terça-feira, 30 de outubro de 2012

OS TROLEIROS E AS MUDANÇAS NO BRASIL


Por Alexandre Figueiredo

A trolagem tornou-se um lamentável fenômeno na Internet e contrariou as perspectivas de que a interatividade só abriria caminho para mentes progressistas na rede mundial de computadores. Infiltrados nas redes sociais, nos e-mails e nos fóruns digitais, os reacionários da rede e sua fúria jocosa acabam sendo derrotados pelas mudanças ocorridas no país.

Quase sempre defendendo o estabelecido pelas regras do mercado, da mídia e da política, os troleiros - ou trollers, em inglês - são algo como vândalos digitais, que em casos extremos chegam a criar blogues ofensivos ou vídeos caluniadores, mas na maioria das vezes preferem humilhar através de um e-mail anônimo ou de mensagens apócrifas jogadas até em petições digitais.

Eles também aparecem nas redes sociais - Orkut, Facebook, Twitter, Instagram - com seu reacionarismo, alguns se encorajando em divulgar seus próprios nomes. Sua intolerância é notável, até mesmo quando seus totens absolutos da "cultura de massa" - podendo ser uma caricatura de rádio de rock ou uma dupla breganeja cujo nome plagia artistas de MPB - e não aguentam sequer críticas construtivas sobre seus ídolos.

FILHOTES DA DITADURA MIDIÁTICA

Os troleiros são "filhos" de um tempo, a década de 1990, onde a ditadura midiática exibia seu explendor. A Internet só veio na segunda metade e ainda assim com fraca demanda, comparável ao da televisão brasileira no começo da década de 1960, crescente mas incipiente.

São jovens acostumados com um país onde prevaleciam as decisões vindas "de cima", onde mesmo com suas evidentes imperfeições e falhas, o poder político, o midiático e o mercadológico eram vistos com uma "superioridade" intocável. Eles erravam, mas eram vistos como "forças" capazes de trazer algum progresso para a população.

Os filhotes da ditadura midiática, na medida em que viam, na Internet, textos que contestavam o mérito de tudo aquilo que acreditavam e apoiavam, passavam a reagir de forma desesperada, com mensagens geralmente jocosas, agressivas e ofensivas, que demonstram uma clara irritação dos mesmos contra qualquer contestação ao "estabelecido".

Isolados nas promessas de "modernidade" trazidas pela velha grande mídia, pelo fisiologismo político, pela tecnocracia velhaca e pelo entretenimento "popular", os troleiros se concentram geralmente em "modismos" ou "tendências" de ataque.

Um dia defendem uma "rádio rock" caricata, como foi a Rádio Cidade do Rio de Janeiro. Noutro defendem o poderio musical de Bell Marques, do Chiclete Com Banana. Noutro, defendem a padronização visual dos ônibus do Rio de Janeiro, depois certas duplas emergentes do "sertanejo universitário", em seguida as "popozudas", mais tarde o José Serra e por aí vai.

Verdadeiros aspirantes a "urubólogos", os troleiros são ainda subestimados pelos analistas médios de esquerdas, que os veem apenas como "ciberpunks mal-orientados". Sem perceber que, no futuro, lá depois dos 40 anos, esses "modernos" internautas, muito jocosos e até desbocados, estarão no reacionarismo jornalístico, criando veículos ou instituições similares ao que vemos hoje com a revista Veja, a Opus Dei, o Tea Party, o PSDB etc.

No entanto, a cada vez que as mudanças sociais diversas se confirmam e os antigos totens começam a ser contestados por mais gente, os troleiros passam por humilhação. Eles sentem que as reações contra seus impulsos agressivos são grandes, e não raro há casos de troleiros que são desmascarados e humilhados em rede mundial, expostos à humilhação pública até nas buscas do Google.

A "aventura" dos troleiros, dessa forma, acaba tendo sempre um fim dramático para eles. Um dia os impulsos deles se voltam contra até mesmo seus aliados, ou mesmo contra "peixes grandes". Acabam arrumando confusão contra eles mesmos. Nem a criação de blogues ofensivos contra seus desafetos acabam lhes salvando, porque as "caças" se voltam contra seus "caçadores".

Além disso, o vandalismo digital acaba tendo vida curta, na medida em que a incapacidade dos troleiros de resolver os problemas com suas fúrias se tornam inúteis. Num certo momento, eles se tornam mais humilhados do que aqueles que desejavam humilhar.

E, desocupados, um dia esses troleiros terão empregos que exigirão maior dedicação ao trabalho, o que significa perda do tempo disponível para criar fakes ou para mandar mensagens ofensivas em larga escala. No fim só lhes restarão os prantos. Sem poder conter a evolução da sociedade brasileira, eles só terminam arrumando encrenca contra si. A fúria cega do momento pode ignorar e esnobar tudo isso, mas depois eles terão que admitir a derrota, como versões "mini me" de gente como José Serra e Diogo Mainardi.

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