quarta-feira, 24 de outubro de 2012

BANALIZAÇÃO E AGONIA DA CULTURA ALTERNATIVA


Por Alexandre Figueiredo

A cultura alternativa, no Brasil, até existiu e continua existindo, mas nos 25 últimos anos ela sucumbiu a uma antes inimaginável deturpação e descaraterização que, recentemente, atingiu níveis extremos.

Afinal, o mais recente produto atribuído, até de modo bastante equivocado, à cultura alternativa é um tributo em repertório digital do conjunto de sambrega Raça Negra (?!), intitulado Jeito Felindie.

Pelo menos, quando havia o tributo ao igualmente brega Odair José, algum background roqueiro era justificável. Odair, pelo menos, era um ícone retardatário da Jovem Guarda, era o nosso Pat Boone, fazer um tributo "alternativo" a ele era duvidoso e discutível, mas ainda era compreensível.

Já o tributo ao Raça Negra - em que pese ter havido um ex-membro do ótimo The Jordans na formação (o que sugere muito o quanto parte da JG se corrompeu depois do fim do movimento) - não dá para entender, afinal eles eram o establishment do establishment do establishment do hit-parade brasileiro. É mais ou menos como trotskistas prestando homenagem ao ultracapitalista Roberto Campos.

Mas há uma razão sociológica sobre o fato de jovens "descolados" - termo que expressa uma forma estereotipada e caricata de ser alternativo - cultuarem o brega-popularesco, principalmente ídolos que aparentemente estão fora das rádios (mais por uma questão de fim de modismos do que por uma suposta injustiça midiática).

Primeiro, porque esses jovens são dotados de referenciais contraditórios e confusos que resultam de situações bastante opostas. São a tal geração Y que vive uma crise de valores morais, sociais, culturais e econômicos que eles não percebem, porque acham que vivem numa prosperidade "pop" cuja problemática, se chegam a admitir, não é sem algum esnobismo arrogante e condescendente.

Numa época em que seus pais iam para o trabalho, se divorciavam e não tinham tempo para a dedicação total dos filhos, geralmente nos anos 80 e 90, os jovens de hoje eram, na infância, criados por empregadas domésticas de baixa escolaridade que mal tinham capacidade de cuidar delas mesmas.

Isso não é um comentário desaforado, é fruto do cenário social, político e midiático que vivíamos. Era Sarney, Era Collor, escolas em greve, arrocho salarial, corrupção política, desvio de verbas da Educação para os bolsos das autoridades e seus "laranjas". Tudo isso havia criado empregadas domésticas alienadas, sub-alfabetizadas e praticamente manobradas pela breguice orquestrada pela velha grande mídia.

Por outro lado, esses jovens educados por babás sub-escolarizadas acabavam indo para as universidades. Tão vagamente, ouviram falar sobre uma tal cultura alternativa, através de uma mídia que distorcia as coisas, bem mais do que qualquer conversa de pescador.

Aí achavam que ser alternativo é adotar um comportamento porralouca, andar de chilenos nas faculdades, misturar um visual meio hippie e meio skatista e escrever seus próprios jornaizinhos. Com esses referenciais contraditórios, a breguice televisiva da infância e a cultura alternativa universitária, eles criaram um perfil esquisito, bem menos alternativo na essência, porque é bastante convencional.

Ser "inconvencional" é que ficou convencional. No hit-parade norte-americano, vemos ídolos mais preocupados com "escândalos" e "atitudes polêmicas" e que cantam letras "confessionais" que falam mal de algum desafeto. Acham que viraram "vanguarda" por adotarem uma postura oposta ao ilusionismo recente do pop dançante de tempos atrás, quando seus cantores apenas diziam "mexa seu corpo, dance a noite toda, esse é o calor do momento".

A própria grande mídia, com suas distorções violentas - que teriam envergonhado Sérgio Porto, se ele estivesse vivo hoje - , praticamente cria "alternativos" culturalmente superficiais, gente que só é "alternativa" nos vestuários e nas poses.

Talvez tenhamos um alternativo poser e não sabemos. São pseudo-nerds e pseudo-engajados misturando trajes hippies com trajes skatistas, tirando fotos dentro de livrarias, diretórios estudantis, em quartos cuidadosamente desarrumados cheios de revistas de quadrinhos, discos de vinis, pôsteres diversos.

Com a pressão do ensino universitário, eles acabam apressadamente, como todo "descolado", vendo filmes de Buñuel e Godard e também dos cineastas do Cinema Novo, lendo parcialmente textos de Charles Bukowski, Mário Quintana, Caio Fernando Abreu, sabendo sobre peças de teatro modernistas e "causos" sobre o movimento tropicalista, a Contracultura e o punk rock.

Juntando essa gororoba de alhos alternativos e bugalhos cafonas - ou "bregalhos" - , esses jovens querem ser "alternativos" cultuando até o Menudo. E essa mistureba de referências não cria jovens culturalmente mais criativos. Quando muito, soam apenas mais irreverentes e irônicos.

Enquanto isso, a verdadeira cultura alternativa agoniza, sem poder se zelar como cultura ou mesmo como um mercado independente e sustentável. O establishment brega-popularesco já começa a sufocar as outras expressões culturais, que perdem seus próprios redutos aos poucos, e são obrigadas a serem cooptadas pela breguice dominante para, ao menos, serem financeiramente viáveis.

O resultado de tributos a Odair José e Raça Negra, portanto, soa bastante convencional. Na melhor das hipóteses, expressa apenas a banalização de clichês alternativos no hit-parade brasileiro. Clichês que, se não fosse a choradeira intelectualoide evocando falsas alusões à "cultura brasileira", ao "folclore" e à "cultura independente", teriam sido vistos apenas como algo banal e sem muita importância.

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