segunda-feira, 29 de outubro de 2012

ACM NETO E O NEO-CARLISMO


Por Alexandre Figueiredo

O Partido dos Trabalhadores não conseguiu eleger seu prefeito para Salvador. No plano estadual, o PT ainda não conseguiu mostrar grandes avanços, apesar de algumas medidas interessantes, como o Conselho Estadual de Comunicação, um marco diante de um Estado onde havia uma mídia sem lei, um coronelismo de rádio portátil com seus "coroneletes" controlando emissoras e sendo seus "astros-reis".

Só que um desses "coronéis" midiáticos, justamente o que mais pratica seu culto à personalidade, teve a infeliz ideia de apoiar o candidato derrotado, Nelson Pelegrino. Mário Kertèsz, o "Maluf baiano", o "Berlusconi com dendê", o astro-rei da Rádio Metrópole, o ex-político mas sempre politiqueiro que há um bom tempo brinca de ser "radiojornalista", acabou virando um "pé-frio" para a chapa petista.

Nem todo petista sente simpatia por Kertèsz. Pelo contrário, políticos baianos realmente comprometidos com os movimentos sociais sempre viram no empresário um oportunista. Quem pensa longe e não é traído pelas seduções da memória curta sabe que Kertèsz é um afilhado político de Antônio Carlos Magalhães que depois se magoou ao se ver preterido pelo padrinho em prol de outros apadrinhados.

Kertèsz só era apreciado, e mesmo assim sob condições "pragmáticas", pela ala fisiológica das esquerdas baianas. Oportunista, o empresário que, como prefeito de Salvador, criou um grande esquema de corrupção para montar sua fortuna pessoal e seu patrimônio midiático (que depois teve que ser parcialmente desmontado a cada denúncia), é também conhecido pelo seu tendenciosismo e hipocrisia.

Afinal, Kertèsz tenta parecer na sua rádio o contrário do que é. Machista, conservador, faccioso, parcial, tenta parecer "feminista", "progressista" e tendenciosamente dar espaço às mais diferentes correntes ideológicas, até porque a palavra final é sempre dele. E, como locutor, ele soa forçado e caricato, com uma dicção que oscila entre a de um gerente de hotel e a de um dono de um botequim de subúrbio.

Ele ainda é capaz de ter surtos direitistas de fazer o pessoal da Veja ficar de cabelo em pé. Se ele anda magoado com os herdeiros de ACM e com o carlismo como um todo, é que ele esperava ser o grande líder entre os herdeiros políticos de ACM, mas acabou sendo deixado em segundo plano.

Nelson Pelegrino não conseguiu que as bases mais íntegras de apoio, como os movimentos sociais de trabalhadores, estudantes e intelectuais, se sobressaísse para elegê-lo como substituto de João Henrique (o ex-pedetista ligado ao PMDB), que fez duas administrações desastrosas em Salvador. E a falta de carisma e de grandes realizações de Jacques Wagner só desanimou os soteropolitanos. Lula e Dilma não conseguiram emprestar seus prestígios e Mário Kertèsz e sua campanha irregular na rádio só melaram a chapa petista.

Talvez o apoio de Kertèsz - que nem de longe é o "Rei do Ibope" que tanto alardeiam na Bahia - ao PT se deva mais à amizade que o empresário tem pelo publicitário Duda Mendonça, envolvido na "turma do mensalão" tal qual o sócio de Kertèsz, Roberto Pinho, seu parceiro no famoso desvio de verbas públicas na segunda gestão de Mário Kertèsz como prefeito de Salvador.

Duda Mendonça, que havia em outros tempos sido publicitário de Paulo Maluf, há muito realiza serviços para o PT, ajudando na eleição de Lula e na promoção de uma imagem mais acessível do Partido dos Trabalhadores, fazendo com que seu projeto político se diluísse através de um programa mais "pragmático" que nem sempre agradou as esquerdas.

Em Salvador, a "lipoaspiração" ideológica do PT, através da eleição de Jacques Wagner, de origem carioca, fez com que o programa do partido se tornasse impotente para muitos problemas vividos na capital baiana, como o crescimento urbano desordenado causado sobretudo pelo êxodo rural de proporções preocupantes.

Eu mesmo observei, quando morava em Salvador, em 2007 e 2008, que muitos ônibus atribuídos à Secretaria de Saúde de vários municípios do interior levavam passageiros a pretexto deles serem atendidos em hospitais de Salvador, como o Hospital Geral do Estado, localizado junto à Av. Vasco da Gama, e o Hospital Central Roberto Santos, localizado em Narandiba, região do Cabula.

Sem estrutura para manter uma grande população e tomadas não só pela corrupção política mas pelo coronelismo, várias cidades do interior baiano ainda parecem viver nos tempos do Segundo Império, tomadas de muita pobreza e isoladas até do que ocorre de mais banal no resto do Brasil.

Por isso, várias pessoas - principalmente homens, que engrossam uma estatística ainda não reconhecida no Ibope, que atribui a vários habitantes masculinos de Salvador como se ainda vivessem nas suas cidades de origem - acabam deixadas à própria sorte em Salvador, fugindo de cidades atrasadas mas sem poder encontrar qualquer vida digna na capital baiana.

O crescimento desordenado é observado até quando se chega no Aeroporto e se vê enormes áreas faveladas em São Cristóvão, ou quando se chega na Rodoviária, na altura do Iguatemi, e se vê o grande bairro favelado no entorno do Jardim Brasília e atrás da estação de ônibus rodoviários, e que é considerado um dos mais violentos da cidade. Ironicamente, a Rádio Metrópole tem sede nas suas proximidades.

Há muitos sem teto no centro de Salvador, e ficou praticamente impossível transitar até mesmo na Rua Carlos Gomes, mesmo nos dias de semana. Já nas tardes de sábado, o risco de alguém transitar por essa rua sem ser assaltado é praticamente mínimo, tantos os viciados em drogas que perambulam pelo lugar.

Além do mais, o erro de desativar o elevado Gonçalves - que poderia aliviar o fluxo de passageiros do Elevador Lacerda - e a falta de alguma iniciativa prática para revitalizar o Comércio e o centro soteropolitano, ou criar um corredor cultural que vai do Terreiro de Jesus ao Campo Grande. Discussões existem, mas não há um investimento maciço para criar um corredor atraente e mais seguro.

Antônio Carlos Magalhães, pelo menos, investia em infra-estrutura. Evidentemente, seu compromisso com os movimentos sociais era apenas tendencioso, e seu desenvolvimentismo urbanista tinha mais a ver com um modelo que Juscelino Kubitschek já fazia (e bem melhor) e que Carlos Lacerda adotou na antiga Guanabara. E que, em parte, a ditadura militar encampou, tirando os aspectos progressistas do projeto.

Seu neto talvez possa agir nesse sentido. Ele nega que pretende ressuscitar o carlismo, mas certamente ele expressará o neo-carlismo, o conservadorismo do liberal-populismo de seu avô, em um novo contexto, embora não haja garantia se ACM Neto continuará no DEM, o partido que, na sua linha ideológica, havia herdado uma linhagem que começou na UDN e passou pela ARENA, PDS e PFL.

Mas sua administração não será progressista, e o contraste ideológico com o plano estadual dificultará as coisas. Os soteropolitanos terão que esperar, pelo menos, por medidas paliativas de construção de conjuntos habitacionais populares para absorver a população das favelas ou das ruas e da criação de centros de tratamento de usuários de drogas, além de fortalecer a segurança nas ruas. Pelo menos isso.

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