sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O 'HIT-PARADE' BRASILEIRO E SEU DISCURSO PSEUDO-VANGUARDISTA


Por Alexandre Figueiredo

Poucos se preocupam, mas o alerta de que um poderoso lobby intelectual e midiático quer substituir a cultura brasileira pelo hit-parade é um sério problema ao qual não cabem deslumbramentos.

Afinal, é um discurso bastante engenhoso, altamente habilidoso, o suficiente para arrancar uma pretensa unanimidade através do aparente otimismo que se expressa.

Este blogue há muito alerta sobre as armadilhas discursivas de uma intelectualidade que ora bajula a chamada "ala maldita" da Música Popular Brasileira, ora exalta o suposto "valor artístico-cultural" dos ídolos brega-popularescos.

A campanha retórica, que chegou ao nível das monografias, documentários e textos jornalísticos cheios de referências - ainda que, tendenciosamente, se jogue uma Patti Smith para defender até mesmo cantoras de forró-brega - , é na verdade o anúncio de que o hit-parade brasileiro quer porque quer substituir a cultura brasileira autêntica, aquela em cujos vínculos sociais prevalecem os interesses da sociedade.

CLICHÊS ESQUERDISTAS

A campanha retórica é preocupante, sobretudo pela grande adesão de intelectuais, celebridades e ativistas sociais. É um verdadeiro "IPES pós-tropicalista", algo como um Instituto Millenium cultural. Tem até mesmo o patrocínio, muitas vezes indireto - repassado a entidades nacionais financiadoras de pesquisas e produções acadêmicas e artísticas - , de organizações ligadas ao capital estrangeiro.

São instituições como a Fundação Ford, a Fundação Rockefeller e a Soros Open Society, instituições aparentemente voltadas para o suporte financeiro dos movimentos sociais de todo o mundo, mas que são denunciadas como grupos interessados na domesticação das expressões esquerdistas dos vários cantos do planeta.

A Soros Open Society é a mais ambiciosa, e é controlada pelo especulador financeiro George Soros, uma das figuras destacadas do neoliberalismo mundial. Sua vitrine é o Fórum Econômico Mundial, evento que reúne os chefões do mercado financeiro e do mundo dos negócios mundiais e seus políticos associados.

No entanto, Soros tenta cooptar para seu domínio os movimentos sociais. Ele havia patrocinado o Fórum Social Mundial, evento paralelo ao Fórum Econômico, quando foi denunciado por ativistas indianos. Aí o patrocínio teve que ser suspenso. Mas ele exerce sua influência até mesmo no Brasil.

Há todo um discurso "esquerdista" que se apoia nessa mentalidade do "negócio aberto". Novas mídias, ruptura com (todas?) as regras de copyright - inclui até mesmo a jocosa expressão "copyleft" como uma suposta reação a essas regras - , expressões da periferia, etc etc etc. São termos ideológicos que juntam conceitos neoliberais difundidos a partir de 1990 com ideias tecnocráticas da mesma época e uma visão banalizada do ativismo social difundida a partir da transmissão do Live Aid pela MTV, em 1985.

Mas o discurso "vanguardista" vai além. Fala-se em "morte da indústria fonográfica" e superestima-se a ação da Internet na transformação da sociedade. O discurso tenta dar a impressão de que o Brasil viverá a ascensão de uma "cultura alternativa" que "eliminará" o mercado, substituindo-o por uma "cultura independente" que aparecerá em todo lugar, do Oiapoque ao Chuí.

TESE DE QUE A CULTURA BRASILEIRA "NASCEU" EM 1967

O discurso é atraente e bastante sedutor, mas tem suas falhas. A defesa que a intelectualidade associada faz das tendências comerciais do brega-popularesco - que chegam mesmo a defender figuras associadas à mídia conservadora, como Ivete Sangalo, Zezé di Camargo & Luciano e Alexandre Pires, além dos antigos Odair José e Waldick Soriano - e a clara evocação de uma "cultura de massa" que mais parece a tradução musical do "livre-mercado", põem em xeque a validade do discurso.

Afinal, esse discurso cria uma perspectiva e uma historiografia tendenciosas para a cultura brasileira, jogando no limbo pelo menos 467 anos de cultura brasileira, já que, seguindo a tese do "fim da História" de Francis Fukuyama - claramente seguida por Pedro Alexandre Sanches - , a cultura brasileira teria "nascido" em 1967, a partir do grito de revolta de Caetano Veloso contra os que o vaiaram num festival de MPB.

