domingo, 7 de outubro de 2012

O ESNOBISMO DA INTELECTUALIDADE BRASILEIRA

IMAGINE SE O DIRETOR DA CIA DISSESSE QUE NÃO TINHA A VER COM A CIA?

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade brasileira goza também de um certo esnobismo. Como se não fosse suficiente sofrer de "projeção" (fenômeno psicológico estudado por Freud), que atribui aos outros qualidades e procedimentos de si mesma, a intelectualidade sofre também de um certo esnobismo que garante tiradas "urubológicas".

Uma delas é a famosa tese da alienação. Sabemos que o brega-popularesco é tomado de uma alienação cultural e sócio-política extremos, embora as acusações de alienação da crítica musical se estendessem também para o mainstream do Tropicalismo, como na "guerra" entre a imprensa musical dos anos 70 e os "apolíticos" Caetano Veloso e Gilberto Gil.

Pois essa intelectualidade etnocêntrica (Paulo César Araújo e sectários) esnoba quando há alguma tese de alienação ideológica atribuída ao brega-popularesco. Podemos dizer, por exemplo, que os ditos "sertanejos" são alienados porque trocaram as raízes da música caipira por arremedos de boleros e do "som de Nashville" (vertente mais pop da country music).

Lançada esta tese, mesmo dentro das razões mais pertinentes e lógicas, a intelectualidade etnocêntrica e ultrafestejada de nosso país logo arrota esnobismo até mesmo em artigos científicos. Virou até refrão: "Enquanto a crítica acusa fulano de alienado, ele passa longe disso com suas plateias lotadas, ingressos esgotados e discos que desaparecem das prateleiras de lojas de tão vendidos".

Certo, certo, é a tese de que lotador de plateias é o mesmo que gênio da música ou grande expressão da cultura popular. A alienação, no entanto, corresponde não só a uma postura ideológica submissa ao mercado como também corresponde a uma postura sócio-política que, se existente, chega à caricatura do processo eleitoreiro.

Afinal, é bom deixar muito claro que existe uma diferença entre um artista com opiniões firmes e coerentes sobre a sociedade em que vivemos e um ídolo popularesco cuja "politização" se resume ao partidarismo fisiológico e, por vezes, eleitoreiro. Uma "mulher-fruta" não se tornará uma militante igual a Joan Baez porque se candidatou a vereadora por um partido qualquer.

"FUNK CARIOCA" E A CIA

Outro aspecto do esnobismo intelectual é quanto às graves acusações que figuras como a sambista Beth Carvalho e o historiador Sérgio Cabral fazem de que o "funk carioca" seria um dos instrumentos da CIA, junto a outros ritmos popularescos, para enfraquecer a cultura popular.

A intelectualidade desaba de tanta chacota. Acham que o "funk carioca", coitadinho, só é patrocinado por ONGs, não tem o dedo do Tio Sam e não traz imoralidade, seus excessos são apenas coisas que Leila Diniz e Gregório de Mattos "teriam feito" em outros tempos. Argumentação muito hipócrita. Na mais rasa das hipóteses, os defensores do "funk" se limitam a dizer friamente aos críticos: "Você está desinformado das coisas".

É claro que o "funk carioca" possui um lobby violento, tem o apoio até das Organizações Globo, do Grupo Folha e do (sim!) Instituto Millenium, com toda a pose "sem mídia" que o ritmo ostenta com muita hipocrisia. Seus defensores, coitados, se contentam em usar a ironia para tentarem desmentir a grave tese, comose o "funk" nunca tivesse surgido em Miami.

Também chegaram a esnobar o caso de Michel Teló, quando e disse que a CIA investe no breganejo - claramente aparentado com as mais comerciais fórmulas do country norte-americano - para enfraquecer a música caipira. Caíram na risada.

Mas se a gente chamasse Michel Teló de "militante político", de "Julian Assange brasileiro", tal qual certos incautos chamaram as "mulheres-frutas" de "feministas", essa mesma intelectualidade nos acolheria com tapinhas nas costas e gritos de "U-huuuuuuu".

Os cronistas políticos reacionários até ficam perguntando se poderiam ter o mesmo senso de humor desses críticos musicais e cientistas sociais. Imagine Reinaldo Azevedo com o senso de humor do baiano Milton Moura? Se José Serra jogasse com esse mesmo esnobismo, teria sido eleito presidente da República, bastava a mídia explorar seu senso de humor e construir uma "unanimidade popular" em cima.

O pior disso tudo é que, mais uma vez, essa intelectualidade cultural, autoproclamada "de esquerda", se volta contra uma figura de esquerda como Beth Carvalho. Sim, esses intelectuais "de esquerda" atacam as esquerdas, pois até os questionamentos lúcidos dos pensadores mais renomados são tidos como "patrulha ideológica", "dirigismo partidário" e outras acusações típicas dos direitistas mais neuróticos.

A influência da CIA no brega-popularesco pode não ser direta, mas se ela influi no Instituto Millenium e na mídia brasileiras, por que ela não investiria, mesmo de forma indireta, também no patrocínio do "funk carioca", breganejo, tecnobrega, forró-brega e similares? Se até nos tempos do IPES-IBAD a CIA sempre intermediou patrocínio junto às multinacionais...

Se os ritmos brega-popularescos não são patrocinados exatamente pelo Departamento de Estado dos EUA, são todavia patrocinados por empresas multinacionais que ideologicamente se associam às determinações desse órgão. Isso não é fofoca, é fato que as autoridades querem esconder mas que gente como Julian Assange e Bradley Manning acaba divulgando. 

Dá para perceber o quanto a máscara cai nesses neoliberais pós-tropicalistas, ideologicamente amamentados pelas pregações de Fernando Henrique Cardoso na USP, quando preferem elogiar ídolos direitistas do brega ou tendências patrocinadas pela mídia e pelo capitalismo norte-americano enquanto "baixam a lenha" em esquerdistas que rompem com a tendência domesticada e obediente imposta pela cartilha neoliberal.

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