segunda-feira, 22 de outubro de 2012

MÁRIO KERTÈSZ SE ACHA "DONO" DAS ESQUERDAS BAIANAS


Por Alexandre Figueiredo

O fisiologismo do Partido dos Trabalhadores faz com que as esquerdas, no Brasil, sejam desmoralizadas pela sociedade, dando brechas para contestações raivosas de uma direita reacionária que se julga "correta" e "transparente".

Na Bahia, repetiu-se o caso visto em São Paulo, quando Paulo Maluf abraçou o candidato petista à prefeitura paulistana, Fernando Haddad, com a presença sorridente do ex-presidente Lula.

Agora, na corrida eleitoral do segundo turno para as eleições municipais de Salvador, o candidato derrotado Mário Kertèsz, dublê de radiojornalista da sua Rádio Metrópole, cuja audiência é mais alta em decibéis do que em número de ouvintes ou aparelhos ligados, decidiu apoiar o candidato petista Nelson Pelegrino.

Como Paulo Maluf, Mário Kertèsz é "filhote" da ditadura militar. Ambos se lançaram na vida política como prefeitos biônicos do governo militar, pela ARENA (Aliança Renovadora Nacional). São figuras altamente conservadoras e Paulo Maluf havia feito parte do IPES, O "'instituto" formado para pedir a derrubada de João Goulart.

E certamente Kertèsz, nesses idos de 1963-1964, também não foi com a cara de Jango, que havia prometido um programa de governo bastante parecido com o que Lula havia cumprido em seus oito anos de mandato. Um programa progressista moderado, mas que o trauma da derrota estadunidense na Baía dos Porcos, em Cuba, fez a paranoia imperialista infiltrada no Brasil acusar Jango de comunista.

Que o Partido dos Trabalhadores também não é esquerdista há tempos, tudo bem, mas o fisiologismo político mancha até mesmo seus rascunhos de políticas progressistas. E, com o apoio do tendencioso Kertész em Salvador e Maluf em São Paulo, o PT só vencerá se outros apoios menos desonestos compensarem, o que será difícil.

O apoio do astro-rei da Rádio Metrópole ao PT, em detrimento de ACM Neto, apoiado pelo PMDB - partido pelo qual Kertèsz tentou voltar à política e do qual decidiu se desligar - , mostra que o engenheiro que foi apadrinhado por Antônio Carlos Magalhães e sob o mando deste destruiu o Jornal da Bahia (ícone da imprensa progressista de Salvador) anda com ciúmes com os outros herdeiros do "painho".

Pois Kertèsz, que seria, em 1990, a maior cartada do carlismo, depois de duas gestões como prefeito, quando tentou se lançar pré-candidato ao governo da Bahia, foi denunciado pelo jornalista de A Tarde, Fernando Conceição - meu ex-professor na UFBA - , por ter formado, com Roberto Pinho (recentemente envolvido no "mensalão" de Marcos Valério), um gigantesco esquema de corrupção desviando verbas públicas que seriam para a Prefeitura de Salvador, governada pelo "radialista".

Kertèsz se sentiu traído por ACM e passou a ter ciúmes de alguns de seus herdeiros ou afilhados políticos, seja Antônio Imbassahy - depois desligado do carlismo - , seja ACM Neto. E com o dinheiro da corrupção, o então prefeito Kertèsz, no final dos anos 80, construiu uma fortuna que o fez comprar ações de rádios e TVs, além de ter sido interventor do Jornal da Bahia, assassinando o jornal aos poucos, através de uma linha editorial mais popularesca.

COOPTAR PARA CONTROLAR

Talvez isso explique o fato de Kertèsz tentar nos últimos anos se desvincular do carlismo. Mas há outros motivos. Primeiro deles, é a falsa imagem de "mídia independente" da tendenciosa e fraudulenta Rádio Metrópole, uma FM com QI de emissora AM de baixa categoria. Segundo, por ter se sentido "abandonado" pelos "caciques" do carlismo. Mas o terceiro aspecto é que deixa uma séria preocupação, que pode ameaçar o avanço das forças progressistas na Bahia.

A obsessão de Mário Kertèsz em se apropriar das esquerdas na Bahia, que vem desde sua segunda gestão como prefeito de Salvador, nos anos 80, além de tentar camuflar seu passado conservador, é uma forma de obter o controle das forças progressistas, evitando o seu avanço.

