira cultura popular". Conversa para boi dormir. Por trás desse discurso ambicioso - vindo de um poderoso lobby que inclui até cientistas sociais e é feito até por documentários e monografias - , há a imposição de um mercado totalitariamente comercial.

"O que será da música brasileira do futuro?" já havia perguntado Ruy Castro. A ascensão voraz do brega-popularesco em todos os mercados e segmentos significa o canto do cisne que o mercado impõe ao folclore, à cultura alternativa, à genuína cultura popular que estão em risco de desaparecerem.

Por isso, a grande mídia, a indústria fonográfica - com as gravadoras "independentes" e "virtuais" sendo praticamente "satélites" das grandes gravadoras - e seus seguidores querem acabar com a cultura popular. "Cultura", para eles, não pode ir além de um Odair José, de um Waldick Soriano, um Michael Sullivan, Wando, Calcinha Preta, Banda Calypso, Mr. Catra ou Raça Negra. E que se contente com Alexandre Pires e Chitãozinho & Xororó fazendo pseudo-MPB.

Enquanto isso, isola-se a MPB da Biscoito Fino, que está para a música assim como Oscar Niemeyer está para a arquitetura. Que se jogue pedra na "geni" que se tornou Chico Buarque. Enquanto isso, abre-se o mercado, num neoliberalismo pós-tropicalista, onde pseudo-alternativos exaltam o brega dentro da gororoba midiática que consumiram na infância. É o mercado, estúpido!

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