quarta-feira, 31 de outubro de 2012

ELZA SOARES E SUA CAUTELOSA AVALIAÇÃO DO SAMBA BRASILEIRO


Por Alexandre Figueiredo

Um dos grandes nomes da Música Popular Brasileira autêntica, a cantora Elza Soares, que atualmente divulga a música "Samba de Preto", que ela gravou em parceria com a banda de rock vanguardista Huaska, deu um depoimento recente sobre os rumos que vive o samba brasileiro.

Aparentemente, ela demonstrou bastante cautelosa em avaliar a situação, preferindo não polemizar muito, mas a declaração não deixa também de apresentar um discreto tom de crítica ao que se vê hoje em relação ao ritmo.

“Não sou capaz de dizer o que sinto sobre o samba de hoje, porque tenho medo. Como uma boa brasileira, que viu o samba de verdade, na raiz, eu vejo uma transformação muito grande: na letra, melodia, no próprio samba... Não quero dizer se foi para pior ou para melhor. Mas a juventude, hoje em dia, aceita tudo o que tem. Muitas vezes, estamos bem longe da qualidade de Luis Reis, Cartola, tanta gente boa”, disse Elza.

Ela tem conhecimento de causa. Tendo surpreendido as rádios com seu samba influenciado pelo jazz e pela Bossa Nova - ela chegou a participar de um festival, em 1960 - e dotado de muita informação musical, já a partir de seus primeiros discos de 1960 e 1961, tendo sido uma das pioneiras do sambalanço e que ao longo dos anos sempre se manteve musicalmente atualizada.

Dos dois sambistas citados, Luís Reis é hoje pouco conhecido, mas ele foi bastante prestigiado como um dos pioneiros do sambalanço e autor do famoso samba "Palhaçada" (dos versos "Cara de palhaço / Pinta de palhaço / Roupa de palhaço / Até o fim!"), que fez com Haroldo Barbosa e que em 1961 foi gravado por Miltinho. Dóris Monteiro e a própria Elza Soares (acompanhada de Wilson das Neves) também gravaram a música.

Hoje em dia, a crise da música brasileira é reconhecida pelos mais experientes. A música brasileira sucumbiu a um comercialismo escancarado, coisa que nem mesmo o mais esforçado dos intelectuais apologistas consegue desmentir com segurança. A influência da música brega se torna mais predominante do que qualquer legado da música popular de nossos antepassados.

No samba, há a ascensão mercadológica do sambrega que, mesmo com alguns artifícios pedantes - dentro das regras da "MPB de mentirinha" das TVs e rádios - , como a imitação de clichês popularizados por Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Fundo de Quintal e Jorge Ben Jor, não consegue honrar o verdadeiro samba.

Em muitos aspectos, há a mera submissão a fórmulas radiofônicas. Mesmo a assimilação estrangeira da soul music norte-americana por grupos como Exaltasamba e Revelação e por cantores como Belo e Alexandre Pires nem de longe soa criativa e é muita covardia compará-los com o que Denis Brean, por exemplo, havia feito nos anos 40 e 50 com as influências jazzísticas.

Hoje, se alguns desses falsos sambistas, verdadeiros doentes do pé, tentam inovar, é mais pela mera linha de montagem ditada por tendências musicais da moda do que pela natural vocação de inovar. São apenas fórmulas feitas para tornar os cantores envolvidos mais "digestíveis" para plateias mais ricas e ao mesmo tempo maleáveis e submissos às mudanças no mercado musical.

Musicalmente, o chamado "pagode romântico" soa postiço, fajuto e superficial, e sua desesperada busca de se apropriar do sambalanço soa por demais oportunista. A redescoberta de Wilson Simonal, por exemplo, é feita pelos mesmos sambregas que, antes, desprezariam completamente o cantor.

Além disso, resultados desse tendenciosismo como o tal "Eletrosamba" de Alexandre Pires em nada significam, sendo apenas uma nova embalagem para o já desgastado sambrega. Mas o sambrega, como um todo, do "emergente" Thiaguinho ao "coitadinho" Leandro Lehart, padece de sua mediocridade gritante, que nenhum acréscimo de informações musicais o torna mais criativo.

Falta emoção, falta identificação natural. O sambrega é apenas uma "linha de montagem", quando muito herdeiro do "sambão-joia" da ditadura militar (Benito di Paula, Luís Ayrão etc), que estava para o sambalanço assim como a turminha de Pat Boone e Bobby Darin estava para o rock'n'roll de Elvis Presley.

Portanto, se uma cantora comprometida com a modernização musical se mostra preocupada com os rumos do samba brasileiro, é bom a juventude parar para pensar, porque a breguice que está aí não pode ser confundida com a verdadeira modernização que enriquece a expressão artística. Afinal, a breguice faz o contrário: torna a arte bem mais precária e chula.




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