Desse modo, o astro-rei da Rádio Metrópole se apropria das vanguardas culturais e políticas, incluindo professores universitários - embora, neste caso, até os machistas e bregófilos Milton Moura e Roberto Albergaria "estão dentro" - , para não somente associar sua imagem a elas, mas impedir que suas ações autônomas possam comprometer os privilégios das elites poderosas na Bahia.

Afinal, Kertèsz também é amigo de políticos corruptos locais e também de grandes fazendeiros e empresários baianos. É, portanto, um simpatizante do coronelismo estadual mascarado pelo fisiologismo político "progressista" que não impede de promover a miséria e a fome no interior da Bahia.

Nem toda a esquerda apoia Kertèsz. Há vários políticos, sindicalistas e ativistas sociais que não sentem a menor confiança no "radialista", que dependendo das circunstâncias bajula ou esculhamba as esquerdas, sobretudo pelo microfone de sua rádio, onde ele fala o que quer, embora tenha que ler o que não quer, como as críticas que crescem na Internet contra ele.

O que existe é apenas uma aceitação silenciosa quanto ao apoio tendencioso do dono da mais tendenciosa rádio de Salvador. No caso de Nelson Pelegrino for eleito, esses setores menos fisiológicos das esquerdas baianas voltarão a criticar Kertèsz assim que o novo prefeito tomar posse.

AMEAÇA À REGULAÇÃO DA MÍDIA

Como um equivalente baiano do ex-primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi, Mário Kertèsz, com sua apropriação tendenciosa às esquerdas, significa uma ameaça potencial aos trabalhos que o Conselho de Comunicação Social da Bahia faz para diminuir os efeitos nocivos do coronelismo midiático baiano.

Com o poderio limitado à família Simões (A Tarde), aos herdeiros de ACM (Rede Bahia) e aos "coronéis" radiofônicos (Pedro Irujo, Cristóvão Ferreira, Marcos Medrado e Mário Kertèsz), mais as franquias familiares das redes Transamérica e Bandeirantes, a mídia baiana é considerada uma das mais retrógradas do país, tomadas de um conservadorismo doentio, esquizofrênico mas por vezes falsamente moderno.

Kertèsz é, portanto, um dos barões da mídia regionais, talvez o maior deles, depois dos herdeiros de ACM. E se mostra mais tendencioso e prepotente que o empresário e senador Antônio Carlos Magalhães Júnior, o administrador principal da Rede Bahia, que apenas segue a cartilha deixada pelo pai, enquanto deixa a TV Bahia se adequar ao know how técnológico, profissional e ideológico das Organizações Globo.

Neste sentido, a Rádio Metrópole é muito mais perigosa. Ela veste a máscara da "mídia independente", se passando por "progressista" aos olhos dos incautos, enquanto mostra-se no fundo alinhada com a mídia mais conservadora, até mesmo nos plágios publicitários que havia feito.

Certa vez, a Rádio Metrópole publicou uma propaganda plagiando um anúncio da CBN em que aparece um cachorro com um rádio na boca. E o jornal Metrópole, vinculado à rádio e seu dono, já havia copiado a concepção visual dos cadernos da Folha de São Paulo.

A emissora é de longe a mais tendenciosa da Bahia, e talvez uma das mais tendenciosas do Brasil, contrariando a tese preguiçosa e datada de que tendenciosismo midiático se limita ao reacionarismo mais comezinho. Até porque a Rádio Metrópole tenta soar "progressista" e "liberal" certas vezes, mas em várias outras adota surtos reacionários de fazer os editores de Veja arrepiarem os cabelos.

Por isso a situação requer cautela. Mário Kertèsz é uma figura perigosa. Como na história do médico e do monstro de Robert Louis Stevenson, ele é capaz de ser gentil, elegante e compreensivo com todos, se passando por progressista e moderno, mas em outros momentos se enfurece, calunia, ofende e agride, além de seus surtos reacionários serem violentos e descarados.

Deve-se, portanto, tomar cuidado com o apoio dele ao PT, antes que ele contribua para empastelar as poucas políticas progressistas que surgem na Bahia, principalmente a regulação midiática do Conselho de Comunicação Social. Este conselho não pode se tornar um acampamento de interesses pessoais do astro-rei da Metrópole. Se se tornar, os baianos estarão perdidos.

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