segunda-feira, 1 de outubro de 2012

FEMINICÍDIO FORÇA IBGE A REVER CRITÉRIOS PARA CENSO


Por Alexandre Figueiredo

O quadro de feminicídio que acontece desde 1977, aliado a outros fatores da alta mortalidade feminina brasileira como erros médicos, doenças e acidentes de trânsito, obriga o país a repensar a situação e abrir mão de mitos.

Esses mitos da "maioria feminina" na população brasileira, difundidos desde o Censo de 1970 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além de não contribuir em si para a melhoria social das mulheres brasileiras, joga para debaixo do tapete as violências que a criminalidade e a vingança machista fazem contra a vida de muitas delas.

Preso a critérios viciados herdados da ditadura militar, onde até mesmo valores machistas, como parte de toda uma ideologia conservadora levada em conta, eram usados para favorecer o mercado turístico e hoteleiro do Brasil, o Censo do IBGE não superou tais práticas, "escondendo" uma grande quantidade de homens que consistiriam em maioria na população do país.

Esse dado não corresponde a paranoia alguma, mas resulta de uma comparação com o Censo de 1960, onde havia uma proporção aproximada de 102 a 105 homens para cada grupo de 100 mulheres. Naquela época a violência ainda não era tão grande e a vulnerabilidade feminina não era tanta, em que pesem os casos trágicos, ambos cariocas, da menina Taninha, morta em 1960, e da jovem Aída Curi, morta dois anos antes.

As rodovias eram menos movimentadas, a violência menos intensa, não havia o estímulo ao fumo, álcool e drogas ilícitas que tornaram as mulheres mais vulneráveis hoje. Falar dessa vulnerabilidade ainda é um tabu, sobretudo pelo pretexto que os homens também sofrem altos índices de mortes violentas no Brasil.

Sim, eles sofrem, mas o aumento das mortes violentas apenas seguiu o ritmo proporcional do crescimento das populações, talvez com um leve aumento. Mas isso não quer dizer que eles se tornaram minoria nos censos posteriores a 1960.

Pelo contrário, nota-se, nas ruas, nos ônibus, nos trens e nos estádios de futebol, só para citar alguns lugares, que os homens são maioria mesmo nas capitais do país. Além disso, o alto índice de feminicídio em Estados litorâneos como Espírito Santo, Alagoas e Paraíba pode derrubar de vez o mito de que as mulheres são maioria nas populações litorâneas. Espírito Santo tende a ser, em 2020, um Estado litorâneo declarado oficialmente (pelo Censo do IBGE) como de maioria masculina.

Mas cidades como Salvador, Belo Horizonte, Niterói, Florianópolis e Rio de Janeiro já mostram também essa tendência, de uma forma ou de outra. O que desafia os estatísticos, tão acostumados em criar recenseamentos que ignorem grandes mudanças, sobretudo na proporção de gêneros na população brasileira.

Deve-se também observar que há uma grande parcela de homens ignorada pelos recenseadores. Quando muito, aparecem tão somente em suposições estatísticas. As favelas, muitas com seus acessos difíceis, suas casas amontoadas e, além disso, controladas pela criminalidade, e as populações nômades dos calçadões das cidades, e, por outro lado, a "ausência" de homens de negócio e outros profissionais sobretudo por causa de viagens de avião, fazem a população masculina brasileira "diminuir" pela ocultação de vários indivíduos dos quadros censitários.

São manobras herdadas da ditadura militar, mas transformadas em "método" até hoje. Naquela época, a ditadura "escondia" homens da população para criar o mito do "Brasil mulher" que tentasse tanto "amansar" a revolta feminista quanto permitir o êxito da sensualidade feminina como elemento publicitário para o mercado turístico-hoteleiro.

Infelizmente, não dá para apostar no mito de "maioria feminina" para a população brasileira, como realidade concreta. Esse mito não resolve em si os problemas vividos pelas mulheres e apenas serve para "atenuar" os estragos da violência machista, da violência do trânsito e dos descasos dos hospitais.

Isso porque a ideia duvidosa de que "tem mais mulher na população brasileira" não vai trazer de volta ao convívio as mulheres mortas pela violência conjugal, pelos acidentes de trânsito, pelos assaltos e sequestros, pelos erros médicos, pelas overdoses de drogas, pelos efeitos do álcool e da nicotina. Esse mito do "Brasil mulher" serve mais para suavizar a culpa dos machistas do que para fortalecer a mobilização feminina.

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