domingo, 21 de outubro de 2012

OS ANOS 90 E OS BARÕES DA MÍDIA


Por Alexandre Figueiredo

Está no ar o saudosismo dos anos 90, a década perdida do século XX. No entanto, no Brasil, foi a década que consagrou muitos dos paradigmas considerados "populares" para uma geração que se encontra por volta dos 30 anos.

A década de 90 representou uma série de paradigmas considerados "pragmáticos", ou seja, apenas relacionados a qualidades meramente básicas e paliativas, mas que são superestimadas pelos seus defensores, como se fossem a maior das preciosidades.

O rock farofa de Guns N'Roses, Bon Jovi e Mötley Crüe, o hit-parade de nomes como Bee Gees, Michael Jackson e Whitney Houston, o neo-brega de Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó e Leandro & Leonardo, os programas policialescos tipo Aqui Agora e Cidade Alerta, as políticas neoliberais de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, a supremacia da imprensa conservadora, a vulgaridade feminina, os filmes de pancadaria.

Estes e outros paradigmas que caraterizaram os anos 90 no Brasil e no mundo hoje são objeto de uma onda saudosista discretamente difundida pela grande mídia. É o prato principal de um tipo de saudosismo que não traduz o passado como ele realmente foi, mas um "recorte" da "indústria cultural" de uma época, cujo aperitivo foram as festas Ploc 80, cujo tema na verdade era "o que vimos na TV nos anos 80".

Diferente dos anos 80, cujo revival foi dotado de muitos equívocos - seriados dos anos 60 e 70, por exemplo, eram "anos 80" só porque passaram na TV da época - trabalhados de forma caricata, os anos 90 reaparecem glamourizados. A distorção e a deturpação continua, mas desta vez "otimizada" pelo fato de que muitos valores trazidos pela década são defendidos pela grande mídia hoje.

SUPREMACIA MIDIÁTICA

Há algo por trás da glorificação de Rambos e Whitneys, de Guns & Roses, de Ratinhos e Tchans, das garotas da banheira do Gugu e das cassetadas do Fausto Silva, dos programas de fofocas da TV mais tolos e dos programas policialescos mais grosseiros, dos neo-bregas que primeiro esnobavam e desprezavam a MPB para depois tentar imitá-la em última hora.

Até Fernando Collor foi transformado em dois, como uma estrela do mar esfaqueada, já que mesmo as esquerdas medianas tiveram o milagre de separar o abominável Collor do esquema de PC Farias e o festejado Collor do Senado Federal de hoje. O pretexto era que Collor era cria da revista Veja, no passado, enquanto como um Frankestein, o Collor de hoje se volta contra essa mesma revista que o lançou como mito eleitoreiro.

Os anos 90, no que diz à prevalência de valores culturais, políticos, econômicos, sociais e tecnológicos dominantes, pode ser definido como um "irmão caçula" do "milagre brasileiro". São valores cujo compromisso com as melhorias sociais é extremamente duvidoso, mas mesmo assim eles são defendidos porque agradam a uma minoria influente de pessoas que se consideram influentes no mercado, na mídia e na opinião pública.

Juntando medidas paliativas com a necessidade de catarse, individual ou coletiva, os anos 90 tornaram-se a década em que o supérfluo se tornava "essencial" e o essencial se tornava "supérfluo". E o Brasil mergulhou numa série de retrocessos sócio-culturais, morais e políticos, vários deles herdeiros dos estragos deixados pela ditadura militar na sociedade.

A década de 90 mostrava um Brasil ainda longe das transformações da opinião pública sofridas pela Internet. Nessa época a mídia exercia supremacia quase absoluta, a grande mídia tornou-se a babá eletrônica dos brasileiros. E não era só Xuxa.

As babás eletrônicas poderiam ser Fausto Silva, Gugu Liberato, Wagner Montes, Ratinho, Sônia Abrão, o Pânico da Jovem Pan 2 (que não havia conquistado a TV) ou o Zé Luiz da 89 FM, ou um emergente Luciano Huck. Ou podia ser o Otávio Frias Filho ou o Fernando Henrique Cardoso, se for o caso.

A revista Caras, de colunismo social, era lançada no Brasil, a Bizz, revista musical da Abril, entrava em decadência, a revista Veja aumentava seu reacionarismo condenando tudo que era movimentos sociais e endeusando o neoliberalismo. E surgiam revistas de celebridades e um monte de fofocas sobre famosos que nada tinham a dizer.

Sobre o neoliberalismo, ele entrou no auge nos anos 90, impulsionado pela queda do Muro de Berlim e da União Soviética. A globalização econômica se tornava uma nova utopia, e a Internet prometia a ascensão fácil das empresas "ponto.com", uma utopia mal explicada que não demonstrou, em si, eficaz.

Quanto à grande mídia, era a época em que o jornalismo se ascendia como força dominante na opinião pública, o "quarto poder" definido tanto de forma elogiosa quanto pejorativa, conforme o contexto. Era a época em que o jornalismo prometia ser a segunda consciência do indivíduo, sendo a síntese acessível de todas as formas de conhecimento e ação social.

Acreditávamos nessa glamourização da imprensa sem nos atentar dos pretensos "donos" da opinião pública que viriam depois, colocando o jornalismo não a serviço da opinião pública, mas acima dela, criando problemas ao querer formar a nossa opinião através de pontos de vista contrários ao interesse público.

Por esse papel da grande mídia, que havia na prática determinado uma ditadura midiática no Brasil, afastando os "fantasmas da Era Jango" que haviam rondado o Brasil nos anos Sarney, já que a redemocratização fazia com que os brasileiros quisessem retomar o caminho interrompido em 1964.

Pois esse caminho não foi retomado e um outro foi esboçado a partir de Fernando Collor, da Rede Globo, da Folha de São Paulo, do Grupo Abril, das multinacionais. Por isso a grande mídia anda propagando que os anos 90 são "o máximo". Muitos acreditam que foi a década mais cult do século XX. Grande engano.

Enquanto isso, o comercialismo do entretenimento dominante faz com que muitos acreditem que a cultura está melhor hoje. Não está. A mediocridade cultural promovida pelos barões da grande mídia - embora muita gente se recuse a associá-la a eles - cria muitas armadilhas discursivas que exploram a boa-fé do grande público, sobretudo o mais jovem, e empurra valores duvidosos como se fossem certeiros.

Como a mediocrização cultural do brega-popularesco, a vulgaridade feminina das "popozudas", os filmes de pancadaria, o rock farofa, os programas policialescos de TV, os reality shows. Nada disso se encaixa numa perspectiva progressista de melhorias de vida, muito pelo contrário. É a degradação cultural usando o pretexto da "ruptura de preconceitos" para se impor na sociedade.

É por isso que a grande mídia se anima tanto com o revival dos anos 90. Porque seus valores garantem uma sociedade mais acomodada e conformista - quando muito, seus defensores se inconformam é com as críticas contra aquilo que eles acreditam - e isso garante o lucro e o poderio seguros dos chefões da grande mídia, seja ela nacional ou regional.

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