Com base nessa visão, a cultura brasileira teve uma "antiguidade" (1915-1967) e uma "pré-história' (antes de 1915). Com isso, deixa-se o rico patrimônio cultural brasileiro na "geladeira" ou para alguma apropriação tendenciosa de algum "ídolo da massa".

O "norte" então passa a ser o Tropicalismo, convertido a um rol de verdades absolutas onde a cultura brasileira só é "viva" se entregar suas rédeas à "cultura de massa". Mas aqui "cultura de massa" é uma ideia trabalhada para que se oculte qualquer alusão a interesses comerciais tais quais se vê no hit-parade norte-americano.

PRODUÇÃO DE UM "PASSADO GLORIOSO"

O discurso, portanto, é trabalhado não para revelar a intenção, de maneira totalitária, um hit-parade brasileiro, mas de um discurso que dê a impressão contrária, de alusão a "cultura alternativa", "novas expressões" e "cultura independente". Dissimula-se o mercado dizendo que ele "está morto" e o que vigorará é a "cultura de vanguarda" no Brasil.

Para reforçar a tese, a intelectualidade que "fica babando" com fenômenos como É O Tchan, Tati Quebra-Barraco, Gaby Amarantos, Thiaguinho e Michel Teló tenta bajular nomes da MPB autêntica considerados "difíceis" pela grande mídia.

Dessa feita, há desde a necrofilia a nomes como Gregório de Matos, Oswald de Andrade e, mais recentemente, Itamar Assumpção e Sérgio Sampaio como a bajulação a nomes ainda ativos como Inezita Barroso, Tom Zé e Sérgio Ricardo.

Há até uma ênfase, tendenciosa, em tendências musicais mais sofisticadas mas alheias à "bossa engomada" da Biscoito Fino, como forma de isolar Chico Buarque, Edu Lobo e companhia. Dessa feita, Sérgio Ricardo e Marcos Valle, por exemplo, ou um Quinteto Violado ali, um Milton Banana Trio aqui, aparecem exaltados pelos mesmos ideólogos que acham que rejeitar a mediocridade do "funk carioca" é "preconceito".

A ideia subentendida nesse discurso, trabalhado por críticos musicais, historiadores, sociólogos, antropólogos e outros especialistas e até famosos, é que se produza um "passado glorioso" a partir da MPB mais sofisticada e ao mesmo tempo menos badalada.

Isso dá conta do que essa intelectualidade faz para manobrar a opinião pública. Pois temos um passado remoto (extinto) através de figuras já falecidas, como Sidney Miller, Wilson Simonal, Sérgio Sampaio e Itamar Assumpção. E um passado recente e ainda presente de nomes como Tom Zé, Sérgio Ricardo e Zezé Motta.

Evocam-se também a parte mais audaciosa da Jovem Guarda (Erasmo Carlos, Wanderléia, Ronnie Von), os demais tropicalistas, alguns "malditos" espalhados pelos anos 70, e cria-se um "elenco" que possa servir de blindagem para os descaminhos que a música brasileira, ignorando justamente o legado dos melhores artistas (independente do apoio ou da ojeriza da intelectualidade), comete hoje em dia.

Atualmente, o que temos são apenas três forças artisticamente pouco expressivas na nossa música, que prevalecem na mídia, no mercado e no gosto padrão do grande público. Há o brega-popularesco, com todas as suas deturpações da cultura popular surgidas a partir do brega dos anos 60-70. Há a "MPB feijão-com-arroz", da geração pós-1992, que apenas reproduz clichês da MPB dos anos 70. E há, agora, os "neo-performáticos" mais preocupados com a imagem do que com o som.

Estes últimos, em boa parte, acabam adotando influências do brega-popularesco em suas músicas, mesmo tentando forçar um contexto "vanguardista", geralmente associado a uma atitude de "provocação". São apenas colecionadores de "referências culturais", que exibem uma gororoba de valores e ícones que não os faz mais criativos.

Se o brega-popularesco já se "evoluiu" para a pseudo-MPB de Ivete Sangalo, Alexandre Pires e Chitãozinho & Xororó, se a "MPB feijão-com-arroz" jogou na mídia Maria Gadu, Ana Carolina e Jorge Vercilo, os "neo-performáticos" vêm com Superpopular, Kitsch Pop Cult, Emicida, Criolo e companhia. Estas são as tendências do futuro hit-parade brasileiro.

E o que será o futuro da MPB e da cultura brasileira em geral, entregue ao hit-parade? Será, pura e simplesmente, a submissão dessa cultura às leis do "falecido" mercado, através de uma indústria que se articulará sob a sombra da grande indústria, com gravadoras "independentes", mídias digitais e rádios comunitárias que na prática são meros satélites do "deus mercado".

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